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Anestesiologia23 outubro 2026

Lidocaína intravenosa reduz dor crônica pós-cirúrgica

Lidocaína intravenosa perioperatória mostrou benefício em três meses, mas o efeito sustentado e o regime ideal seguem incertos.

A dor crônica pós-operatória pode persistir por meses após o procedimento e envolve mecanismos como lesão nervosa, sensibilização periférica e central e resposta inflamatória persistente. Nesse contexto, a lidocaína intravenosa vem sendo estudada como estratégia perioperatória para reduzir a cronificação da dor. Uma revisão sistemática e metanálise reuniu ensaios clínicos randomizados em adultos para avaliar a prevenção da dor crônica pós-operatória, a ocorrência de dor neuropática e a segurança da lidocaína, com atenção também aos diferentes esquemas de administração.

A lidocaína intravenosa perioperatória mostrou benefício aos três meses, mas o efeito em prazo mais longo e o regime ideal ainda permanecem incertos.

A dor crônica pós-cirúrgica orienta o desfecho principal

O estudo teve como objetivo sintetizar as evidências mais recentes sobre o uso da lidocaína intravenosa perioperatória na prevenção da dor persistente após o procedimento cirúrgico. Os autores destacam que os ensaios prévios apresentavam resultados divergentes, além de diferenças entre procedimentos, doses, velocidades de infusão e duração da administração.

Foram elegíveis estudos com adultos submetidos a qualquer procedimento cirúrgico, desde que comparassem lidocaína intravenosa perioperatória com placebo ou cuidado padrão e mantivessem protocolos analgésicos de base equivalentes entre os grupos. A dor crônica pós-operatória foi definida como dor persistente por pelo menos três meses, sem outra causa identificável além da cirurgia. Os desfechos primários foram a incidência dessa condição aos três e aos seis meses após a cirurgia.

 

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Como os ensaios clínicos randomizados foram reunidos?

A revisão seguiu as recomendações PRISMA e teve protocolo registrado prospectivamente no PROSPERO. PubMed, EMBASE e Cochrane Library foram pesquisados desde o início de cada base até junho de 2025. Dois investigadores realizaram a seleção e a extração de dados de forma independente, com resolução das divergências por discussão ou consulta a um terceiro pesquisador.

Ao todo, foram incluídos 18 ensaios clínicos randomizados, com 1.391 participantes. Os estudos envolveram cirurgias mamárias, torácicas e abdominais, além de fusão de coluna, cirurgia de cabeça e pescoço e tireoidectomia robótica. Os esquemas de lidocaína variaram amplamente, em geral com bólus seguido de infusão contínua, o que contribuiu para a heterogeneidade metodológica.

O risco de viés foi avaliado com a ferramenta RoB 2, e a certeza da evidência foi classificada pelo GRADE. Para os resultados dicotômicos, os autores calcularam o risco relativo com intervalo de confiança de 95%; para a intensidade da dor, utilizaram a diferença média após harmonização das escalas. Um modelo de efeitos aleatórios foi definido previamente para as análises.

Lidocaína reduz dor crônica e neuropática em três meses

Treze estudos, com 1.029 participantes, avaliaram a dor crônica pós-cirúrgica aos três meses. A lidocaína intravenosa reduziu significativamente esse desfecho em comparação com o controle, com RR de 0,67 (IC95% 0,53–0,85; p=0,001) e baixa heterogeneidade, com I² de 19%. A certeza da evidência para esse resultado foi considerada moderada.

Aos seis meses, sete ensaios, com 567 participantes, não demonstraram redução estatisticamente significativa, com RR de 0,68 (IC95% 0,41–1,12; p=0,13; I²=36%). Para esse desfecho, a certeza da evidência foi baixa, principalmente em razão do risco de viés e da imprecisão.

Entre os resultados secundários, cinco estudos mostraram menor incidência de dor neuropática aos três meses, com RR de 0,60 (IC95% 0,43–0,85; p=0,004; I²=2%) e certeza moderada da evidência. A intensidade da dor no mesmo período também foi menor no grupo lidocaína, com diferença média de −0,57 ponto em uma escala de zero a dez (IC95% −0,95 a −0,19; p=0,003), mas com heterogeneidade elevada, com I² de 89%, e certeza baixa.

As análises exploratórias de subgrupos não identificaram o tipo de cirurgia, a velocidade de infusão ou o período de administração como modificadores estatisticamente significativos do efeito. Assim, os dados não permitiram estabelecer um regime superior de lidocaína intravenosa.

 

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A segurança do uso da lidocaína ainda não está definida

A avaliação de segurança foi limitada pela escassez e pela inconsistência dos relatos de eventos adversos. Muitos estudos utilizaram vigilância passiva e não monitoraram rotineiramente as concentrações plasmáticas de lidocaína. Os autores alertam que sintomas neurológicos leves podem ter sido subnotificados.

Um dos estudos relatou convulsão generalizada durante a administração de bólus intravenoso de 2 mg/kg. Outro, que utilizou dose única de 4 mg/kg em 30 minutos, registrou maior frequência de hipotensão e bradicardia no grupo lidocaína. Esses achados não permitiram uma análise quantitativa global da segurança, mas reforçaram a necessidade de administração cuidadosa e monitoramento estruturado.

Na prática, a metanálise sustenta um sinal de benefício da lidocaína intravenosa na dor crônica pós-cirúrgica e na dor neuropática aos três meses, mas não demonstra benefício sustentado aos seis meses nem define um esquema ideal. Os ensaios clínicos randomizados apresentam heterogeneidade importante entre os protocolos, e a segurança da lidocaína foi avaliada de forma incompleta. Portanto, os resultados não justificam assumir superioridade de uma dose, duração de tratamento ou população cirúrgica específica.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Gabriela Queiroz

Gabriela Queiroz

Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA). Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Membro da American Academy of Pain Medicine.

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