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Terapia Intensiva15 outubro 2026

Ultrassom pode ajudar na decisão de decanulação da traqueostomia?

Estudo prospectivo avalia a acurácia do ultrassom com Doppler na decisão de decanulação da traqueostomia em pacientes críticos e suas limitações clínicas

A retirada da cânula de traqueostomia é uma etapa importante da recuperação do paciente crítico, mas decidir o momento adequado nem sempre é simples. Para uma decanulação segura, não basta avaliar apenas se o paciente consegue respirar espontaneamente. É necessário considerar proteção de via aérea, deglutição, eficácia da tosse, quantidade de secreções e possíveis alterações estruturais da laringe e da traqueia. Um estudo prospectivo publicado em 2026 na Scientific Reports avaliou uma proposta diferente: utilizar o ultrassom com Doppler para medir a velocidade do fluxo aéreo através da via aérea superior e verificar se essa medida poderia auxiliar na decisão de decanulação. 

Por que utilizar ultrassom antes da decanulação? 

A avaliação endoscópica da deglutição, ou FEES (fiberoptic endoscopic evaluation of swallowing), é frequentemente utilizada nesse contexto porque permite avaliar deglutição, proteção da via aérea, secreções, penetração e aspiração. 

Entretanto, o sucesso da decanulação depende de outros componentes da função respiratória. 

Tosse ineficaz, excesso de secreções, alterações de pregas vocais e obstrução da via aérea superior também podem contribuir para falha. Os autores propuseram que a velocidade do fluxo aéreo medida pelo Doppler pudesse funcionar como uma avaliação adicional da capacidade de gerar fluxo através da via aérea superior. 

Como o ultrassom foi realizado? 

O estudo foi conduzido em uma UTI terciária na Turquia entre julho de 2024 e dezembro de 2025. Foram avaliados pacientes adultos traqueostomizados considerados candidatos à decanulação. Para entrar no estudo, eles já precisavam apresentar diversos critérios de estabilidade, incluindo: 

  • Glasgow ≥ 9; 
  • Reflexo de deglutição presente; 
  • Teste de respiração espontânea por 24 horas; 
  • Índice de respiração rápida e superficial < 105; 
  • Relação PaO₂/FiO₂ > 200; 
  • Excursão diafragmática > 9 mm em mulheres e > 10 mm em homens; 
  • Ausência de alteração da deglutição identificada previamente pelo próprio ultrassom. 

Com o cuff desinsuflado, o ultrassom também foi utilizado para observar a mobilidade das pregas vocais. Em seguida, os pesquisadores mediram com Doppler a maior velocidade do fluxo aéreo durante uma inspiração profunda, com a cânula ocluída. Essa medida foi denominada DVTI, ou Doppler velocity com a cânula in situ. 

Nos pacientes que apresentavam velocidade superior a 20 cm/s durante a expiração forçada, a cânula era temporariamente retirada e uma nova medida era realizada na região supraesternal. Essa segunda variável recebeu o nome de DVTR, ou Doppler velocity após a retirada da cânula. Depois da medida, a cânula era novamente inserida.  Na sequência, todos os pacientes foram avaliados por um otorrinolaringologista que desconhecia o resultado do ultrassom. 

O Doppler conseguiu identificar os pacientes liberados para decanulação? 

Foram analisados 101 pares de exames. A velocidade medida com a cânula posicionada (DVTI) apresentou AUC de 0,952, com ponto de corte de 34,5 cm/s, sensibilidade de 85,4% e especificidade de 90,9%. 

A medida realizada após a retirada temporária da cânula (DVTR) teve desempenho discretamente superior, com AUC de 0,966. O ponto de corte de 27 cm/s apresentou sensibilidade de 95,1% e especificidade de 90%. 

Podemos utilizar 27 cm/s como critério para decanulação? 

Ainda não. O Doppler foi comparado principalmente com a decisão baseada na FEES, e não diretamente com o sucesso clínico da decanulação. Dos 41 pacientes liberados pela endoscopia, houve apenas uma falha, o que limita a validação desse ponto de corte como preditor de insucesso.  Nesse único caso, a DVTI foi de 22 cm/s e a DVTR de 18 cm/s, ambas abaixo dos pontos de corte. Posteriormente, a tomografia identificou estenose subglótica. 

A estratégia parece particularmente interessante em pacientes clinicamente estáveis, com fraqueza muscular respiratória ou dificuldade de liberação da ventilação mecânica. 

Quais são as principais limitações? 

O estudo foi unicêntrico, incluiu apenas 69 pacientes, apresentou medidas repetidas no mesmo indivíduo e somente uma falha de decanulação. Além disso, não foi avaliada a reprodutibilidade entre diferentes examinadores. 

Outro ponto é que a DVTR exige a retirada temporária da cânula, devendo ser realizada em ambiente com capacidade imediata de manejo da via aérea.

Impactos na prática clínica

  • O Doppler da via aérea mostrou excelente associação com a decisão de decanulação baseada na FEES, especialmente a medida realizada após retirada temporária da cânula.  
  • O ponto de corte de DVTR ≥ 27 cm/s apresentou sensibilidade de 95,1% e especificidade de 90%, mas ainda não deve ser utilizado isoladamente para indicar decanulação. 
  • Por enquanto, o ultrassom deve ser considerado uma ferramenta complementar à avaliação clínica, da deglutição e da anatomia da via aérea.

Autoria

Foto de Yuri Albuquerque

Yuri Albuquerque

Editor médico na Afya. Doutor em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Medicina Intensiva pela Universidade de São Paulo (USP) e residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), além de estar concluindo a residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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