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Carreira29 março 2025

Caso clínico: Dá para curar o vazio da alma?

Mulher jovem apresenta ingestão excessiva de medicamentos. A causa? Vazio na alma. A sonda nasogástrica calibrosa não é o suficiente

Na série especial “Histórias de Cuidado: Relacionamento médico-paciente”, compartilhamos relatos de médicos sobre casos que vivenciaram em sua rotina e como lidaram com cada situação de forma gentil e empática.

O objetivo é explorar a Medicina sob uma perspectiva mais subjetiva, revelando as nuances do cuidado com o paciente.

Boa leitura!

Leia mais: 8 estratégias para melhorar a relação com seus pacientes durante as consultas

médico consolando um paciente em um relacionamento de empatia

Caso clínico

Há alguns meses, enquanto atendia em uma Unidade de Emergência, recebi uma menina-moça no alto de seus quinze anos, que havia ingerido medicamentos de forma abusiva. Perguntei a ela sobre sua intenção, e ela, pensativa respondeu:

– “Queria acabar com esse vazio enorme que sinto aqui dentro.”

Uma compaixão enorme tomou conta de mim naquele momento, e mais do que nunca me perguntei, tamanha a desesperança de uma menina diante do mundo e da própria existência: O que estamos fazendo com as nossas crianças?

Puxei uma cadeira e me sentei ao lado dela, peguei sua mão e ficamos ali, em silêncio por alguns minutos. Um copo d’agua para a sede, um lenço para as lágrimas, ouvidos para escuta e quando achei que o vínculo estava começando e se estabelecer, pedi ajuda à colega da psicologia na condução do caso.

Leia mais: Caso clínico: Essa não é uma história sobre prurido

O que fazer diante desse pedido de socorro?

Um olhar atento e a maneira certa de acolher podem transformar um paciente desesperançoso frente ao futuro. Famílias disfuncionais, falta de ferramentas internas diante das frustrações cotidianas ou mesmo um passado difícil podem ser desencadeantes do sofrimento e é preciso falar sobre isso, perceber o pedido de socorro e abordar o problema da maneira correta e sensível.

A porta de entrada desses pacientes, na maioria das vezes, não é o consultório do especialista em saúde mental, e sim uma sala de emergência; superlotação, profissionais cansados e sobrecarregados, pacientes graves. É um cenário muito propenso à hostilidade e à banalização das demandas emocionais.

Muitas vezes os corredores do hospital ecoam frases como “Fez para chamar a atenção”, “Não tem motivos para estar triste, tem de tudo”, e tais pacientes são submetidos a procedimentos invasivos desnecessários seguindo o raciocínio equivocado de que se se sentirem desconfortáveis, serão desmotivados a cometer auto agressões posteriores.

A dor da alma é real, o sofrimento de quem chega ao serviço de saúde porque teve a intenção de se machucar é tão intenso que deve ser encarado com uma emergência psiquiátrica. Esse paciente precisa de abordagem imediata, gentileza, profissionais treinados, equipe multidisciplinar e compaixão.

Dá pra curar o vazio?

A menina-moça do início da história foi acolhida por uma equipe multiprofissional, contou sua história que era tão igual à história de muitas meninas contemporâneas.

Do ponto de vista da intoxicação pelos medicamentos, não houve conduta específica. Então vieram a mãe, o pai, as questões de todos e de cada um. Foram 24 horas em uma unidade de emergência e um encaminhamento para acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Durante aqueles quinze minutos que estive sentada ao seu lado, eu poderia estar prescrevendo soro e exames, passando uma sonda nasogástrica calibrosa e dolorosa pelas suas narinas para retirar alguns comprimidos sem toxicidade ou simplesmente atendendo a algum outro paciente com pneumonia ou infarto. Mas fiquei ali.

Não sei se o copo d’agua, o lenço ou a escuta farão a diferença na vida dessa menina, nem em seu desalento. O que sei é que são essas pequenas coisas que preenchem o nosso próprio vazio existencial.

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