Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, a sessão temática “Infecção em UTI” reuniu especialistas de Portugal e Brasil para discutir um dos maiores desafios contemporâneos da terapia intensiva: o manejo das infecções graves e da resistência antimicrobiana. Foram abordados temas centrais como infecções por Gram-negativos multirresistentes, impacto da terapia antimicrobiana apropriada nos desfechos clínicos, estratégias de stewardship antimicrobiano e utilização de biomarcadores à beira-leito. Participaram como palestrantes o Dr. João Gonçalves Pereira (Portugal), Dr. Lucio Couto de Oliveira Junior (Brasil) e Dr. Leandro Braz de Carvalho (Brasil).
Raciocínio Clínico
O aumento global da resistência antimicrobiana transformou as infecções relacionadas à assistência em saúde em um dos principais desafios da medicina intensiva moderna. Pacientes críticos apresentam elevada vulnerabilidade devido à gravidade da doença, necessidade de dispositivos invasivos, exposição prévia a antimicrobianos e prolongado tempo de internação hospitalar.
Os estudos mais recentes demonstram que a administração precoce de terapia antimicrobiana apropriada permanece um dos fatores mais importantes para redução da mortalidade em sepse e choque séptico. Entretanto, a necessidade de iniciar rapidamente o tratamento deve ser equilibrada com estratégias de uso racional dos antimicrobianos para evitar amplificação da resistência bacteriana.
Nesse contexto, biomarcadores como procalcitonina, proteína C reativa e novas ferramentas moleculares vêm sendo utilizados para auxiliar decisões relacionadas ao início, escalonamento e suspensão da antibioticoterapia. Paralelamente, programas de stewardship antimicrobiano tornam-se fundamentais para garantir tratamento adequado, menor exposição desnecessária aos antibióticos e melhor utilização dos recursos hospitalares.
Limitações e Desafios
Os palestrantes destacaram que a crescente disseminação de bactérias Gram-negativas multirresistentes representa uma ameaça significativa para os sistemas de saúde em todo o mundo. A disponibilidade limitada de novos antimicrobianos, associada à rápida evolução dos mecanismos de resistência, dificulta a escolha empírica inicial e aumenta o risco de falha terapêutica.
Outro desafio importante refere-se à dificuldade de distinguir colonização de infecção verdadeira em pacientes críticos. Exames microbiológicos frequentemente apresentam resultados tardios, obrigando decisões terapêuticas em cenários de elevada incerteza clínica. A interpretação inadequada desses resultados pode resultar tanto em subtratamento quanto em uso excessivo de antibióticos.
Além disso, a implementação de programas estruturados de stewardship ainda enfrenta barreiras relacionadas à disponibilidade de especialistas, treinamento das equipes, suporte laboratorial e cultura institucional. A utilização de biomarcadores também apresenta limitações, especialmente quando interpretados de forma isolada, sem integração ao contexto clínico e epidemiológico do paciente.
Principais vieses na prática clínica
Os estudos recentes mostram que diversos vieses podem comprometer a qualidade do manejo infeccioso na terapia intensiva, contribuindo para aumento da mortalidade, resistência antimicrobiana, prolongamento da internação e elevação dos custos assistenciais. Os palestrantes destacaram que grande parte dos erros relacionados à antibioticoterapia não decorre da ausência de tratamento, mas sim da inadequação da estratégia diagnóstica e terapêutica ao longo da evolução clínica.
Um dos principais vieses observados é o atraso no início da antibioticoterapia apropriada em pacientes com sepse ou choque séptico, condição consistentemente associada a pior prognóstico. Por outro lado, o início indiscriminado de esquemas excessivamente amplos, sem posterior reavaliação, favorece seleção de microrganismos multirresistentes, infecção por Clostridioides difficile e toxicidade medicamentosa. Os especialistas ressaltaram que a “inércia terapêutica” continua sendo um problema frequente, caracterizada pela manutenção de antibióticos sem justificativa clínica ou microbiológica após 48–72 horas de tratamento.
Outro viés importante refere-se à interpretação inadequada de culturas positivas. A dificuldade em diferenciar colonização de infecção verdadeira pode resultar em tratamentos desnecessários, especialmente em pacientes portadores de dispositivos invasivos ou colonizados por bactérias multirresistentes. Da mesma forma, a utilização isolada de biomarcadores, sem correlação com dados clínicos, laboratoriais e microbiológicos, pode induzir decisões inadequadas de início ou suspensão de antimicrobianos.
As falhas na coleta de amostras microbiológicas, baixa adesão aos programas de stewardship antimicrobiano e desconsideração da epidemiologia local de resistência bacteriana são fatores frequentemente associados à escolha inadequada da terapia empírica. Entre os principais vieses destacam-se:
- Atraso no início da antibioticoterapia apropriada em pacientes sépticos;
• Uso prolongado de antimicrobianos sem reavaliação diária;
• Prescrição empírica excessivamente ampla sem estratégia de descalonamento;
• Interpretação inadequada de culturas positivas representando colonização;
• Dependência excessiva de biomarcadores isolados para tomada de decisão;
• Falhas na coleta adequada de amostras microbiológicas;
• Baixa adesão a programas de stewardship antimicrobiano;
• Desconsideração da epidemiologia local de resistência bacteriana.
Mensagens Práticas
Os palestrantes reforçaram que a excelência no manejo das infecções em terapia intensiva depende do equilíbrio entre tratamento precoce e uso racional dos antimicrobianos. O objetivo não é apenas tratar adequadamente a infecção atual, mas também preservar a eficácia futura dos antibióticos disponíveis, reduzir a emergência de microrganismos multirresistentes e minimizar eventos adversos relacionados à terapia antimicrobiana.
Os estudos recentes demonstram que a antibioticoterapia apropriada continua sendo uma das intervenções mais impactantes na redução da mortalidade por sepse e choque séptico. Entretanto, o benefício clínico depende não apenas da rapidez da administração, mas também da adequação do espectro antimicrobiano ao perfil microbiológico esperado e à epidemiologia local. A reavaliação sistemática após as primeiras 48–72 horas foi apontada como etapa fundamental para identificar oportunidades de descalonamento, suspensão terapêutica ou ajuste direcionado conforme resultados microbiológicos.
Outro aspecto amplamente discutido foi o papel crescente dos biomarcadores e das novas ferramentas diagnósticas rápidas. Apesar de auxiliarem na tomada de decisão, os especialistas enfatizaram que nenhum biomarcador possui desempenho suficiente para substituir a avaliação clínica integrada. O contexto clínico, a evolução do paciente, os exames microbiológicos e os dados epidemiológicos continuam sendo pilares fundamentais para decisões seguras.
A sessão também reforçou que programas estruturados de stewardship antimicrobiano devem ser entendidos como estratégia de segurança do paciente, e não apenas como medida de controle de custos ou resistência bacteriana. Entre as principais mensagens destacam-se:
- Antibiótico apropriado e precoce salva vidas;
• A escolha empírica deve considerar epidemiologia local e fatores de risco individuais;
• Reavaliação diária da antibioticoterapia é obrigatória;
• Estratégias de descalonamento reduzem resistência antimicrobiana;
• Biomarcadores devem complementar, e não substituir, o julgamento clínico;
• Stewardship antimicrobiano deve fazer parte da rotina da UTI;
• Diagnóstico microbiológico adequado continua sendo fundamental para decisões terapêuticas seguras.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.