A fibromialgia (FM) é uma doença frequente na população geral, e sua fisiopatologia reside, principalmente, no fenômeno de amplificação dolorosa. A compreensão contemporânea da FM transcendeu a antiga visão de uma síndrome de dor puramente idiopática para se consolidar como uma desregulação multissistêmica complexa.
Neurobiologia
De acordo com os avanços reportados em 2025, o modelo patogênico central agora é orientado por uma perspectiva que integra um desequilíbrio persistente entre os sistemas biológicos de “ameaça” e “conforto”. Esse estado de alerta constante é mediado por uma rede cerebral hiperexcitada, que mantém o organismo em um ciclo vicioso de estresse neurobiológico. Observou-se que a exposição crônica a esses mediadores de estresse resulta em uma exaustão funcional do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), o que se traduz em uma regulação negativa das respostas fisiológicas e em uma perda da flexibilidade autonômica.
Metabolismo
No nível tecidual e metabólico, a pesquisa avançou significativamente na caracterização de uma inflamação sistêmica de baixo grau, que, embora não seja estritamente autoimune no sentido clássico, apresenta marcadores inflamatórios claros. Níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, especificamente IL-6 e IL-8, foram diretamente correlacionados à intensidade da dor e à gravidade da fadiga, sugerindo que esses mediadores podem servir como indicadores de atividade da doença.
Além disso, a patologia muscular na FM identificou disfunções mitocondriais (perda de cristas mitocondriais e uma redução na produção de ATP), o que, somado à infiltração de tecido adiposo nos músculos e à presença elevada de vaspina (uma adipocina ligada à resistência insulínica), explica a hipóxia muscular e a intolerância ao esforço relatada pelos pacientes.
Outro ponto de inflexão é o reconhecimento da neuropatia de pequenas fibras, que afeta cerca de metade dos homens diagnosticados com a síndrome (vs. 15% nas mulheres), revelando uma base neuroanatômica periférica que pode variar significativamente entre os gêneros (mulheres apresentam mais denervação proximal que os homens).
Biomarcadores
A busca por um diagnóstico mais objetivo tem se apoiado em estratégias multiômicas e no estudo do microbioma humano. A identificação de assinaturas específicas na microbiota intestinal abriu portas para entender como o eixo intestino-cérebro influencia a modulação da dor através da produção de neurotransmissores como GABA e serotonina.
Paralelamente, a neuroimagem avançada e a análise de biomarcadores moleculares, como as cadeias leves de neurofilamentos, têm permitido documentar o impacto estrutural da doença no sistema nervoso central. O fenômeno conhecido como “brain fog” ou disfunção cognitiva agora possui substrato morfológico demonstrável, incluindo a atrofia de sub-regiões específicas do hipocampo e alterações de conectividade na rede de modo padrão (DMN) e no núcleo caudado, o que reforça que as queixas cognitivas não são apenas subjetivas, mas reflexos de deterioração axonal e funcional.
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Terapias não farmacológicas para fibromialgia
- Exercício físico: é a base do tratamento. Deve ser personalizado e sustentável, unindo treinos de força e aeróbicos a práticas como Tai Chi e Qigong, que favorecem a saúde mental;
- Intervenções mente-corpo: práticas como o mindfulness e terapias psicológicas (TCC, ACT e EMDR) ajudam a reconfigurar a percepção da dor, reduzindo o estresse e o foco negativo nos sintomas;
- Acupuntura: auxilia no alívio da dor através da modulação das vias nervosas e ação anti-inflamatória;
- Dieta e suplementação: As dietas mediterrânea e low-FODMAP (para questões digestivas) são recomendadas. Suplementos como CoQ10, PEA, ALC e probióticos auxiliam na saúde intestinal e redução de sintomas, mas carecem de comprovação;
- Novas tecnologias: A estimulação nervosa (VNS e TENS) surge como opção terapêutica promissora, embora ainda demande mais estudos.
Terapias farmacológicas para fibromialgia
- Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (duais) e gabapentinoides: continuam como escolhas principais, mas o uso deve ser individualizado, monitorando riscos cardíacos e de outros eventos adversos;
- Relaxantes musculares: úteis apenas para alívio pontual, pois perdem o efeito com o tempo e causam sedação;
- LDN (Naltrexona em dose baixa): opção promissora e segura para reduzir dor e inflamação, mas carecem de comprovação definitiva;
- Opioides: devem ser evitados devido aos altos riscos e baixa eficácia a longo prazo na fibromialgia;
- Canabinoides: O THC ajuda no alívio da dor, enquanto o CBD foca no efeito anti-inflamatório com menos impacto cognitivo. Falta comprovação de benefício na FM;
- Cetamina e psicodélicos: a cetamina oferece alívio rápido, mas o risco de dependência e efeitos cognitivos limita o uso. Outros psicodélicos seguem em fase de estudo.
Autoria

Gustavo Balbi
Editor-chefe de Clínica Médica da Afya • Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Reumatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro • Doutorando pela USP • Professor de Reumatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora • Chefe do serviço de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora • Membro da Comissão de Síndrome Antifosfolípide e da Comissão de Vasculites da Sociedade Brasileira de Reumatologia
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