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Anestesiologia26 agosto 2025

Uso da quetamina venosa no tratamento da depressão 

O uso da quetamina vem sendo estudado e utilizado como tratamento rápido e eficaz para a depressão resistente
Por Gabriela Queiroz

A quetamina é um anestésico dissociativo de uso consagrado em anestesiologia e medicina de emergência, que desde o início dos anos 2000, devido as suas características farmacodinâmicas, vem sendo estudado e utilizado como tratamento rápido e eficaz para a depressão resistente, especialmente em pacientes com risco iminente de suicídio. 

No Brasil, o uso da quetamina por via intravenosa para tratamento da depressão ainda não foi liberada pela ANVISA, sendo considerada terapia off-label, permitindo ser utilizada por essa via apenas por médicos, com termo de consentimento em clínicas especializadas, sob indicação clínica e responsabilidade inteira do prescritor.  

Mecanismo de ação 

A quetamina é um anestésico dissociativo, com ação complexa e potente, muito utilizado em anestesia geral, sedação e manejo da dor, pois possui uma ação analgésica muito significativa. Sua ação principal acontece no sistema nervoso central, especialmente pelo bloqueio dos receptores N-metil-D-aspartato (NMDA) responsáveis pela transmissão de estímulos excitatórios, bloqueando a transmissão da dor no cérebro e medula.  Produz uma anestesia dissociativa, no qual o paciente parece estar “desconectado” ao meio com uma analgesia e amnésia profunda, preservando os reflexos de vias aéreas e a ventilação espontânea. Também possui característica não depressora do sistema cardiovascular, mantendo pressão arterial, frequência cardíaca e débito cardíaco estáveis. 

No cenário do tratamento da depressão, em doses sub anestésicas, difere dos antidepressivos tradicionais, que agem no sistema serotoninérgico e demoram semanas para fazer efeito, a cetamina age rapidamente no sistema glutamatérgico, bloqueando os receptores e promovendo aumento da liberação de glutamato nas fendas sinápticas, um neurotransmissor excitatório, estimulando a neuroplasticidade e formação de novas sinapses e melhorando imediatamente a conectividade entre neurônios em regiões ligadas ao humor.  

Indicações clínicas  

Além das indicações a nível anestésico, atualmente vem sendo utilizada para tratamento da depressão grave com ideação suicida e transtorno depressivo maior, resistente ao tratamento convencional, com pelo menos duas classes diferentes de antidepressivos usados durante tempo suficiente. Alguns estudos também avaliam sua eficácia no transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático graves com prejuízo funcional significativo.  

Esquema de administração IV para depressão  

  • Via: infusão venosa lenta, com dose sub anestésica; 
  • Dose: geralmente 0,5 mg/kg em infusão por 40 minutos; 
  • Frequência: 1 a 2 vezes por semana, por 2 a 4 semanas, totalizando 6 a 12 aplicações, podendo variar de acordo com cada protocolo institucional; 
  • Período de observação pós administração: cerca de 2 horas; 
  • Sempre administrado em ambiente clínico controlado, com monitorização cardiorrespiratória e preferencialmente por profissional anestesista sob assinatura de termo de consentimento informado. 

Resultados 

Em relação ao tratamento da depressão estudos demonstram uma resposta antidepressiva entre 4 a 24 horas após a administração com redução significativa da ideação suicida em poucos dias. Existe a possibilidade de um efeito cumulativo com as sessões, porém nem todos os pacientes respondem positivamente, havendo uma estatística de 50% a 70% de resposta positiva nos casos resistentes.  

Como efeitos adversos podemos citar dissociação, que é a sensação de desconexão com o corpo físico, tontura, náuseas, visão turva, aumento transitório da pressão arterial e frequência cardíaca, euforia ou raramente ansiedade e confusão. Esses efeitos colaterais tendem a desaparecer em cerca de uma a duas horas.  

Contraindicações 

Como contraindicações podemos citar pacientes com histórico de psicoses, esquizofrenia ou transtornos dissociativos graves, hipertensão arterial não controlada, doença cardiovascular grave e abuso prévio da substância ou outras drogas dissociativas.  

Situação regulatória  

A FDA nos EUA, em 2019, aprovou o uso da escetamina intranasal com o nome comercial de Spravato como antidepressivo, assim como a ANVISA no Brasil em 2020, porém, por via intravenosa, ainda é considerada off-label tanto nos EUA como no Brasil, sendo sua administração permitida somente em clínicas especializadas e certificadas, com uso de monitorização constante, administrada por profissionais médicos experientes, sob suas responsabilidades e somente com assinatura de termo de consentimento informado restrito. 

A quetamina venosa continua sem indicação formal para depressão. Registros de órgãos de saúde oficiais como o CFM, CFF e CREMERJ confirmam isso, pois ela ainda está listada na categoria de anestésicos, sem indicação psiquiátrica aprovada como antidepressivo. A forma nasal é a única com aprovação específica. Mas é considerada uma terapia possível para depressão com indicação criteriosa.  

Considerações Finais  

A cetamina IV representa uma revolução no tratamento da depressão resistente, com ação rápida, especialmente em situações de urgência psiquiátrica. No entanto, é fundamental o uso controlado, com protocolo definido, em ambiente seguro e sob monitoramento multidisciplinar. Porém para considerar o uso dessa terapia, é fundamental buscar um clínico ou psiquiatra bem treinado, que trabalhe com protocolos estruturados para garantir segurança e eficácia.

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Referências bibliográficas

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