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Carreira12 janeiro 2026

Capacitismo: o que é e por que evitar na consulta médica

Entenda como combater o capacitismo na medicina e usar uma linguagem respeitosa no cuidado à pessoa com deficiência
Por Ester Ribeiro

Ainda por volta dos meus vinte anos de idade, resolvi aprender Libras com uma professora surda. Lembro-me dela insistindo em nos ensinar que ela não era “muda”, afinal, ela se comunicava muito bem e estava dando aula para todos nós. Depois, pelas demandas da faculdade e desarranjos nos horários das aulas, não pude continuar meus estudos desse idioma. Mas aprendi muito, não apenas da sua língua, mas com seu jeito.

Termos pejorativos, sejam por ignorância ou preconceito mesmo não deveriam ser usados, ainda mais se tratando de profissionais médicos. Embora estejamos habituados a prestar cuidado usando o melhor da ciência atualizada, a escuta atenta e o respeito à dignidade da pessoa nem sempre acompanham a mesma precisão. Quando atendemos uma pessoa com deficiência, isso se agrava: não raro, a deficiência é vista como um obstáculo a ser corrigido, uma condição que define totalmente o paciente ou até mesmo um motivo de “pena”. Mas a deficiência não deve ser reduzida a um defeito, e o ser humano não deve ser definido apenas pelo que funciona ou não em seu corpo.

Então, de forma prática: como nós, médicos, como podemos tratar pessoas com deficiência com mais dignidade e menos preconceito? Vamos começar pelas palavras que usamos — pois elas moldam as atitudes, os olhares e o cuidado.

O que devemos evitar fazer

1 – Falar com o acompanhante em vez de falar com o paciente – a não ser que seja solicitado ou se tratando de uma deficiência cognitiva grave ou na falta de diligência sua para se comunicar com aquela pessoa – como um surdo – fale com o acompanhante. Mas não deixe de olhar e conversar com seu paciente como conseguir. É comum, por exemplo, que médicos dirijam a maior parte da conversa à mãe de uma criança com deficiência intelectual, ou ao cuidador de um paciente cadeirante, ignorando quem está sendo atendido. Isso comunica, ainda que involuntariamente, que aquele paciente “não tem voz”.

2 – Reduzir o paciente à deficiência – Se você está atendendo a rinite de uma pessoa com TEA, você não precisa focar em sua deficiência neurológica, já que o seu foco de atuação naquele momento não é o neurológico. Dizer frases como “o autista da sala”, “a cadeirante”, “o síndrome de Down”, transforma pessoas em diagnósticos. A deficiência é uma condição, não uma identidade total.

3 – Excesso de condescendência ou elogios fora de lugar – Você não faz isso com todas as pessoas, faz? Não faça com ele. Soa como bajulação barata. Falar “nossa, que guerreiro”, “parabéns por sair de casa” ou “você é um exemplo!” pode parecer elogioso, mas muitas vezes reforça o estereótipo de que pessoas com deficiência são especiais por realizarem o que qualquer pessoa faz.

4 – Tocar ou movimentar o corpo do paciente sem pedir consentimento. Geralmente avisamos que vamos avaliar o paciente, mas aqui vale também para cadeiras de rodas, bengalas, próteses e aparelhos. Eles fazem parte da autonomia do paciente e devem ser respeitados como se fosse uma extensão de seu corpo; vai movimentá-las? Avise o paciente e peça licença para aquilo.

  • Supor que a deficiência está sempre relacionada ao motivo da consulta: Um paciente com paralisia cerebral pode estar ali por uma dor abdominal, e um paciente surdo pode querer falar sobre acne. Nem toda queixa se relaciona com a deficiência.
  • Falar devagar ou alto demais com pessoas surdas ou com deficiência intelectual, sem avaliar a real necessidade: Comunicação adequada não é sinônimo de infantilização.

 

O que evitar

Algumas palavras ou expressões são amplamente utilizadas, inclusive por profissionais da saúde, mas já foram superadas por termos mais respeitosos e precisos. Veja alguns exemplos:

Evite dizerPrefira dizerPor quê?
Portador de deficiênciaPessoa com deficiênciaA deficiência não é algo que se “porta” como um objeto. É uma característica da pessoa, não um acessório.
Deficiente / inválido / incapacitadoPessoa com deficiênciaO termo “deficiente” isolado define a pessoa por uma suposta “falta”, e “inválido” carrega conotação de inutilidade.
Surdo-mudoPessoa surdaNem toda pessoa surda é muda. A surdez não implica necessariamente ausência de fala.
Pessoa normal (em oposição a alguém com deficiência)Pessoa sem deficiênciaFalar “normal” sugere que quem tem deficiência é “anormal”, o que não é verdadeiro nem respeitoso.
Sofre de paralisia / é vítima de…Pessoa com paralisia / com diagnóstico de…A linguagem de sofrimento pode reforçar estigmas e vitimismo, quando o paciente pode ter boa qualidade de vida com sua condição.
Aleijado, retardado, mongoloide, autista (como adjetivo pejorativo)Pessoa com deficiência física / com deficiência intelectual / com TEAEsses termos são ofensivos e discriminatórios. É fundamental respeitar as nomenclaturas clínicas e humanas.

 

Posturas para adotar

  • Fale com o paciente, mesmo que ele tenha um acompanhante. Se for necessário, use recursos: escrita, imagens, libras, objetos de apoio. A comunicação eficaz deve ser adaptada, não excluída.
  • Pergunte, não suponha. Como a pessoa prefere ser chamada? Precisa de ajuda para se locomover ou prefere fazer sozinha? Dê espaço para que ela diga como se sente mais confortável. Ela irá valorizar o seu esforço em querer seu bem estar.
  • Considere a autonomia como valor central. A deficiência não invalida o desejo ou a capacidade de tomar decisões sobre o próprio corpo. Sempre que possível, envolva o paciente nas escolhas terapêuticas.
  • Lembre-se de que a deficiência não elimina a complexidade da pessoa. Pessoas com deficiência têm sexualidade, espiritualidade, desejos, opiniões, medos, hobbies. Trate cada paciente como um ser deve ser tratado – humano inteiro.

Conclusão

Vivemos em uma sociedade que valoriza excessivamente a produtividade, a performance e a funcionalidade. Isso pode nos levar — mesmo sem perceber — a desvalorizar quem não se encaixa nesse modelo; isso inclui os idosos e crianças também. Mas a dignidade humana não está no que alguém consegue fazer, no quanto anda, fala, vê ou compreende. Está no simples fato de ser humano.

Como médicos, temos a responsabilidade de cuidar não apenas do corpo, mas da pessoa inteira. E isso começa pelas palavras que usamos, pelos olhares que lançamos e pelas barreiras (físicas e simbólicas) que ajudamos a derrubar.

Tratar bem uma pessoa com deficiência não é um favor, nem um gesto heroico. É o mínimo ético. E é também uma forma de lembrar a todos — inclusive a nós mesmos — que nosso valor não está em nossa performance, mas em nossa humanidade compartilhada.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

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