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Psiquiatria26 outubro 2026

Saúde mental no Brasil revela diferenças importantes entre faixas etárias

Dados de saúde mental de 4.601 participantes detalham diferenças populacionais, indicadores e questões metodológicas relevantes à avaliação médica.
Por Bruna Lupp

O Instituto Cactus e a AtlasIntel divulgaram o Panorama da Saúde Mental 2026, com resultados de 4.601 participantes com faixa etária acima de 16 anos no Brasil. A coleta online, entre abril e junho, reuniu indicadores ICASM e PHQ-9 para monitorar padrões populacionais, não para estabelecer diagnósticos individuais.

O estudo utilizou convites digitais e ponderação estatística para aproximar a amostra das características da população brasileira. Os entrevistados eram usuários alcançados pela pesquisa online, não uma população selecionada em serviços médicos.

saúde mental

ICASM registra 671 pontos em 2026

O Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) atingiu 671 pontos em 2026, antes 667 em 2025, sem diferença estatisticamente significativa. Comparado à primeira coleta, realizada em 2023, quando registrou 635 pontos, o indicador apresentou melhora. Entretanto, essa evolução não ocorreu igualmente entre as três dimensões avaliadas.

A dimensão Foco apresentou a menor pontuação, com 564 pontos, seguida por Vitalidade (689) e Confiança (761). Cerca de 40% dos participantes relataram piora na capacidade de concentração nas duas semanas anteriores à pesquisa. Outros 43,8% indicaram redução da satisfação com as atividades cotidianas. Na dimensão Vitalidade, 54,9% relataram algum grau de perda de sono relacionada a preocupações.

As diferenças etárias também foram expressivas. Participantes de 60 anos ou mais registraram ICASM de 806 pontos, enquanto aqueles de 25 a 34 anos alcançaram 591 pontos. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice foi de 638 pontos, mostrando que a relação entre idade e pontuação não foi linear.

O diagnóstico prévio de transtorno mental também esteve associado a diferenças relevantes. Participantes que relataram diagnóstico apresentaram ICASM de 553 pontos, contra 700 entre aqueles sem diagnóstico. A diferença apareceu nas três dimensões avaliadas, incluindo Confiança, Vitalidade e Foco.

O relatório ressalta que o ICASM não constitui diagnóstico clínico. O índice permite acompanhar padrões de saúde mental entre grupos populacionais, mas não determina individualmente a presença ou a gravidade de transtornos mentais. Além disso, o desenho transversal da pesquisa não permite estabelecer relações de causa e efeito.

Como o PHQ-9 informa a avaliação clínica?

Os resultados do Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) mostram elevada frequência de sintomas relacionados à saúde mental entre os participantes. Nas duas semanas anteriores à pesquisa, 68,8% relataram cansaço ou falta de energia, enquanto 58,3% mencionaram alterações do sono. Outros 57,9% indicaram perda de interesse ou prazer nas atividades, e 53,6% relataram sentimentos depressivos ou falta de perspectiva.

Um dos resultados que merece destaque é a frequência de pensamentos relacionados à autoagressão ou à morte. Esse tipo de pensamento foi relatado por 18,2% dos participantes, em alguma frequência no período investigado. O percentual corresponde a respostas autorreferidas ao questionário e não representa uma estimativa de tentativas de suicídio ou de diagnósticos psiquiátricos.

A distribuição dos sintomas apresentou diferenças relevantes entre as faixas etárias. Entre participantes de 16 a 24 anos, 83,6% relataram perda de interesse ou prazer, contra 40,4% daqueles com 60 anos ou mais. Sentimentos depressivos também foram mais frequentes entre os jovens de 16 a 24 anos (70,5%) do que entre os participantes com 60 anos ou mais (39,1%).

O diagnóstico prévio de transtorno mental também esteve associado a maior frequência de sintomas. Entre participantes com diagnóstico relatado, 79,4% mencionaram sentimentos depressivos, ante 48,2% entre aqueles sem diagnóstico. Alterações relacionadas à lentidão ou agitação foram registradas por 58,8% e 28% desses grupos, respectivamente.

Saiba mais: Revisão do manejo da depressão em adultos 

Solidão e saúde mental na avaliação clínica

A solidão esteve entre os fatores mais fortemente associados a menores pontuações de saúde mental no Panorama da Saúde Mental 2026. Entre os participantes, 36,5% relataram esse sentimento nas duas semanas anteriores à pesquisa. Desse grupo, 19,1% da amostra total mencionaram episódios em três ou mais ocasiões.

A diferença no Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) foi expressiva. Participantes sem relatos de solidão apresentaram 782 pontos, contra 583 entre aqueles que se sentiram sozinhos uma ou duas vezes. Nos casos de maior frequência, o indicador caiu para 383 pontos.

A ocorrência de solidão também variou conforme características dos participantes. Entre pessoas com diagnóstico prévio de transtorno mental, 52,5% relataram solidão, ante 32,5% entre aquelas sem diagnóstico. O sentimento foi mais frequente entre solteiros (51,7%) do que entre casados (26,6%).

O uso de redes sociais apresentou outra associação relevante. Entre participantes que utilizavam essas plataformas por três horas ou mais diariamente, 46,8% relataram solidão, em comparação a 26,1% entre aqueles com uso moderado, de uma a três horas por dia.

Aplicabilidade para a prática médica

O estudo apresenta a conexão social como uma dimensão relevante para compreender a saúde mental, considerando relações familiares, vínculos de amizade e pertencimento comunitário. Os resultados também mostram pontuações mais elevadas no ICASM entre participantes que relataram encontros com amigos e outras formas de participação social.

Entretanto, o levantamento não avaliou intervenções clínicas destinadas a reduzir a solidão nem investigou sua eficácia terapêutica. Por seu desenho transversal, também não permite determinar se a solidão antecede o sofrimento psíquico ou ocorre como consequência dele.

Assim, os resultados oferecem informações sobre a relação entre experiências sociais e indicadores populacionais de saúde mental, mas não estabelecem protocolos de rastreamento, critérios diagnósticos ou condutas terapêuticas para pacientes que relatam solidão.

Amostra digital impõe limites à extrapolação

O recrutamento pela internet está sujeito a não resposta e autosseleção, apesar dos ajustes estatísticos empregados. A ausência de acesso direto aos questionários foi compensada por ponderação, mas as estimativas seguem dependentes do desenho amostral.

Os resultados são transversais e não permitem atribuir causalidade às associações observadas. Subgrupos com poucos participantes, incluindo pessoas indígenas e transgênero, apresentam margens de erro especialmente elevadas.

Instituto Cactus e AtlasIntel participaram da elaboração e da análise, e a coleta empregou metodologia proprietária da AtlasIntel. O documento identifica responsáveis e aprovação ética, mas não apresenta declaração específica de conflitos de interesse ou financiamento.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.

Autoria

Foto de Bruna Lupp

Bruna Lupp

Editora de Conteúdo Sr. Formada em Letras pela UFRJ e pós-graduada em Gestão de Projetos. Atuante na produção de conteúdo médico há 10 anos.

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