Logotipo Afya
Anúncio
Terapia Intensiva31 dezembro 2025

Suporte Proativo de Transição e Recuperação de Sepse Baseado em Telessaúde (STAR)

Estudo avaliou o efeito de programa de transição e recuperação da sepse (STAR) em comparação com o atendimento padrão nos resultados pós-alta

Quem tudo quer, tudo perde (é um provérbio antigo). No ensaio clínico randomizado ENCOMPASS (Engagement and Collaborative Management to Proactively Advance Sepsis Survivorship), o efeito de um programa de transição e recuperação de sepse (STAR) baseado em telessaúde não conseguiu reduzir reinternações e mortalidade ao mesmo tempo. Houve até pequeno efeito protetor na mortalidade em 90 dias, mas o número de reinternações cresceu (mas sem alcançar diferença significativa). A comparação foi realizada com os cuidados habituais em adultos hospitalizados com sepse de alto risco. O alto risco foi taxado com um cálculo do mesmo grupo de autores após uma revisão sistemática de 2020, onde dados fisiológicos e laboratoriais, características sociodemográficas e comorbidades foram agrupadas para prever um risco de reinternação acima de 25%.

Leia também: Retrospectiva 2025: Principais temas tratados no campo da Terapia Intensiva

Tópicos do programa de transição e recuperação de sepse (STAR):

  1. identificação e tratamento de novos déficits físicos, mentais e cognitivos;
  2. revisão e ajuste de medicações;
  3. monitoramento de condições crônicas que são descompensadas após a sepse;
  4.  foco em cuidados paliativos quando apropriado.

O programa também incluiu a educação e o treinamento de pacientes em relação aos sinais e sintomas de sepse, revisão de status funcional e escolha de recursos se necessários a uma descompensação.

Métodos

O estudo foi um ensaio clínico randomizado, por agrupamento em fases crescentes (stepped-wedge cluster randomized clinical trial). Dos mais de 19 mil pacientes internados no período, 3548 pacientes adultos hospitalizados com sepse foram incluídos em 7 hospitais nos EUA; a intervenção (STAR) foi baseada em telessaúde, liderada por navegadores (enfermeiros na maioria), para fornecer proativamente cuidados pós-sepse baseados em evidências a pacientes de alto risco por 90 dias após a alta. O plano era conseguir um contato antes da alta hospitalar, seguido de contatos telefônicos a cada 3 a 5 dias no primeiro mês e depois com espaçamento progressivo até navegador e paciente estarem de acordo em terminar o acompanhamento ou chegar a 90 dias após alta. Os contatos entre navegadores e pacientes ocorreram em média em 10 oportunidades ao longo de 3 meses.

O desfecho primário foi o composto de readmissão hospitalar por todas as causas ou mortalidade em 90 dias após a alta. Secundariamente os autores separaram os desfechos de mortalidade e reinternação, assim como analisaram as causas de reinternações e a frequência de retornos à emergência também.

Suporte Proativo de Transição e Recuperação de Sepse Baseado em Telessaúde (STAR)

Resultados: recuperação de Sepse 

Os pacientes incluídos no estudo tinham 65 anos em média, mais de 95% tinham alguma comorbidade, com SOFA escore médio de 4,6 pontos e um terço foi internado em UTI. Os grupos controle e do programa STAR eram semelhantes na entrada do estudo.

O programa STAR não reduziu o desfecho primário composto de readmissão por todas as causas e mortalidade em 90 dias após a alta (48,2% no grupo STAR vs 48,0% no grupo de cuidados habituais). Analisando os desfechos separadamente, o grupo STAR apresentou uma frequência menor de morte em comparação com o grupo de cuidados habituais (17,3% vs 20,5%; p=0,04). O grupo STAR teve uma frequência ligeiramente maior de readmissão (35,9% vs 33,5%). A frequência de readmissão hospitalar por causas específicas devido a sepse ou outra infecção foi numericamente maior no grupo STAR (17,4% vs 15,6%), mas o odds ratio ajustado favoreceu o programa STAR (odds 0,82; IC 95%, 0,69-0,90; p=0,03).

O programa STAR multicomponente e liderado por navegadores não reduziu o composto de readmissão por todas as causas e mortalidade em 90 dias após a alta. A redução observada na mortalidade sugere que o monitoramento proativo pode ter levado a readmissões hospitalares apropriadas para avaliação e tratamento de complicações pós-sepse.

O mais curioso neste estudo é que a previsão era de reduzir os 2 desfechos de reinternação e mortalidade, mas somente um deles (mortalidade) foi alcançado. Há especulação que o programa de monitorização mais próxima dos pacientes de maior risco de mau prognóstico pode antecipar uma nova internação, principalmente por novas infecções. Este fato talvez tenha implicado em melhor cuidado e reduzido a mortalidade em 90 dias. A composição de desfechos é buscada frequentemente para demonstrar resultados estatisticamente significativos, mas foram antagônicos neste caso do estudo. Por isso, nem sempre se consegue tudo o que se quer, mas podemos ficar satisfeitos com o sucesso parcial do programa, principalmente porque o desfecho mais importante é obviamente a menor mortalidade.

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Terapia Intensiva