Durante muitos anos, a cólica infantil foi compreendida principalmente como um distúrbio gastrointestinal. No entanto, a atualização do Roma V propõe uma mudança importante nessa interpretação ao substituir esse termo pela síndrome do desconforto do lactente (SDL).
Mais do que uma mudança de nomenclatura, essa atualização amplia a compreensão sobre o quadro clínico e reforça que o desconforto do lactente resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais e ambientais. Dessa forma, o foco deixa de estar exclusivamente no intestino e passa a considerar também a interação cérebro-intestino e o contexto familiar no qual o bebê está inserido.
O que é síndrome do desconforto do lactante?
Segundo o Roma V, a Síndrome do desconforto do lactente caracteriza-se por episódios intensos, prolongados e recorrentes de choro que surgem, muitas vezes, sem um fator desencadeante evidente. O quadro deve iniciar obrigatoriamente antes dos cinco meses de idade, com maior frequência entre o primeiro e o segundo mês de vida. Um aspecto marcante é a dificuldade dos cuidadores em interromper os episódios, o que costuma gerar sensação de impotência e elevado desgaste emocional.
Essa nova definição reconhece que a autorregulação do lactente é influenciada por múltiplos fatores e que o ambiente familiar exerce papel importante na manifestação dos sintomas.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico permanece essencialmente clínico e depende de uma anamnese detalhada associada a exame físico completo.
Mais do que confirmar a síndrome, o objetivo da avaliação é excluir causas orgânicas capazes de justificar o choro persistente. Nesse contexto, o profissional deve estar atento aos chamados red flags, como:
- início dos sintomas após os quatro meses;
- ausência de um padrão de choro;
- vômitos persistentes;
- diarreia;
- febre;
- perda de peso;
- alterações ao exame físico.
O Roma V também recomenda que lactentes jovens com choro persistente, mesmo na ausência de febre, sejam avaliados para descartar infecção do trato urinário, uma causa que pode apresentar manifestações discretas nessa faixa etária.
O impacto da síndrome do lactante vai além do bebê
Um dos principais avanços do Roma V é reconhecer que a síndrome não afeta apenas o lactente.
O sofrimento emocional dos cuidadores faz parte do quadro clínico, havendo associação entre a SDL e maiores níveis de ansiedade e depressão parental. Por isso, avaliar o nível de estresse da família passa a integrar a condução clínica.
Essa abordagem amplia o olhar do profissional de saúde, que deixa de concentrar seus esforços apenas nos sintomas do bebê e passa a considerar o equilíbrio da interação entre criança e cuidadores como parte do tratamento.
Como o Roma V orienta o manejo da SDL?
O manejo proposto pelo Roma V prioriza medidas não farmacológicas e educação dos cuidadores.
Entre as principais recomendações estão:
- acolher a família e explicar a natureza benigna da condição;
- orientar técnicas de soothing (conforto);
- reduzir estímulos ambientais durante as crises;
- utilizar colo, contenção e movimentação rítmica;
- ajudar os pais a reconhecer períodos previsíveis de maior irritabilidade.
Já intervenções como simeticona, lactase e inibidores da bomba de prótons apresentam evidências limitadas e não devem ser consideradas primeira escolha. Da mesma forma, chás, fitoterápicos e dietas de exclusão devem ser indicados apenas em situações específicas e com critério clínico.
O que muda na pediatria com o Roma V?
A atualização do Roma V propõe uma mudança de perspectiva na condução dos lactentes com episódios persistentes de choro. Em vez de concentrar a investigação exclusivamente no trato gastrointestinal, o profissional deve considerar fatores relacionados à interação cérebro-intestino, ao desenvolvimento da autorregulação e ao contexto familiar.
Na prática, isso significa que a avaliação clínica passa a priorizar a exclusão de causas orgânicas, o reconhecimento dos sinais de alerta e o acolhimento dos cuidadores como parte do manejo.
Mais do que reduzir os sintomas do bebê, o objetivo é oferecer uma abordagem integrada, baseada em evidências e centrada na família.
🎧 Este conteúdo faz parte do mapa mental sobre a atualização do Roma V para a síndrome do desconforto do lactente.
Assista ao vídeo completo para entender os critérios diagnósticos, os sinais de alerta e as principais recomendações para o manejo clínico dessa condição.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.




