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Cardiologia27 junho 2023

Controle da pressão arterial no AVC agudo: o que precisamos saber

O aumento excessivo da PA pode piorar o edema e/ou o sangramento cerebral tanto para o AVC hemorrágico como para o AVC isquêmico.

Por Isabela Abud Manta

O controle da pressão arterial (PA) desempenha um papel chave na fase aguda do AVC. Por um lado, o aumento da PA melhora a pressão de perfusão cerebral (PPC), por outro, o aumento excessivo pode piorar o edema e/ou o sangramento cerebral. 

Leia mais: Hemostasia e coagulação: você sabe o que é o INR?

Esse paradoxo se aplica tanto para o AVC hemorrágico como para o AVC isquêmico, principalmente o grande AVCi, quase hemisférico. Desse modo, não é surpresa que um grande estudo de acompanhamento de pacientes com AVC agudo tenha mostrado uma relação em “U” entre PA na admissão ou nas primeiras 24 horas e desfecho e prognóstico. 

tabela com dados sobre PA e desfecho
Figura 1. Resultado do estudo “International Stroke Trial”, com relação entre PA e desfecho. Observe na linha superior, tracejada, a relação em formato de U entre PA sistólica e morte ou sequelas (“dependency”) – se PA muito alta ou muito baixa, pior para o paciente (stroke. 2002;33:1315-1320)

 

A grande dificuldade está em estabelecer os limites da PA, tanto superior quanto inferior e, até o momento, temos as evidências abaixo disponíveis:  

médica medindo a pressao arterial de paciente na UTI

AVC isquêmico sem trombólise 

Nesse cenário, a artéria está total ou parcialmente ocluída e a prioridade é manter sua perfusão. Por isso, tolera-se mais hipertensão que o usual, até PA sistólica 220 mmHg e/ou diastólica 120 mmHg. Caso seja necessário tratar a PA, deve-se evitar reduções superiores a 15% nas primeiras 24 horas e usar drogas de ação rápida e meia vida curta.  

O nitroprussiato é a primeira escolha para pacientes mais graves, com acesso venoso profundo e PA invasiva. Nitroglicerina também pode ser utilizada, geralmente para pacientes menos graves, com acesso periférico e sem PA invasiva. No Brasil, não temos labetalol ou nicardipino, outras opções utilizadas em países da Europa e EUA.  

AVC isquêmico com trombólise química ou mecânica  

Há um risco pequeno, mas real, de transformação hemorrágica e por isso as diretrizes recomendam manter PAS < 180/185 mmHg e PAD < 105/110 mmHg. Da mesma forma que explicado acima, deve-se preferir medicações parenterais de meia vida curta. Estudos mostram que reduzir a PA mais que 10-15% e/ou PA média para valores < 85 mmHg e/ou PAS para valores < 140 mmHg estão associados com pior prognóstico, ou seja, mais sequelas. 

Veja ainda: Monitorização da Pressão Arterial Invasiva: além da Pressão Arterial Média (PAM)

AVC hemorrágico 

Aqui estamos falando do clássico AVC intraparenquimatoso, com as recomendações a seguir não se aplicando à hemorragia subaracnóide por aneurisma roto nem ao sangramento por TCE. 

Diversos estudos (INTERACT I e II e ATACH I e II) avaliaram o efeito da redução aguda (< 24h) da PA, com o objetivo de reduzir o volume de sangramento, porém a maioria foi negativa. Uma revisão sistemática investigou o pool de pacientes destes estudos e mostrou que, apesar de tolerada, a redução da PA para níveis < 140 mmHg não melhorou o prognóstico e esteve associada com maior risco de piora da função renal. Assim, a maioria dos autores tem recomendado PA sistólica em torno 160 mmHg (140-180) e diastólica em torno de 110 mmHg. A exceção é o paciente em coma, isto é, Glasgow < 8, no qual a prioridade é monitorar a pressão intracraniana e ajustar a PA para manter a PPC > 70 mmHg. 

Talvez essas recomendações de PA no AVC hemorrágico tenham mudanças nas próximas diretrizes, pois recentemente foi publicado o estudo INTERACT III, que avaliou a implementação precoce de uma série de medidas para tratamento de AVC hemorrágico, incluindo redução precoce da PA para níveis < 140 mmHg (em até 1 hora do início do tratamento, com PA mínima aceitável de 130mmHg). Com essas medidas houve melhora de sobrevida, qualidade de vida e menor ocorrência de eventos adversos. 

Autoria

Foto de Isabela Abud Manta

Isabela Abud Manta

Editora de Cardiologia da Afya. Médica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), especialista em Clínica Médica pela mesma Instituição e em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HCFMUSP). Pós graduação em Cardio-Oncologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Além da Afya, atua em consultório, hospitais públicos e privados e é instrutora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

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