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Terapia Intensiva14 outubro 2026

Protocolo VExUS: acurácia diagnóstica e prognóstico em pacientes graves

Revisão sistemática e meta-análise avaliam a acurácia do protocolo VExUS na detecção de congestão venosa e seu valor prognóstico em pacientes graves
Por André Japiassú

A avaliação da congestão venosa e da tolerância a fluidos representa um desafio no manejo de pacientes graves, especialmente diante dos riscos associados à administração excessiva de fluidos. 

Nesse contexto, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 na Critical Care Medicine investigou a acurácia diagnóstica e o valor prognóstico do protocolo VExUS (Venous Excess Ultrasound Grading System). A análise reuniu evidências sobre sua capacidade de identificar congestão venosa e sua associação com insuficiência renal aguda e mortalidade em pacientes submetidos a cuidados agudos e críticos. 

Como o protocolo VExUS avalia a congestão venosa? 

A administração excessiva de fluidos pode ser prejudicial no paciente grave, levando a insuficiência renal aguda, prolongamento do tempo de ventilação mecânica e provavelmente mortalidade. Estes efeitos são marcantes no paciente cardiopata, mas também são relevantes nos doentes graves em geral, principalmente com choque séptico. A tendência atual é que se faça medidas de tolerância a fluidos antes de fazer reposição volêmica. As medidas de avaliação de congestão venosa podem ser interessantes como indicadores da habilidade de acomodar o retorno venoso. As medidas de congestão venosa tradicionais incluem pressão venosa central (PVC) e pressão de cavidades direitas do coração, esta última medida por cateter de Swan-Ganz. 

O uso do ultrassom à beira do leito facilitou alguns diagnósticos e complementa a avaliação do exame físico. Além da medida da veia cava inferior e superior, também pode avaliar a função cardíaca. O uso do doppler e de pulsatilidade também têm sido empregados na avaliação da congestão venosa em órgãos abdominais. Modernamente o escore VExUS tenta avaliar a fluido-tolerância nos pacientes graves que ainda apresentam instabilidade hemodinâmica. 

Classificação do VExUS identifica diferentes graus de congestão 

O protocolo VExUS combina a medição do diâmetro da veia cava inferior com avaliações de doppler de onda pulsada (PW) de três sistemas venosos. 

  • Veia cava inferior (VCI) funciona como a triagem inicial. Se o diâmetro máximo da VCI for menor que 2 cm, a congestão venosa grave é praticamente descartada (Grau 0). Se for ≥ 2 cm, avança-se para a avaliação doppler das outras veias. 
  • O doppler de veias hepáticas avalia como a pressão do átrio direito afeta o fluxo sanguíneo que retorna do fígado. Normalmente apresenta ondas sistólica (S) e diastólica (D) distintas (onde S é maior que D). Conforme a pressão aumenta, a onda S diminui, achata ou se inverte, indicando uma alteração grave. 
  • O doppler da veia porta mede os padrões de fluxo na veia porta, que normalmente é contínuo e constante. Normalmente tem baixa pulsatilidade (< 30%). O aumento da congestão venosa causa uma pulsatilidade acentuada (30–50% para alteração leve/moderada, e > 50% ou inversão de fluxo para alteração grave). 
  • E o doppler de veias intrarrenais avalia o fluxo sanguíneo dentro do parênquima renal para detectar congestão nos rins. O padrão de fluxo contínuo e monofásico abaixo da linha de base é normal; na congestão, o fluxo torna-se descontínuo, bifásico (pulsátil, com ondas S e D distintas) ou monofásico apenas na diástole (restando apenas a onda D). 

A escala de graduação VExUS é classificada de 0 a 3: 

  • Grau 0: VCI < 2 cm (sem congestão venosa significativa). 
  • Grau 1: VCI ≥ 2 cm com ondas normais ou levemente alteradas (congestão leve). 
  • Grau 2: VCI ≥ 2 cm com apenas uma onda gravemente alterada (congestão moderada). 
  • Grau 3: VCI ≥ 2 cm com duas ou mais ondas gravemente alteradas (congestão grave, com maior risco de disfunção orgânica, como lesão renal). 

Revisão sistemática analisa a acurácia diagnóstica do VExUS 

A pesquisa foi realizada em bases de dados (PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane Library) até dezembro de 2025. Houve inclusão de 32 estudos, totalizando 3.142 pacientes (6 de diagnóstico, 22 prognósticos e 4 com ambos os desfechos). 

Inicialmente não foi possível realizar uma meta-análise diagnóstica devido à variação nos padrões de referência e ao número limitado de estudos por grupo. Os estudos apontaram acurácia moderada a boa para detectar pressões venosas centrais e atriais direitas aumentadas (sensibilidade de 78–95% e especificidade de 80–90%), dependendo se a referência usada foi PVC ou pressão atrial direita. 

VExUS associa-se ao risco de lesão renal e mortalidade 

O valor prognóstico em pacientes cardiopatas foi melhor. Um escore VExUS ≥ 2 se associou significativamente a insuficiência renal aguda (odds ratio – OR 4,44) e mortalidade (OR 3,17). A análise individual por paciente também demonstrou forte associação do escore VExUS 3 com insuficiência renal aguda e mortalidade.

Por outro lado, o valor prognóstico em pacientes críticos de UTI geral não teve o mesmo desempenho. Foram encontradas associações estatísticas significativas entre VExUS ≥ 2 e o risco de insuficiência renal aguda (OR 1,45) ou mortalidade (OR 1,25) na meta-análise. No entanto, a análise por paciente isolou que apenas uma associação entre o grau VExUS 3 e a mortalidade é possível.

Heterogeneidade dos estudos limita a interpretação do VExUS 

De modo geral, os artigos com menor risco de viés são aqueles na qual a população tem cardiopatia. Nos outros estudos de pacientes graves em geral existem vieses de seleção de medida do VExUS e de diagnósticos diversos dos pacientes. Em relação aos estudos diagnósticos, metade usa PVC como referência, mesmo sabendo das suas limitações como padrão ouro e outros três estudos usam a pressão de átrio direito. E os dois restantes usam outras medidas. Portanto, a comparação do escore VExUS com padrões de referência são muito heterogêneos e não permitiram uma variação diagnóstica conclusiva. 

Quando a PVC é usada a sensibilidade e a especificidade do VExUS só é melhor detectada com valores altos de PVC. A acurácia diagnóstica melhora quando se avalia a referência com pressão atrial direita. Portanto, não se conseguiu fazer uma meta-análise para diagnóstico nesta revisão.  

Em relação ao prognóstico, alguns estudos não conseguiram ser incluídos por risco de viés. Aparentemente, o risco de insuficiência renal aguda e mortalidade esteve associado ao grau dois ou três do VExUS em pacientes com cardiopatia. Esses mesmos valores não se associaram aos desfechos quando se analisa a população geral; existe uma fragilidade na análise de sensibilidade, na qual se retira um estudo de cada vez, e há muita influência de um estudo no qual o efeito do grau 3 de VExUS é menor do que os outros estudos. 30% dos estudos com doentes críticos de UTI geral não puderam ser aproveitados para análise prognóstica e isto também interferiu nos resultados. 

Como interpretar o protocolo VExUS na prática clínica? 

  • O VExUS apresenta moderada acurácia para diagnosticar pressão venosa elevada.
  • Graus 2 ou 3 possuem valor prognóstico para insuficiência renal aguda e mortalidade em populações cardíacas, mas a relação em pacientes críticos gerais permanece incerta.
  • O sistema deve ser interpretado como um indicador de tolerância reduzida a fluidos e congestão ocasionada por disfunção cardíaca por ora.

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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