Há uma importante discussão sobre qual seria o momento adequado para confiar um smartphone a um adolescente. Embora existam vantagens em ter um aparelho, algumas evidências sugerem que adquiri-lo antes dos 13 anos pode ser prejudicial à saúde. Tanto é assim que há recomendações nesse sentido, como o movimento de pais Wait Until 8th, expressão que pode ser traduzida como “espere até o oitavo ano”. Mas dar um smartphone a um adolescente de 13 anos seria, de fato, menos deletério?
Para responder a essa pergunta, Bren e colaboradores conduziram uma pesquisa com o objetivo de investigar o que mudava na vida de adolescentes um ano após receberem um smartphone por volta dos 13 anos de idade. Para isso, acompanharam uma parte de um grupo de jovens que integrava o Adolescent Brain Cognitive Development Study, conhecido como ABCD, nos Estados Unidos. O estudo ABCD acompanha uma coorte de jovens a partir dos 9 ou 10 anos de idade até a adolescência, em 21 locais dos Estados Unidos, com avaliações anuais.

Smartphone aos 13 anos e os efeitos na saúde do adolescente
Os autores analisaram dados de 1.959 participantes que não possuíam um smartphone no terceiro ano do projeto, momento em que tinham, em média, cerca de 13 anos. Destes, 1.230 passaram a ter um smartphone ao longo do ano seguinte, enquanto 729 permaneceram sem o aparelho. Assim, formaram-se dois grupos, um com e outro sem smartphone, que foram posteriormente comparados no quarto ano de avaliação do projeto, quando os participantes tinham, em média, cerca de 14 anos. A aquisição do aparelho foi determinada por meio de uma pergunta feita aos responsáveis.
O tempo de uso foi avaliado por uma pergunta direta aos próprios jovens, assim como o uso de ferramentas específicas, como redes sociais, streaming, mensagens de texto, conversas por vídeo, jogos com um ou vários jogadores e atividades escolares. Também foram utilizadas avaliações clínicas, medidas antropométricas, como o IMC, informações sobre horas de sono e variáveis sociodemográficas. O trabalho foi publicado no JAMA Pediatrics em junho de 2026.
Como resultado, os autores observaram que a aquisição de um smartphone aos 13 anos não se associou de forma significativa a um aumento de depressão ou obesidade aos 14 anos, mas esteve associada a maior risco de sono insuficiente. Esse problema, por sua vez, pareceu ser menor entre os adolescentes que deixavam o aparelho fora do quarto na hora de dormir.
Os mesmos autores já haviam investigado anteriormente, também no grupo do estudo ABCD, o uso de smartphones aos 12 anos, o que havia sido associado a piora da saúde mental nos anos subsequentes, além de relação com depressão, obesidade e dificuldades com o sono. É possível que essa diferença nos desfechos esteja relacionada a uma maior maturidade emocional aos 13 anos, o que poderia reduzir a vulnerabilidade aos efeitos adversos da introdução do smartphone. De toda forma, os achados deste estudo parecem oferecer algum suporte a iniciativas que sugerem esperar até os 13 anos para entregar um aparelho aos jovens.
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Uso excessivo de tela aumenta risco de depressão e obesidade
Outro ponto avaliado foi o tempo de uso. Segundo os autores, entre os adolescentes que passaram a ter um smartphone, o uso superior a 5 horas por dia esteve associado a uma chance mais de duas vezes maior de depressão e obesidade, além de uma associação duas vezes maior de sono insuficiente quando comparado ao grupo que utilizava apenas 2 horas por dia.
Em relação aos padrões de uso, não foram observadas diferenças significativas entre os sexos, nem entre o uso em dias de semana e nos finais de semana. Os autores levantam a possibilidade de que diferenças entre meninos e meninas possam se tornar mais evidentes em idades mais avançadas, quando mudanças biológicas e psicológicas ligadas à puberdade se manifestam de forma mais plena.
Como reduzir os riscos do uso do smartphone na adolescência
O trabalho também identificou duas estratégias possíveis para promover um uso mais seguro dos smartphones. A primeira é deixar o aparelho fora do quarto na hora de dormir. A segunda é limitar o tempo de uso. No estudo, o uso inferior a 2 horas por dia foi utilizado como referência, em consonância com a ideia de que esse poderia ser um limite razoável para o uso recreativo de telas entre adolescentes nessa faixa etária. Assim, os resultados oferecem apoio para que famílias sejam orientadas a adotar esses cuidados.
Esses achados, no entanto, devem ser interpretados levando-se em consideração algumas limitações. O tempo de uso do smartphones foi autorreferido pelos adolescentes, o que pode estar sujeito a vieses de memória e de desejabilidade social. A informação sobre a aquisição do aparelho foi obtida por meio dos responsáveis. Além disso, a população estudada tinha nível socioeconômico mais elevado, o que pode limitar a generalização dos resultados. Os próprios autores mencionam que estudos europeus sugerem que os efeitos do uso de smartphones sobre a saúde mental podem ser mais intensos em adolescentes de classes socioeconômicas mais baixas. Outro ponto é que as avaliações foram anuais, o que dificulta determinar com maior precisão quando o aparelho foi adquirido e como os efeitos se desenvolveram ao longo do tempo. Por fim, embora a coorte seja grande, trata-se ainda de uma única coorte, o que restringe algumas análises e reforça a necessidade de novos estudos.
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O que médicos devem saber sobre o uso seguro de telas
Ainda assim, os resultados encontrados sugerem que a aquisição de um smartphone aos 13 anos está associada a maior risco de sono insuficiente, e que o uso prolongado do aparelho pode se associar a maior risco de depressão, obesidade e sono insuficiente. Médicos, responsáveis e formuladores de políticas sobre o uso de smartphones podem utilizar essas informações para orientar melhor o cuidado com os jovens. Novos estudos poderão ajudar a estabelecer diretrizes mais específicas sobre o tema. Até lá, a forma mais prática de proteger a saúde dos adolescentes parece ser permitir um acesso compatível com a idade, mas com manejo ativo do tempo de uso e do acesso ao aparelho durante a noite.
Autoria

Paula Benevenuto Hartmann
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Psiquiatria na mesma instituição (2018) e Área de Atuação em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela mesma instituição (2024). Mestrado em Psiquiatria e Saúde Mental pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP, Portugal). Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular.
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