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Terapia Intensiva31 maio 2026

Luso-Brasileiro 2026: O que mudou na última década sobre analgosedação na UTI?

A sessão destacou a transição ocorrida nos últimos anos de uma cultura de sedação profunda para estratégias centradas na analgesia-first.  
Por Cintia Johnston

Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. António Martins (Portugal) moderou a sessão temática dedicada à analgosedação na terapia intensiva, reunindo especialistas internacionais para discutir as transformações ocorridas no manejo da dor, sedação e abstinência em pacientes críticos.  

Participaram como palestrantes o Dr. Dimitri Gusmão Flóres (Brasil), abordando o papel atual dos benzodiazepínicos; o Dr. Rui Moreno (Portugal), discutindo analgesia e sedação em cenários complexos; e a Dra. Tamara Oliveira Pinheiro de Mello (Brasil), apresentando os desafios relacionados à síndrome de abstinência em terapia intensiva. 

A sessão destacou a transição ocorrida nos últimos anos de uma cultura de sedação profunda para estratégias centradas no conceito de analgesia-first, sedação leve, mobilização precoce, prevenção de delirium e recuperação funcional pós-UTI.  

Saiba mais: Luso-Brasileiro 2026: Vasopressores – cuidados com as intervenções

corticoides na terapia intensiva

Raciocínio clínico 

O manejo da analgosedação deixou de ter como principal objetivo o conforto imediato do paciente para tornar-se uma intervenção diretamente relacionada aos desfechos clínicos, funcionais e cognitivos de curto e longo prazo. Atualmente, a sedação é compreendida como parte integrante de um conjunto de estratégias destinadas a minimizar lesão cerebral secundária, reduzir delirium, facilitar desmame ventilatório e preservar funcionalidade após a alta da UTI. 

As diretrizes internacionais mais recentes reforçam que a analgesia adequada deve preceder qualquer estratégia sedativa. A dor não tratada está associada a aumento da atividade simpática, instabilidade hemodinâmica, pior sincronização paciente-aparelho de ventilação mecânica, delirium e maior incidência de transtornos psicológicos após a alta hospitalar. 

Outro conceito amplamente discutido foi o de sedação mínima efetiva. Estudos demonstram que pacientes mantidos em níveis leves de sedação (RASS entre 0 e -2 na população adulta) apresentam menor tempo de ventilação mecânica invasiva (VMI), menor incidência de delirium, menor permanência na UTI e melhores desfechos funcionais quando comparados àqueles submetidos à sedação profunda prolongada. 

Os palestrantes também enfatizaram que não existe uma estratégia única aplicável a todos os pacientes. O manejo deve ser individualizado conforme a condição clínica, presença de disfunção neurológica, choque, insuficiência respiratória, necessidade de bloqueio neuromuscular ou monitoração neurológica avançada.  

Limitações e desafios 

Apesar da evolução das evidências científicas, a implementação das estratégias modernas de analgosedação ainda enfrenta importantes desafios na prática clínica diária. A variabilidade entre instituições permanece elevada, especialmente em relação à utilização de protocolos padronizados, monitoração da dor, avaliação sistemática da sedação e rastreamento do delirium. 

Os palestrantes destacaram que um dos maiores desafios atuais é equilibrar conforto, segurança e preservação da função neurológica. Pacientes com insuficiência respiratória grave, SDRA, hipertensão intracraniana, choque refratário ou assincronia ventilatória importante frequentemente necessitam níveis mais profundos de sedação, tornando difícil a aplicação uniforme das recomendações de sedação leve. 

Outro problema relevante refere-se ao acesso desigual aos fármacos. Propofol, dexmedetomidina e monitoração avançada da sedação nem sempre estão disponíveis em todos os sistemas de saúde, levando à utilização mais frequente de benzodiazepínicos, especialmente em cenários de limitação de recursos. 

Além disso, a crescente preocupação com os efeitos de longo prazo da permanência na UTI trouxe maior atenção para Síndrome Pós-terapia Intensiva (PICS), delirium persistente, transtornos cognitivos e dependência medicamentosa, tornando a escolha dos agentes sedativos ainda mais relevante.  

Principais vieses na prática clínica 

Os especialistas destacaram que muitos dos problemas observados atualmente decorrem de práticas historicamente incorporadas à rotina das UTIs e que nem sempre acompanham a evolução das evidências científicas. 

Um dos vieses mais frequentes continua sendo utilizar sedação para controlar agitação sem investigar adequadamente causas reversíveis como dor, hipoxemia, retenção urinária, abstinência, delirium ou assincronia ventilatória. Essa abordagem frequentemente resulta em escalonamento desnecessário de sedativos e prolongamento da VMI. 

Outro erro frequente é considerar ausência de movimento ou responsividade reduzida como sinônimo de conforto adequado. Estudos demonstram que pacientes profundamente sedados podem permanecer expostos à dor e ao sofrimento sem capacidade de expressá-los adequadamente. 

Os especialistas também discutiram a persistente utilização prolongada de benzodiazepínicos sem reavaliação diária. Embora ainda possuam indicações específicas — como abstinência alcoólica, estado de mal epiléptico e algumas situações de sedação profunda — seu uso rotineiro associa-se a maior incidência de delirium, ventilação mecânica prolongada e recuperação funcional mais lenta. Entre os principais vieses destacam-se: 

  • Subtratamento da dor com aumento compensatório da sedação;
    • Utilização de sedação profunda sem indicação clara;
    • Uso prolongado de benzodiazepínicos sem reavaliação diária;
    • Ausência de monitoração sistemática da dor e da sedação;
    • Falha no rastreamento do delirium;
    • Interrupção inadequada de opioides e sedativos;
    • Baixa individualização das estratégias farmacológicas;
    • Subestimação do impacto funcional da sedação prolongada. 

Veja também: Luso-Brasileiro 2026: Lições da pandemia e o futuro da organização das UTIS

Mensagens práticas 

A sedação moderna deve ser entendida como parte de uma estratégia integrada de cuidado centrada no paciente crítico e não apenas como ferramenta para facilitar a VMI ou o manejo operacional da UTI. 

A abordagem contemporânea prioriza analgesia adequada, sedação mínima necessária, monitoração frequente, prevenção de delirium e reabilitação precoce. O conceito de “analgesia-first sedation” foi apontado como um dos pilares das diretrizes internacionais atuais. 

Outro aspecto amplamente enfatizado foi a necessidade de reavaliação diária das medicações sedativas e analgésicas. Cada dia adicional de exposição desnecessária a sedativos aumenta o risco de delirium, fraqueza adquirida na UTI, síndrome de abstinência e comprometimento funcional após a alta. 

Os especialistas também destacaram que a síndrome de abstinência representa problema crescente em pacientes submetidos a uso prolongado de opioides, benzodiazepínicos e dexmedetomidina, exigindo estratégias estruturadas de redução gradual das doses. 

Entre as principais mensagens destacam-se: 

  • Dor deve ser avaliada e tratada antes da sedação;
    • Sedação leve deve ser a meta para a maioria dos pacientes críticos;
    • Benzodiazepínicos possuem indicações específicas, mas não devem ser primeira escolha rotineira;
    • Delirium deve ser monitorado diariamente;
    • Interrupção diária da sedação continua sendo ferramenta valiosa quando clinicamente apropriada;
    • Síndrome de abstinência deve ser antecipada e prevenida; 
  • A implementação doBundle ABCDEF pode facilitar as ações multiprofissionais e aumentar a aderência aos protocolos de analgosedação;
    • Analgosedação influencia diretamente os desfechos funcionais pós-UTI.

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

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Referências bibliográficas

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