O uso de dispositivos digitais por crianças pequenas é tema de crescente debate na medicina e nas políticas de saúde pública. Quando se trata de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) não há ainda recomendação clara e específica acerca dos tempos de tela. Nesse contexto, uma revisão integrativa recentemente publicada nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria sintetizou as evidências disponíveis sobre o impacto do tempo de tela no comportamento e no sono dessa população, e os achados merecem atenção de todo médico que acompanha crianças e adolescentes.

O que sabemos sobre TEA e telas
O TEA é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento de manifestações heterogêneas, caracterizado por déficits persistentes na comunicação social e pela presença de comportamentos restritos ou repetitivos.
Do ponto de vista clínico, crianças com TEA já partem de uma condição de maior vulnerabilidade. Entre 40% e 80% delas apresentam algum tipo de distúrbio do sono — insônia, dificuldade de iniciação do sono, despertares noturnos, parassonias e alterações do ritmo circadiano estão entre os mais frequentes. Agitação psicomotora, irritabilidade, comportamentos autolesivos e suscetibilidade aumentada a comorbidades psiquiátricas completam o quadro clínico com que muitos profissionais se deparam no dia a dia.
Nesse cenário, o crescente uso de telas por crianças com TEA preocupa, pois evidências sugerem que esse grupo já tem, naturalmente, maior exposição a dispositivos digitais do que seus pares neurotípicos, o que pode impactar neurodesenvolvimento, comportamento e sono.
O que o estudo encontrou
Essa revisão integrativa da literatura, que incorporou elementos do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), analisou 10 estudos com amostras de seis países em três continentes (Canadá, China, Estados Unidos, França, Índia e Irã), incluindo um milhares de pacientes com TEA.
A maioria dos participantes era do sexo masculino, com média de idade em torno dos 37 a 39 meses (em média 3 anos), sendo o tempo médio diário de tela superior a 2 horas na maior parte das amostras.
Sono: Um estudo indiano com pré-escolares identificou associações significativas entre maior tempo de tela e atraso no início do sono, menor duração do sono, aumento da ansiedade do sono, despertares noturnos e sonolência diurna. Cada hora adicional de exposição a telas correlacionou-se com um aumento de 5,6 pontos no escore total do Children’s Sleep Habits Questionnaire (CSHQ). Por outro lado, um estudo norte-americano com adolescentes que usavam telas dentro dos limites recomendados pela OMS (média de 130 minutos/dia) não identificou associação significativa com qualidade do sono — o que sugere que, ao menos nessa faixa etária, a aderência às diretrizes pode ser protetora.
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Comportamento e desenvolvimento:
Estudos chineses com pré-escolares encontraram correlação negativa entre tempo de tela e escores nas Griffiths Development Scales for China, especialmente no domínio auditivo e de linguagem, e correlação positiva com a Childhood Autism Rating Scale — sendo essa associação mais pronunciada em crianças com mais de 2 horas diárias de exposição. Os impactos negativos se estenderam a todos os domínios avaliados: comportamento adaptativo, motricidade grossa e fina, linguagem e habilidades pessoais e sociais. Um estudo canadense observou que o uso excessivo de telas em meninos mais velhos elevou em 1,8 vezes a chance de impacto negativo na qualidade de vida e em 1,9 vezes a chance de prejuízo à saúde mental. Atividades como conectar-se com família e amigos, jogos educativos e aplicativos terapêuticos, entretanto, foram associadas a menor percepção de impacto negativo — sugerindo que o tipo de conteúdo importa tanto quanto o tempo de exposição.
Discussão
A explicação para esses achados não é trivial. Estudos de neuroimagem demonstram que o uso excessivo de telas prejudica a conectividade funcional cerebral, levando a atrasos no desenvolvimento da linguagem e maior gravidade dos sintomas do TEA. O acesso mais amplo a telas também se associa a menor conectividade funcional entre redes neurais relacionadas ao controle atencional e cognitivo.
No que diz respeito ao sono, a literatura aponta para o papel da luz azul emitida por dispositivos digitais e sua interferência na produção de melatonina, além da disfunção do ritmo. O uso de eletrônicos próximo ao horário de dormir amplifica esses efeitos.
Um estudo longitudinal de intervenção demonstrou que a redução do tempo de tela resultou em melhora de 23% nos sintomas relacionados ao TEA, medida pelo Brief Observation of Social Communication Change (BOSCC) — um dado relevante que aponta o tempo de tela como fator modificável com impacto real no neurodesenvolvimento.
Essa revisão integrativa, contudo, apresenta limitações. A comparação entre estudos é dificultada pela ausência de padronização nos instrumentos de avaliação (muitos trabalhos utilizaram questionários não validados desenvolvidos pelos próprios pesquisadores) e pela heterogeneidade das populações estudadas, oriundas de contextos socioeconômicos e culturais muito distintos. Além disso, nenhum dos estudos analisados controlou adequadamente para a variabilidade fenotípica do TEA, presença de comorbidades ou gravidade basal dos sintomas.
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Mensagem final
Até que novos estudos forneçam diretrizes específicas para crianças com TEA, os autores concluem que as recomendações da OMS para a população pediátrica geral devem ser aplicadas a esse grupo, com maior atenção às crianças menores. Segundo a OMS, crianças menores de 1 ano não devem ser expostas a telas; crianças entre 2 e 4 anos devem ter, no máximo, 1 hora diária; e crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos não devem ultrapassar 2 horas por dia.
O desenvolvimento e a disseminação de estratégias para limitar o uso de telas em ambientes domésticos e educacionais representam uma necessidade crescente, considerando a prevalência em ascensão do TEA e o potencial papel das telas na exacerbação de suas manifestações clínicas.
Autoria

Danielle Calil
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.
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