Os tumores adrenocorticais pediátricos (TACP) são neoplasias raras e potencialmente fatais. A maioria é hormonalmente ativa, frequentemente com excesso de andrógenos. Para padronizar a avaliação diagnóstica de crianças com TACP, com base em evidências, o grupo de estudos KIDS da European Network for the Study of Adrenal Tumours (ENS@T) publicou, em julho de 2026, um consenso internacional pioneiro sobre a investigação diagnóstica desses tumores no European Journal of Endocrinology. Neste artigo, são apresentadas as principais contribuições do documento.
Como o consenso internacional foi elaborado
Os autores aplicaram um processo Delphi modificado de três etapas, com um painel internacional de especialistas em TACP, para desenvolver um consenso sobre a avaliação diagnóstica inicial. Após uma revisão da literatura, o comitê diretivo formulou declarações, distribuídas eletronicamente a 28 especialistas da Europa, das Américas — incluindo brasileiros — e da Ásia.
A concordância foi avaliada em uma escala Likert de seis pontos; concordância igual ou superior a 70% foi definida como consenso. Entre as rodadas, os resultados e os comentários foram revisados pelo grupo ENS@T-KIDS. Na primeira rodada, 33 declarações alcançaram consenso; 12 foram revisadas e votadas novamente na segunda rodada, e sete alcançaram consenso. Cinco declarações foram novamente modificadas, e uma alcançou consenso na terceira rodada.
As taxas de resposta foram de 86% (n = 24) na primeira rodada, 82% (n = 23) na segunda e 86% (n = 24) na terceira. Ao todo, 41 afirmações obtiveram consenso e abrangeram quatro domínios: aspectos gerais e avaliação clínica, investigação endócrina, investigação radiológica e investigação genética.
Quais sinais clínicos devem levantar suspeita de TACP?
- Todos os pacientes devem ser acompanhados em centros com experiência no manejo de TACP.
- Todas as crianças com pubarca precoce, síndrome de Cushing e/ou hipertensão arterial sistêmica devem ser investigadas para TACP.
- Todas as pacientes do sexo feminino com sinais de virilização devem ser investigadas para TACP.
Saiba mais: Abordagem dos tumores em oncologia pediátrica e os conselhos multidisciplinares
Em pacientes com suspeita de TACP, o consenso orienta:
- Elaborar heredograma familiar completo, com histórico de neoplasias abrangendo três gerações, e avaliar o estadiamento puberal de Tanner.
- Documentar a duração dos sintomas clínicos.
- Obter peso, estatura e índice de massa corporal, além de acompanhar essas medidas antropométricas.
- Calcular o alvo genético de estatura.
- Aferir a pressão arterial em diferentes ocasiões e interpretá-la de acordo com as referências para idade, sexo e estatura.
- Solicitar avaliação da função cardíaca em pacientes com pressão arterial elevada e/ou outros fatores de risco cardiovascular e naqueles submetidos à quimioterapia, incluindo mitotano.
- Solicitar avaliação oftalmológica, incluindo fundoscopia, em pacientes com pressão arterial elevada.
Saiba mais: COBRAPEM 2025 — Odor axilar e pubarca devem sempre ser investigados?
Saiba mais: Avaliação e investigação da puberdade precoce
Investigação endócrina: quais exames foram consensuais?
A investigação endócrina é obrigatória em crianças ou adolescentes com sinais clínicos de TACP. O consenso inclui os seguintes exames:
- Mineralocorticoides: sódio, potássio, aldosterona, renina — concentração ou atividade, independentemente da presença de hipertensão — e 11-desoxicorticosterona.
- Esteroides sexuais: dosagem matinal de sulfato de desidroepiandrosterona (DHEA-S), androstenediona, 17-hidroxiprogesterona, estradiol e testosterona plasmáticos. Se disponível, perfil de esteroides urinários por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa (GC-MS).
- Glicocorticoides: dosagem matinal de cortisol e ACTH, além de pelo menos dois dos seguintes: cortisol à meia-noite em saliva ou plasma; teste noturno de supressão com dexametasona; ou três coletas consecutivas de urina de 24 horas para cortisol livre urinário.
- Avaliação geral: parâmetros de lise celular — LDH, ácido úrico, bilirrubina total e frações e fósforo —, coagulação basal e hemograma completo, incluindo contagem diferencial de leucócitos.
- Usar ensaios baseados em espectrometria de massa para a dosagem de todos os hormônios esteroides.
- Descartar a possibilidade de feocromocitoma na presença de massa adrenal.
- Não realizar rotineiramente o teste prolongado de supressão com dexametasona oral, por três dias, para investigar produção autônoma de andrógenos.
Qual é o papel dos exames de imagem?
Todos os pacientes com suspeita de TACP devem:
- Realizar avaliação da idade óssea caso ainda não tenham completado a puberdade.
- Realizar exames de imagem paralelamente à avaliação endócrina e hormonal na investigação inicial.
- Realizar ultrassonografia abdominal como rastreio inicial e ressonância magnética com contraste.
Testes e aconselhamento genético no TACP
Todos os pacientes com TACP devem ser submetidos a testes genéticos:
- Investigação da síndrome de Li-Fraumeni por análise de TP53.
- Investigação da síndrome de Lynch.
- Painel direcionado ou sequenciamento completo do exoma para avaliar variantes germinativas causadoras de doença.
- Sequenciamento completo do exoma em amostra tumoral para avaliar variantes somáticas.
- Todos os pacientes com TACP devem receber aconselhamento genético.
Mensagem prática para a investigação diagnóstica
O consenso internacional traz contribuições importantes ao orientar a investigação diagnóstica diante da suspeita de tumor adrenocortical pediátrico. Entretanto, a dificuldade de acesso a especialistas e a exames laboratoriais e de imagem ainda limita o diagnóstico precoce desses tumores.
Autoria

Renata Carneiro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pediatra pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Intensivista pediátrica pelo INCA e AMIB, mestra em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ. Além da atuação na Afya, atende em consultório particular e é servidora plantonista do CTI do IPPMG-UFRJ e servidora do CEFET-RJ.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.