Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. Dalton de Souza Barros moderou o painel “Gestão em UTI”, reunindo o Dr. Ederlon Alves de Carvalho Rezende e o Dr. Cristiano Augusto Franke para discutir dois temas estratégicos para o futuro da terapia intensiva: as lições de gestão aprendidas durante a pandemia de COVID-19 e o debate entre modelos de UTIs gerais versus UTIs especializadas.
A sessão abordou não apenas aspectos assistenciais, mas também planejamento estratégico, gestão de recursos, organização dos sistemas de saúde, qualificação profissional e sustentabilidade operacional das UTIs diante de cenários de elevada complexidade e crescente demanda por cuidados intensivos.

Raciocínio clínico
A pandemia da COVID-19 representou o maior teste operacional da história recente da terapia intensiva mundial. Em poucas semanas, hospitais precisaram ampliar rapidamente sua capacidade assistencial, reorganizar fluxos, treinar profissionais, adaptar protocolos e gerenciar recursos escassos em um cenário de elevada incerteza científica.
Uma das principais lições aprendidas foi que a qualidade da gestão influencia diretamente os desfechos clínicos. A disponibilidade de aparelhos de ventilação mecânica (AVM), monitores e leitos mostraram-se insuficiente quando não acompanhada por equipes qualificadas, liderança estruturada e processos assistenciais bem definidos.
Os palestrantes enfatizaram que a resiliência organizacional se tornou um dos principais indicadores de qualidade em terapia intensiva. Instituições com melhor capacidade de adaptação operacional apresentaram maior eficiência assistencial, menor mortalidade ajustada e melhor utilização dos recursos disponíveis.
Outro tema amplamente discutido foi a evolução dos modelos organizacionais das UTIs. O crescimento da complexidade dos pacientes críticos impulsionou a expansão das UTIs especializadas (neurointensiva, cardiológica, trauma, transplantes, queimados, ECMO, entre outras). Entretanto, ainda existe debate sobre o equilíbrio ideal entre especialização e manutenção de competências generalistas na terapia intensiva moderna.
Limitações e Desafios
Os palestrantes destacaram que muitos dos problemas identificados durante a pandemia permanecem presentes nos sistemas de saúde atuais. A escassez de profissionais qualificados continua sendo um dos principais gargalos para expansão sustentável dos serviços intensivos. Diversos países enfrentam dificuldades relacionadas à formação de intensivistas, enfermeiros especializados e fisioterapeutas com treinamento específico em terapia intensiva.
Outro desafio importante refere-se à variabilidade estrutural entre instituições. Enquanto alguns centros possuem acesso à monitorização avançada, telemedicina, ECMO e equipes altamente especializadas, outros ainda enfrentam limitações básicas relacionadas à disponibilidade de leitos, equipamentos e recursos humanos.
A crescente especialização das UTIs também traz desafios operacionais. Embora as unidades especializadas frequentemente apresentem melhores resultados em populações específicas, existe risco de fragmentação do cuidado, aumento da complexidade administrativa e dificuldade de integração entre diferentes equipes e linhas assistenciais.
Os sistemas de saúde continuam enfrentando desafios relacionados ao envelhecimento populacional, aumento da prevalência de doenças crônicas complexas, crescimento dos custos assistenciais e necessidade de incorporar novas tecnologias sem comprometer sustentabilidade financeira.
Principais vieses na prática da gestão em UTI
Os palestrantes destacaram que muitos erros de gestão observados durante a pandemia continuam presentes na prática cotidiana das instituições. Diversos estudos publicados após a COVID-19 demonstraram que problemas organizacionais frequentemente impactam os desfechos clínicos tanto quanto intervenções médicas específicas.
Um dos principais vieses é a crença de que expansão física de leitos, isoladamente, resolve crises assistenciais. A pandemia demonstrou que o recurso mais escasso frequentemente não era o AVM ou o monitor, mas sim o profissional qualificado capaz de operar esses recursos com segurança.
Outro viés frequente consiste na priorização excessiva de indicadores financeiros em detrimento dos indicadores assistenciais. Os palestrantes ressaltaram que eficiência operacional não significa simplesmente redução de custos, mas utilização inteligente dos recursos para maximizar qualidade e segurança do cuidado.
Também foi discutida a tendência de supervalorizar modelos altamente especializados sem considerar a realidade epidemiológica e estrutural de cada instituição. Nem todos os hospitais possuem volume de pacientes, expertise ou recursos suficientes para justificar determinadas especializações. Entre os principais vieses destacam-se:
- Expansão de leitos sem planejamento de recursos humanos;
- Foco excessivo em infraestrutura física sem fortalecimento dos processos assistenciais;
- Subestimação do papel da liderança clínica;
- Baixa integração entre gestão e assistência;
- Dependência excessiva de indicadores financeiros isolados;
- Fragmentação do cuidado em modelos excessivamente especializados;
- Falta de planejamento para situações de crise sanitária;
- Ausência de monitoração sistemática de indicadores de qualidade.
Mensagens práticas
Os especialistas reforçaram que as lições da pandemia devem permanecer incorporadas à gestão das UTIs mesmo em períodos de normalidade operacional. Preparação para crises, flexibilidade organizacional e qualificação contínua das equipes tornaram-se componentes permanentes da boa gestão intensiva.
A discussão entre UTIs gerais e especializadas não deve ser encarada como uma disputa entre modelos concorrentes. Os estudos mais recentes sugerem que ambos os modelos possuem espaço dentro dos sistemas modernos de saúde, desde que adequadamente integrados por linhas de cuidado bem estruturadas e mecanismos eficientes de transferência de pacientes.
Outro aspecto amplamente enfatizado foi a importância da utilização de dados para tomada de decisão. Indicadores assistenciais, mortalidade ajustada, taxa de ocupação, utilização de recursos, eventos adversos e satisfação das equipes devem orientar continuamente o planejamento estratégico das unidades. Entre as principais mensagens destacam-se:
- Pessoas continuam sendo o principal recurso da terapia intensiva;
• Liderança clínica qualificada melhora desfechos assistenciais;
• Preparação para crises deve ser permanente;
• Gestão baseada em dados produz melhores resultados;
• Qualidade assistencial e sustentabilidade financeira devem caminhar juntas;
• UTIs especializadas e gerais podem ser complementares;
• Integração entre assistência, ensino e gestão é fundamental para o futuro da terapia intensiva.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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