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Terapia Intensiva2 fevereiro 2024

Dose de noradrenalina: você está interpretando a dose corretamente?

Saiba como diferentes formulações impactam o cálculo em mcg/kg/min e por que a dose base é decisiva no manejo de pacientes críticos.
Por Leandro Lima

A noradrenalina, também conhecida como norepinefrina, é o vasopressor catecolaminérgico de primeira escolha no manejo da maioria dos cenários de choque, especialmente o choque séptico. Atualmente, é considerada a principal droga vasoativa utilizada nas unidades de terapia intensiva (UTIs).

noradrenalina

Dose de noradrenalina como marcador prognóstico

A dose de noradrenalina administrada, expressa em mcg/kg/min, é considerada um marcador independente de desfechos brutos em pacientes críticos. Além de ser um parâmetro de monitoramento, também orienta tomadas de decisão clínicas importantes, conforme exemplificado abaixo:

Condição clínica Dose de noradrenalina base (mcg/kg/min) 
Choque refratário > 0,8 a 1  
Gatilho para introdução de 2° agente vasopressor (vasopressina) e hidrocortisona na sepse > 0,25 a 0,5 por pelo menos 4 horas (sugestão do Surviving Sepsis Campaign) 
Marcador de pior prognóstico na sepse > 0,1 (+1 ponto no escore SOFA) 
Avaliação para a liberação da ECMO venoarterial < 0,06 


Dessa forma, entendemos que a dose de noradrenalina é ajustada conforme metas clínicas, como manter a pressão arterial acima de 65 mmHg. No entanto, a quantidade necessária para atingir esse objetivo possui reflexos prognósticos relevantes.

Formulações de noradrenalina e equivalência dos sais

Ao contrário do que muitos profissionais de saúde trazem como conceito estabelecido, há muita heterogeneidade no que se refere às formulações da noradrenalina. Isso ocorre porque a molécula pura de noradrenalina não é hidrossolúvel, e seu uso clínico demanda capacidade de se disseminar pelos fluidos corporais. Para contornar essa limitação, a farmacologia desenvolveu formas solúveis a partir da diluição em meios ácidos e formação de sais.

As principais formulações encontram-se listadas abaixo, com sua respectiva equivalência em relação à molécula base:

Sais conjugado  de noradrenalina Formulação da dose do sal Equivalência da molécula de base 
Cloridrato 1,22 mg 1 mg 
Bitartarato 1,89 mg 1 mg 
Tartarato 2 mg 1 mg 

 

Logo, é fundamental que intensivistas e emergencistas conheçam as formulações que estão disponíveis em sua instituição. Isso garante precisão nos cálculos de dose, confiabilidade nos escores prognósticos e consistência nas decisões clínicas. Além da esfera assistencial, é importante que exista uma padronização das apresentações, valendo-se da equivalência da molécula de base, para evitar a heterogeneidade de dados em estudos, que podem desencadear conclusões precipitadas.   

Como calcular a dose de noradrenalina base na prática

A seguir, apresentamos um exemplo prático para ilustrar o cálculo da dose de noradrenalina do seu paciente crítico:   

  • Idade: 60 anos.  
  • Peso: 70 kg.  
  • Indicação: choque séptico.  
  • Sal de noradrenalina disponível: hemitartarato de noradrenalina. 
  • Apresentação: ampola de 4 mL (2 mg/mL de hemitartarato de noradrenalina ou 1 mg/mL de noradrenalina base). 
  • Diluição utilizada: 5 ampolas (20 mL) em 230 mL de soro glicosado a 5% (solução total: 250 mL).  
  • Concentração da solução: 40 mg/250 mL (hemitartarato de noradrenalina) ou 20 mg/250 mL (noradrenalina base).  
  • Vazão assinalada na bomba de infusão contínua: 20 mL/h. 

Nesse caso, a dose corresponde a 0,38 mcg/kg/min de noradrenalina base e 0,76 mcg/kg/min de hemitartarato de noradrenalina.

Para fins clínicos e prognósticos, o valor relevante é sempre o da noradrenalina base: 0,38 mcg/kg/min.

Para aprofundamento, recomenda-se a leitura do posicionamento oficial da Sociedade Europeia de Medicina Intensiva.

Leia mais: Caminhos para a formação do médico intensivista

Conclusão e mensagens práticas sobre o uso da noradrenalina

  • Sempre converter a dose para mcg/kg/min.
  • As formulações devem ser padronizadas em equivalência à noradrenalina base.
  • Decisões clínicas e avaliações prognósticas devem ser fundamentadas na dose de noradrenalina base infundida.

 

*Este conteúdo foi atualizado em: 23/09/2025 pela equipe editorial do Portal Afya.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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Referências bibliográficas

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