A cefaleia pós-raqui, também chamada de cefaleia pós-punção dural, é uma complicação comum após procedimentos que envolvem punção do espaço subaracnóideo.
Ela pode ocorrer após raquianestesia, anestesia peridural com perfuração acidental da dura-máter ou punção liquórica para análise do líquido cefalorraquidiano (LCR).
O quadro ocorre pela redução da pressão do LCR, causada pelo extravasamento do líquido através do orifício formado pela punção.
Em geral, os sintomas surgem entre 24 e 48 horas após o procedimento, mas há relatos de início em até 5 dias. A dor costuma ser incapacitante, de localização frontal ou occipital, com piora na posição ortostática.
Também pode estar associada a náuseas, vômitos, distúrbios visuais, zumbidos e rigidez de nuca.
Caso clínico: Cefaleia pós-cesariana

Tratamento inicial da cefaleia pós-punção dural
O tratamento da cefaleia pós-punção dural começa pelo diagnóstico clínico e deve ser orientado pela gravidade dos sintomas e pela resposta às medidas iniciais.
Entre as medidas conservadoras, recomenda-se aumentar a ingesta hídrica, especialmente com bebidas ricas em cafeína. O paciente deve ser incentivado a ingerir líquidos ao longo do dia, com o objetivo de aumentar o volume do LCR. Quando ainda estiver internado, pode ser necessária hidratação venosa.
A recomendação de manter o paciente em decúbito dorsal não é mais indicada de forma obrigatória. A posição deve ser definida conforme o conforto do próprio paciente.
O tratamento farmacológico inicial pode incluir analgésicos simples, como dipirona associada a mucato de isometepteno e cafeína, ou paracetamol com cafeína. Ambos podem ser utilizados na dose de 2 comprimidos a cada 6 horas, por via oral.
Anti-inflamatórios não esteroidais, como ibuprofeno, também podem ser utilizados quando não houver alergias ou contraindicações.
Se não houver melhora após 24 horas, pode-se associar amitriptilina 25 mg à noite.
Na maioria dos casos, o tratamento oral é eficaz, com resolução completa do quadro em aproximadamente três dias.
Quando indicar blood patch na cefaleia pós-raqui
Quando não há melhora clínica com as medidas iniciais, pode ser indicado tratamento invasivo com blood patch, também chamado de tamponamento sanguíneo.
O procedimento consiste em realizar uma nova punção, no mesmo espaço previamente puncionado, com injeção de 10 a 20 mL de sangue autólogo. O objetivo é selar o local de vazamento e restaurar a pressão liquórica.
O blood patch apresenta taxa de sucesso superior a 90%, com alívio imediato dos sintomas.
Quando o procedimento for realizado, deve-se evitar o uso de anti-inflamatórios, antiagregantes plaquetários ou anticoagulantes por 24 horas.
Resumo da abordagem terapêutica
A abordagem da cefaleia pós-punção dural pode ser organizada em etapas, conforme a gravidade dos sintomas e a resposta ao tratamento:
- diagnóstico clínico;
- aumento da ingesta hídrica ou hidratação venosa;
- analgésicos com cafeína e anti-inflamatórios convencionais, quando não houver contraindicações;
- associação de amitriptilina em casos sem melhora após 24 horas;
- realização de blood patch em casos refratários.
Prevenção da cefaleia pós-punção dural
A prevenção é uma das principais estratégias no manejo da cefaleia pós-punção dural, especialmente em pacientes de maior risco, como mulheres jovens, pessoas com IMC baixo e gestantes.
Entre as medidas preventivas, destacam-se:
- uso de agulhas finas e atraumáticas;
- punção com o bisel da agulha voltado para cima, a fim de proteger as fibras durais;
- redução de múltiplas tentativas de punção;
- hidratação adequada após o procedimento.
Considerações finais
Apesar de bastante desconfortável, a cefaleia pós-punção dural geralmente apresenta prognóstico benigno, com remissão completa do quadro e sem sequelas após alguns dias de tratamento.
A abordagem deve priorizar diagnóstico clínico, tratamento conservador inicial, uso de analgésicos quando indicado e, nos casos refratários, realização de blood patch.
*Este conteúdo foi atualizado em: 02/06/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Autoria

Gabriela Queiroz
Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ⦁ Membro da American Academy of Pain Medicine ⦁ Ênfase em cirurgias de trauma e emergência, obstetrícia, plástica estética reconstrutiva e reparadora e procedimentos endoscópicos ⦁ Experiência em trauma e cirurgias de emergência de grande porte, como ortopedia, vascular e neurocirurgia ⦁ Experiência em treinamento acadêmico e liderança de grupos em ambiente cirúrgico hospitalar ⦁ Orientadora acadêmica junto à classe de residentes em Anestesiologia ⦁ Orientadora e auxiliar em palestras regionais e internacionais na área de Anestesiologia.
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