Na masterclass Expectativa × realidade na condução da infertilidade feminina, a Dra. Valéria Datrino mostra como traduzir o relógio biológico em números que façam sentido para a paciente, organizar a propedêutica mínima no consultório de GO e identificar o momento de encaminhar para a reprodução assistida.
Ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana, a Dra. Valéria é diretora médica da Dat Baby, onde lidera uma equipe multidisciplinar que apoia mulheres e famílias ao longo da jornada reprodutiva. No mestrado na Universidade Federal Fluminense, pesquisou desfechos obstétricos e resultados de fertilização com oócitos próprios e doados. Hoje é doutoranda em Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e coordena o curso de capacitação em LARC (DIU e implante subdérmico).
Com o adiamento da maternidade e o aumento da procura por reprodução assistida, perguntar sobre planos reprodutivos passou a fazer parte da consulta ginecológica de rotina. É nesse momento que o ginecologista pode orientar sobre a melhor época para engravidar, os efeitos do estilo de vida e as opções de preservação da fertilidade.
A infertilidade é definida como a ausência de gestação clínica após 12 meses de relações sexuais regulares sem método contraceptivo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo, com prevalência de 17,5%, semelhante em países de alta e de média renda.¹
Infertilidade conjugal: quais são as principais causas?
A abordagem deve sempre considerar o casal. Estima-se que 35% dos casos estejam ligados ao fator feminino, 35% ao fator masculino, 20% a ambos os parceiros e 10% permaneçam sem causa definida, mesmo após a investigação completa.²,³
Entre os fatores femininos, destacam-se:²,³
- Tubário: 35%
- Ovulatório: 35%, incluindo a diminuição da reserva ovariana
- Endometriose: 20%
- Uterino: 1%
- Múltiplas causas: cerca de 9%
Relógio biológico em números: o que dizer à paciente?
Entre os casais que tentam engravidar, cerca de 50% conseguem em três meses, 60% em seis meses e 85% em um ano. A partir dos 35 anos, a idade, traduzida pela reserva ovariana, passa a ser o fator principal. Aos 30 anos, a chance de gestação natural é de 25% ao mês; aos 40, cai para 10%.
A reprodução assistida aumenta a probabilidade de fertilização, mas não corrige a perda de reserva ovariana nem a de competência oocitária.⁴ Por isso, as taxas de nascidos vivos nos tratamentos acompanham o mesmo declínio da concepção natural. Essa perda de competência resulta, em parte, de cerca de quatro décadas de exposição a fatores ambientais e de estilo de vida.⁵
Em paralelo, as taxas de abortamento espontâneo crescem de forma exponencial com a idade materna, em ligação direta com a piora da qualidade oocitária.⁶ Em síntese, a infertilidade relacionada à idade decorre da redução quantitativa e qualitativa dos oócitos, o que limita a chance de nascido vivo mesmo com suporte tecnológico.⁷
Quando investigar e o que pedir na propedêutica básica?
O momento de iniciar a investigação depende da idade da mulher:
| Idade da parceira | Iniciar investigação |
|---|---|
| Menos de 35 anos | Após 12 meses de tentativas |
| 36 a 39 anos | Após 6 meses |
| 40 anos ou mais | Imediatamente |
A American Society for Reproductive Medicine (ASRM) também recomenda avaliação precoce em mulheres com oligomenorreia ou amenorreia, com doença uterina, tubária ou peritoneal conhecida ou suspeita (incluindo endometriose estágio III ou IV) e quando há suspeita de fator masculino.²,⁸
A propedêutica básica inclui anamnese do casal, perfil hormonal (FSH, LH, AMH, TSH, prolactina e estradiol), ultrassom transvaginal, histeroscopia, histerossalpingografia, cariótipo do casal e espermograma.³,⁹,¹⁰
A reserva ovariana é avaliada indiretamente por FSH, hormônio antimulleriano (AMH) e contagem de folículos antrais, entre o 2º e o 5º dia do ciclo. FSH abaixo de 8 mIU/mL e AMH entre 1 e 2,8 ng/mL indicam bom prognóstico. FSH acima de 15 mIU/mL indica mau prognóstico, e AMH abaixo de 1 ng/mL sugere baixa resposta à estimulação ovariana. Ainda assim, a idade segue como o parâmetro mais forte para predizer a chance de gestação.
O papel do ginecologista no cuidado multiprofissional
A infertilidade tem implicações psicológicas, econômicas e sociais, sobretudo em contextos que valorizam fortemente a maternidade.¹¹ A jornada até a gestação costuma ser longa, cara e estressante, com risco de ansiedade e depressão.
Por isso, as diretrizes recomendam um modelo integrado e gradual, com ginecologia, andrologia, embriologia, genética, psicologia, nutrição e enfermagem. Essa abordagem reduz exames invasivos desnecessários, padroniza etapas e coloca o casal no centro das decisões.¹¹,¹²
Na aula completa, a Dra. Valéria detalha como manejar o sofrimento psíquico ao longo do tratamento e como conversar sobre preservação da fertilidade eletiva, oncológica e por outras condições médicas.
Autoria

Isabella Leal
Editora de conteúdo da Afya. Graduação em Produção Editorial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ).
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