Síndromes são caracterizadas por um conjunto de sinais e sintomas que, em conjunto, podem ser associados a uma determinada condição clínica. Algumas pessoas consideram que os sentimentos e comportamentos observados durante as festas de fim de ano constituem uma resposta normal, afetando uma parcela significativa da população. Ao longo dos anos, diferentes autores definiram esses sintomas com maior ou menor gravidade. Enquanto alguns acreditam que ainda não existem dados suficientes para classificar este quadro como uma síndrome específica, outros argumentam que se trata de uma reação a um complexo de fatores estressantes, mais relacionada ao estresse do que a transtornos mentais, como a depressão. Apesar dessas divergências, o interesse pelo tema vem crescendo.
Dados interessantes a avaliar
Um artigo publicado em novembro de 2023 no site da American Psychological Association (APA) discutiu o estresse associado às festas de fim de ano. Com base em uma pesquisa online realizada no mesmo mês, nos Estados Unidos, envolvendo mais de dois mil participantes, foi possível observar sentimentos ambivalentes em relação a essa época. Entre os fatores mais citados estão preocupações financeiras, saudade de entes queridos, temor por conflitos familiares, dificuldade em encontrar presentes adequados e sentimentos de exclusão cultural entre aqueles que não seguem religiões cristãs, como os judeus. Esses aspectos foram identificados por 89% dos entrevistados. Além disso, 41% relataram que seu nível de estresse aumenta durante esse período, especialmente entre famílias de baixa renda, que enfrentam maior pressão para gastar. Apesar disso, 69% dos participantes avaliaram a época como positiva.
Outro artigo da APA destacou o impacto desproporcional das festas sobre as mulheres, que frequentemente assumem a maior parte das responsabilidades relacionadas às celebrações, como decoração, preparo de alimentos, compras, organização da casa e escolha de presentes. Embora ambos os sexos sintam a pressão de proporcionar o melhor para suas famílias, a sobrecarga é particularmente intensa para elas. Adicionalmente, o consumismo típico da época e a dificuldade em conciliar tantas demandas com as obrigações de trabalho são outras fontes de estresse. Muitos temem que o trabalho interfira nas celebrações, reduzindo o tempo disponível para aproveitar a família e os amigos.
Entre as possíveis causas do aumento do estresse nesse período, destacam-se: memórias nostálgicas ou dolorosas revividas por idosos, sentimentos de solidão, pessimismo relacionado a experiências ruins em anos anteriores, altas expectativas em relação aos presentes e a sensação de que outras pessoas estão se divertindo mais.
Para lidar com essas situações, muitas pessoas relataram se sentir confortáveis para discutir seus sentimentos com outras, embora poucos realmente o façam. Estratégias como lembrar que essa fase é passageira, ajustar expectativas, buscar apoio na fé ou realizar trabalhos voluntários também foram mencionadas como formas de enfrentamento.
O Ano Novo, por sua vez, é geralmente associado a sentimentos de renovação e esperança para o futuro. No entanto, comportamentos disfuncionais também foram observados, como isolamento, alterações no apetite (comer em excesso é mais citado, mas também pode haver restrição alimentar), sedentarismo (passar muito tempo assistindo TV ou dormindo) e aumento no consumo de álcool e nicotina.
Em alguns casos, as pessoas que sofrem durante essa época podem não compreender completamente a origem de seus sentimentos. Para aquelas que enfrentam situações mais específicas ou intensas, a psicoterapia pode ser uma alternativa eficaz. De forma geral, estratégias de enfrentamento recomendadas incluem o manejo do estresse e a mobilização de recursos pessoais e sociais.
Entre as práticas sugeridas estão: organizar os gastos e planejar antecipadamente a compra de presentes; estabelecer um cronograma de atividades, como decoração, preparo de alimentos e encontros sociais; planejar encontros com pessoas queridas, antecipando mudanças de humor e necessidades emocionais; distribuir responsabilidades entre os membros da família para equilibrar a carga de tarefas; discutir expectativas e limitações sobre troca de presentes, estabelecendo acordos claros.
Além disso, grupos de apoio podem ser úteis, especialmente para populações vulneráveis, como pessoas em recuperação de dependência química. Esses grupos oferecem um espaço para compartilhamento de experiências, apoio mútuo e fortalecimento emocional durante o período das festas.
Conclusão e mensagem prática
O blues das festas, embora não seja universalmente reconhecido como uma síndrome clínica, reflete os desafios emocionais enfrentados por muitas pessoas nessa época do ano. Com um planejamento adequado, suporte social e estratégias de enfrentamento saudáveis, é possível que algumas pessoas consigam transformar as festas em um período mais equilibrado e satisfatório.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.