A síndrome dos ovários policísticos (SOP), condição que afeta uma em cada oito mulheres — mais de 170 milhões de pessoas em idade reprodutiva no mundo —, passou a se chamar oficialmente Síndrome Metabólica Ovariana Poliendócrina. A mudança foi publicada em maio de 2026 no periódico The Lancet e resulta de um processo de consenso global inédito, conduzido por pesquisadores, profissionais de saúde e pacientes de todas as regiões do mundo, com o objetivo de corrigir imprecisões da nomenclatura anterior e melhorar o diagnóstico, o cuidado e a pesquisa sobre a condição.

Por que o nome SOP prejudicava o diagnóstico e o cuidado
O termo síndrome dos ovários policísticos induz a uma compreensão incorreta da condição: ao sugerir a presença de cistos ovarianos patológicos — que não são uma característica da doença —, o nome contribuía para confusão entre pacientes, clínicos e formuladores de políticas.
Estudos citados no consenso indicam que até 70% das pessoas afetadas permaneciam sem diagnóstico, em parte pela desorientação gerada pela nomenclatura. Além disso, o foco exclusivamente ovariano e reprodutivo do nome anterior obscurecia manifestações metabólicas como resistência à insulina, diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, além de manifestações psicológicas e dermatológicas. O nome também reforçava estigma, especialmente em contextos socioculturais em que a fertilidade carrega alto valor simbólico.
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Processo global gerou 14.360 respostas para definir a Síndrome Metabólica Ovariana Poliendócrina
O processo que originou a renomeação envolveu 56 organizações acadêmicas, clínicas e de pacientes e foi conduzido em múltiplas etapas entre 2024 e 2026. Duas rodadas de surveys Delphi coletaram 14.360 respostas de 10.411 pacientes e 3.949 profissionais de saúde de todas as regiões do mundo. Os participantes responderam sobre princípios norteadores, abordagens preferidas e terminologias candidatas. Workshops presenciais e online com cerca de 90 representantes, realizados em novembro de 2025 e fevereiro de 2026, utilizaram a técnica de grupo nominal para testar combinações de termos.
Uma análise de marketing e comunicação, realizada com apoio de inteligência artificial, avaliou viabilidade, clareza e estratégias de transição para os nomes candidatos.
Os princípios prioritários estabelecidos foram: acurácia científica, facilidade de comunicação, evitar estigma, adequação cultural e viabilidade de implementação. A abordagem escolhida — adotar um nome novo, baseado em características da condição — foi preferida por 86% dos pacientes e 71% dos profissionais de saúde. Os termos poliendócrino, metabólico e ovariano obtiveram suporte da maioria dos participantes e foram combinados para formar o novo nome.
Hiperandrogenismo, resistência à insulina e disfunção ovariana sustentam o novo termo
A base científica da Síndrome Metabólica Ovariana Poliendócrina envolve múltiplas alterações endócrinas interativas. A resistência à insulina está presente em aproximadamente 85% dos casos — inclusive em 75% das mulheres com índice de massa corporal considerado normal — e amplifica a secreção de androgênios, prejudicando a esteroidogênese. O hiperandrogenismo, traço endócrino e diagnóstico central, contribui para hirsutismo, acne, alopecia e manifestações metabólicas. Alterações neuroendócrinas também comprometem a maturação folicular e a função ovariana. Complicações cardiometabólicas são aumentadas na condição: sendo as portadoras com maior risco de doença cardiovascular composta, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Esses dados reforçam a necessidade de incluir os termos metabólico e poliendócrino na nova nomenclatura, ao mesmo tempo que o componente ovariano contempla a disfunção folicular, a irregularidade menstrual e a infertilidade.
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Se a transição durar 3 anos, quais mudanças já estão em curso?
A estratégia de implementação prevê oito estágios. Entre as ações já em andamento estão o desenvolvimento de recursos multilíngues para pacientes e clínicos, a integração da nova terminologia em registros eletrônicos de saúde e sistemas de nomenclatura clínica, e o engajamento com organismos internacionais — incluindo a OMS — para incorporação na Classificação Internacional de Doenças (CID).
A integração nas diretrizes internacionais já utilizadas em 195 países está prevista para a atualização de 2028. O período de transição gerenciado de três anos inclui monitoramento contínuo e plano de avaliação. Para profissionais de saúde, a mudança representa uma oportunidade de reposicionamento clínico da condição: reconhecer a Síndrome Metabólica Ovariana Poliendócrina como transtorno poliendócrino e metabólico tende a ampliar a vigilância sobre complicações sistêmicas, melhorar a comunicação com pacientes e fortalecer a pesquisa e as políticas de saúde globalmente.
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Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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