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Saúde26 fevereiro 2026

Projeto-piloto de vacina contra chikungunya é iniciado: o que o médico deve saber

Imunizante começou a ser aplicado em Mirassol (SP) e em quatro municípios de Minas Gerais; ainda não há previsão de oferta ampla no SUS

A vacina contra chikungunya desenvolvida pelo Instituto Butantan, em parceria com a empresa de biotecnologia Valneva, começou a ser aplicada no Brasil no início de fevereiro. A estratégia ocorre em caráter de projeto-piloto em Mirassol (SP) e em quatro municípios de Minas Gerais (Sabará, Congonhas, Sete Lagoas e Santa Luzia), com o objetivo de definir a melhor forma de implementação do imunizante no país.

A iniciativa envolve o governo do Estado de São Paulo, o Ministério da Saúde e secretarias municipais, e marca o início da aplicação da primeira vacina do mundo aprovada contra a chikungunya, doença transmitida pelo Aedes aegypti.

Do ponto de vista epidemiológico, a introdução da vacinação representa um avanço relevante. Segundo o infectologista Jandrei Markus, caso atinja boa cobertura nos grupos prioritários, a vacinação tem potencial de reduzir casos e aliviar a pressão sobre os serviços de saúde, especialmente em atendimentos por febre e dor articular na atenção primária e em pronto atendimento. A escolha de Minas Gerais também permite monitoramento adequado da efetividade e dos eventos adversos no mundo real.

Indicações e contraindicações: quem pode receber a vacina

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o imunizante é indicado para adultos entre 18 e 59 anos com maior risco de exposição ao vírus, conforme diretrizes vigentes.

Por utilizar tecnologia de vírus vivo atenuado, a vacina não é recomendada para:

  • Gestantes;
  • Mulheres em amamentação;
  • Pessoas imunossuprimidas;
  • Pacientes com doenças crônicas descompensadas.

Após a aplicação, podem ocorrer reações leves e transitórias, como dor no local, febre e mialgia. É fundamental orientar sinais de alerta e reforçar a necessidade de notificação em caso de eventos adversos relevantes.

Ainda não há previsão de disponibilização para a população em geral nem incorporação imediata ao SUS. O Butantan trabalha em adequações produtivas para futura ampliação da fabricação no Brasil.

Como a vacina funciona e seu impacto potencial

O imunizante utiliza uma versão enfraquecida do vírus chikungunya, capaz de estimular o sistema imunológico sem causar a doença. Os estudos iniciais se basearam principalmente na capacidade de induzir anticorpos neutralizantes em alta proporção de vacinados poucas semanas após a aplicação.

Do ponto de vista clínico-epidemiológico, há expectativa de que a redução da ocorrência da infecção aguda também diminua a carga de formas crônicas incapacitantes, como a artralgia persistente, uma das principais sequelas da doença. “Se a vacina reduz a ocorrência da infecção, ela tende também a reduzir a carga de formas crônicas, já que estas geralmente são consequência do episódio agudo”, explica o infectologista. No entanto, o impacto direto sobre dor crônica e incapacidade ainda dependerá de dados de efetividade em larga escala.

Eficácia e segurança: dados dos estudos clínicos

A aprovação da vacina pela Anvisa, em abril de 2025, baseou-se na análise de dados de qualidade, segurança e eficácia.

Em estudo realizado nos Estados Unidos com cerca de 4 mil voluntários entre 18 e 65 anos, 98,9% desenvolveram anticorpos contra o vírus, com níveis elevados mantidos por pelo menos seis meses.

Outro estudo de fase 3 com adolescentes brasileiros demonstrou produção de anticorpos neutralizantes em 100% dos voluntários com infecção prévia e em 98,8% daqueles sem contato anterior com o vírus, com proteção mantida em 99,1% após seis meses.

Os eventos adversos relatados foram majoritariamente leves ou moderados, incluindo cefaleia, mialgia, fadiga e febre.

Desafios para implementação

Entre os principais desafios para expansão da vacinação estão a logística de distribuição, a definição de prioridades e o alcance das áreas de maior risco. Para Jandrei, outro ponto central é a desinformação, que pode reduzir a adesão e gerar receio em relação a uma vacina nova.

“Nesse cenário, o fortalecimento da vigilância epidemiológica será essencial não apenas para monitorar eventos adversos, mas também para medir o impacto da vacinação e comunicar resultados com transparência”, diz.

O que o médico deve considerar na prática clínica

Diante da introdução da vacina em caráter piloto, o papel do médico vai além da prescrição e passa também pela qualificação da informação e pelo fortalecimento da vigilância. “A vacinação acrescenta uma camada de proteção que antes dependia quase exclusivamente do controle do mosquito e de medidas individuais”, destaca o infectologista.

Saiba mais: Vacina contra chikungunya deverá ser incorporada ao SUS

Na prática, é fundamental que o profissional:

  • Avalie criteriosamente elegibilidade, considerando faixa etária e contraindicações típicas de vacinas de vírus vivo atenuado, especialmente em gestantes, imunossuprimidos e pacientes com doenças crônicas descompensadas;
  • Oriente pacientes elegíveis sobre benefícios esperados e reações adversas comuns, contextualizando que eventos como dor local, febre e mialgia tendem a ser autolimitados;
  • Esteja atento aos sinais de alerta pós-vacinação e reforce a importância da notificação de eventos adversos relevantes;
  • Mantenha o diagnóstico diferencial com outras arboviroses, sobretudo dengue e zika, que seguem circulando nos mesmos territórios;
  • Contribua para a vigilância epidemiológica por meio da notificação adequada, elemento-chave para medir efetividade e segurança no mundo real

A atuação clínica também inclui enfrentamento ativo da desinformação. Como se trata de uma vacina nova, dúvidas e receios são esperados, e a comunicação baseada em evidências torna-se parte essencial do cuidado.

Embora ainda não disponível em larga escala, a vacinação representa um avanço estratégico no enfrentamento da chikungunya. Ao reduzir a ocorrência da infecção aguda, há potencial indireto de diminuir também a carga de formas crônicas incapacitantes, impacto que será melhor dimensionado com o acompanhamento dos dados de efetividade.

Para Markus, neste momento, mais do que incorporar a vacina à rotina, o médico precisa manter-se atualizado e engajado no monitoramento clínico e epidemiológico, acompanhando a expansão do programa e seus resultados nos próximos meses.

Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

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