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Endocrinologia23 janeiro 2026

Características metabólicas de pacientes magras e obesas com SOP

Revisão sistemática comparou mulheres com SOP magra e SOP obesa e analisou as diferenças nos níveis hormonais e nos parâmetros metabólicos. 

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é o distúrbio endócrino mais comum em mulheres em idade reprodutiva. Afeta cerca de 10% dessa população e é responsável por até 95% dos casos de infertilidade anovulatória. A SOP é caracterizada por um amplo espectro de manifestações clínicas, incluindo disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e alterações metabólicas, frequentemente associadas à resistência à insulina (RI), à obesidade e ao diabetes tipo 2 (DM2). 

Apesar da frequente associação com obesidade, um subgrupo significativo de mulheres apresenta SOP magra, caracterizada por índice de massa corporal (IMC) normal, mas com alterações hormonais e metabólicas típicas da síndrome. A prevalência de RI na SOP magra é estimada em até 75%, contra 95% na forma obesa.  

Estudos prévios sugerem que, embora a obesidade agrave as complicações metabólicas, mulheres magras com SOP também exibem distúrbios metabólicos sutis, como dislipidemia e alteração na sensibilidade à insulina. 

Deste modo, é possível que hajam diferenças específicas nos distúrbios metabólicos presentes nas formas magra e obesa da SOP. O presente estudo teve como objetivo comparar de forma abrangente as características metabólicas e endócrinas entre pacientes com SOP magra e obesa, por meio de uma revisão sistemática e meta-análise de estudos clínicos, buscando identificar diferenças em parâmetros hormonais, lipídicos e glicêmicos. 

Métodos 

Esta revisão sistemática e meta-análise foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA 2020 e registrada prospectivamente no PROSPERO. Foram pesquisadas as bases PubMed, Web of Science, Embase e Cochrane Central Register of Controlled Trials desde sua criação até abril de 2025, sem restrição de idioma. 

Foram incluídos estudos clínicos comparativos que avaliassem mulheres com SOP magra (IMC ≤ 25 kg/m² ou ≤ 23 kg/m² para populações asiáticas) e SOP obesa (IMC ≥ 25 ou ≥ 23 kg/m², respectivamente). Os desfechos principais foram diferenças nos níveis hormonais. Parâmetros metabólicos foram analisados como desfechos secundários.  

Resultados 

Após triagem de 64.045 registros, foram incluídos 73 estudos clínicos envolvendo participantes de 18 países — principalmente Turquia (n=14), China (n=12), Índia (n=11) e Itália (n=5). Os tamanhos amostrais variaram entre 22 e 458 participantes, com idades médias entre 20 e 34 anos. A qualidade metodológica dos estudos foi globalmente boa, com baixo risco de viés. 

A maioria dos parâmetros metabólicos avaliados apresentou valores menores nas mulheres com SOP magra quando comparadas às obesas. As diferenças (expressas em desvios-padrão) foram de 0,48 para glicemia de jejum, 0,58 para pressão arterial (PA) sistólica, 0,56 para PA diastólica, 0,49 para LDL, 0,72 para triglicérides e 0,88 para o índice de resistência à insulina HOMA-IR. 

Quanto aos parâmetros endócrinos, os seguintes valores foram desta vez mais elevados nas pacientes magras, em relação às obesas (com diferenças também descritas em desvios-padrão): LH 0,23,  FSH 0,10 e razão LH/FSH  0.23 (indicando possível maior disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano); SHBG  0.81 (o que implica menor fração livre de androgênios); DHEA-S  0.19 (sugerindo maior contribuição adrenal para a produção de andrógenos). 

As mulheres com SOP obesa apresentaram maiores níveis de testosterona livre e escores de Ferriman-Gallwey, refletindo hiperandrogenismo mais acentuado. O volume ovariano foi maior nas obesas. Hormônio anti-mulleriano e androstenediona não apresentaram diferenças significativas entre os grupos. 

Conclusões 

Os resultados confirmam diferenças metabólicas e hormonais significativas entre os dois fenótipos da SOP. As pacientes obesas apresentaram perfil metabólico mais desfavorável — maior glicemia, dislipidemia, pressão arterial e resistência à insulina — fatores que aumentam substancialmente o risco de síndrome metabólica e doença cardiovascular. 

Por outro lado, as pacientes magras exibiram disfunção neuroendócrina mais evidente, caracterizada por níveis mais altos de LH e razão LH/FSH. Isso sugere que, enquanto a SOP obesa é predominantemente metabólica, a SOP magra pode estar mais relacionada a alterações hipotalâmicas e hipofisárias. 

O aumento de SHBG e DHEA-S nas magras indica menor exposição tecidual a andrógenos livres e possível hiperatividade adrenal. Já nas obesas, o hiperandrogenismo é amplificado pela resistência à insulina e pela conversão periférica de andrógenos em tecidos adiposos. 

Essas diferenças têm potenciais implicações clínicas: para SOP obesa, o foco terapêutico deve incluir redução de peso, melhora da sensibilidade à insulina e controle metabólico (dieta, exercício e metformina). Para SOP magra, o manejo deve priorizar restauração da ovulação e tratamento hormonal, uma vez que a perda de peso isolada pode não trazer benefício significativo. 

Esses achados reforçam a necessidade de abordagens terapêuticas personalizadas, baseadas no fenótipo metabólico e hormonal de cada paciente. Estudos futuros devem investigar os mecanismos moleculares subjacentes e desenvolver estratégias específicas de tratamento para cada subtipo de SOP. 

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Graduação em Medicina (1999) - Universidade Federal de São Paulo; Residência Médica em Clínica Médica e Endocrinologia (2002) - Universidade Federal de São Paulo; Titulo de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM (2002); Doutorado em Ciências (2008) - Universidade Federal de São Paulo; Pós-Doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School (2017-2019).VÍNCULOS ATUAIS: Preceptor do Programa de Residência Médica em Endocrinologia do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (CEDEBA), Salvador-BA; Professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGFARMA) da mesma instituição; Professor do Curso de Medicina do Centro Universitário Dom Pedro II (UNIDOMPEDRO), Salvador-BA; Professor do Curso de Medicina da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), Salvador-BA; Professor Colaborador e Orientador do Programa de Pós-Graduação em Endocrinologia da UNIFESP.

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