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Pediatria30 julho 2026

Vitamina D na gestação melhora a cognição infantil?

Ensaio clínico avaliou se 2.800 UI/dia de vitamina D na gestação afetam memória e outros domínios cognitivos aos 10 anos.
Por Jôbert Neves

A vitamina D tem sido associada ao neurodesenvolvimento fetal em diversos estudos observacionais, mas os resultados permanecem inconsistentes. Embora existam evidências relacionando deficiência materna de vitamina D a pior desempenho cognitivo e maior risco de transtornos do  neurodesenvolvimento, faltavam ensaios clínicos randomizados com avaliação cognitiva em longo prazo. 

Um novo estudo publicado no JAMA Network Open avaliou se a suplementação de vitamina D em alta dose durante a gestação poderia impactar o desempenho cognitivo dos filhos aos 10 anos de idade. 

Saiba mais: Níveis de vitamina D na gestação parecem estar associados ao QI da criança 

Vitamina D na gestação

Como o estudo COPSAC2010 avaliou a cognição aos 10 anos 

A análise utilizou dados do estudo dinamarquês COPSAC2010, um ensaio clínico randomizado que incluiu gestantes entre a 24ª semana de gestação e o período pós-parto imediato. As participantes receberam vitamina D3 em alta dose (2.800 UI/dia) ou a dose padrão recomendada localmente (400 UI/dia). 

Aos 10 anos de idade, 498 crianças foram submetidas a uma ampla avaliação neuropsicológica, que analisou 11 funções cognitivas distribuídas em múltiplos domínios, incluindo inteligência, memória, atenção, velocidade de processamento e funções executivas. 

Saiba mais: Nutrição da gestante é destaque nas atualizações da SBP para o pré-natal 

Benefícios foram restritos à memória verbal e visual 

Entre os 11 domínios cognitivos avaliados, a suplementação em alta dose foi associada a melhor desempenho em memória verbal e memória visual aos 10 anos. Os tamanhos de efeito foram modestos, mas estatisticamente significativos após ajuste para potenciais confundidores. A associação observada para flexibilidade cognitiva (set shifting) perdeu significância após correção para múltiplas comparações. 

Por outro lado, não foram observadas diferenças em inteligência estimada, atenção sustentada, velocidade de processamento, memória de trabalho, velocidade motora ou planejamento. 

O estudo sugere, portanto, um possível efeito da suplementação pré-natal sobre domínios específicos da memória, sem evidência de benefício cognitivo global. 

Como interpretar os achados e as limitações 

O aspecto mais relevante do estudo é o desenho metodológico. Diferentemente da maior parte da literatura disponível, trata-se de um ensaio clínico randomizado com seguimento até a idade escolar, reduzindo substancialmente o risco de confundimento inerente aos estudos observacionais. 

Entretanto, algumas limitações devem ser consideradas. Trata-se de uma análise pós-hoc de um estudo originalmente desenhado para avaliar desfechos respiratórios. Além disso, a população apresentava níveis relativamente elevados de vitamina D no início da gestação, com mediana superior a 30 ng/mL,  o que pode ter reduzido a magnitude dos efeitos observados. Apenas cerca de 15% das participantes apresentavam níveis inferiores a 20 ng/mL. 

O que o estudo muda para o pediatra? 

Provavelmente, pouco em termos de conduta imediata. 

O estudo não fornece suporte para recomendar a suplementação de vitamina D acima das doses habitualmente recomendadas com o objetivo específico de melhorar a cognição infantil. Contudo, fortalece a hipótese biológica de que a exposição pré-natal à vitamina D pode influenciar aspectos específicos do desenvolvimento cerebral, particularmente relacionados à memória. 

Além disso, reforça a importância de garantir níveis adequados de vitamina D durante a gestação, tema que já possui respaldo por outros potenciais benefícios maternos e infantis. 

Saiba mais: Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico e manejo 

Pontos para levar para a prática 

  • Trata-se de um dos primeiros ensaios clínicos randomizados com avaliação cognitiva aos 10 anos de idade. 
  • A suplementação de 2.800 UI/dia foi associada a melhor desempenho em memória verbal e visual. 
  • Não houve benefício em inteligência global ou na maioria dos demais domínios cognitivos avaliados. 
  • Os efeitos observados foram modestos e ocorreram em uma população predominantemente suficiente em vitamina D. 
  • O estudo reforça a relevância da vitamina D na gestação, mas não justifica mudanças nas recomendações atuais de suplementação. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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