Nessa segunda parte, abordamos as recomendações da Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics – AAP) referentes ao teste e ao tratamento da gripe na temporada 2025-2026.
Teste de influenza
A AAP destaca que as recomendações para o teste são baseadas no contexto e no impacto previsto no manejo clínico do paciente.
- O teste deve ser realizado em crianças com sinais e sintomas quando os resultados puderem impactar o manejo clínico, como para orientar a decisão de iniciar tratamento antiviral ou evitar antibioticoterapia, realizar outros exames diagnósticos, iniciar medidas de prevenção e controle de infecções ou diferenciar de outros vírus respiratórios com manifestações clínicas semelhantes;
- Teste para gripe aviária ou outras cepas novas: deve ser realizado sob orientação das autoridades de saúde pública. O questionamento sobre a exposição a animais doentes ou mortos, particularmente aves silvestres, aves domésticas ou vacas leiteiras, deve ser considerado para avaliar a necessidade de teste para gripe aviária.
- Pacientes internados com manifestações clínicas de gripe devem ser testados com um teste de amplificação de ácido nucleico com alta sensibilidade e especificidade (por exemplo, reação em cadeia da polimerase com transcriptase reversa [RT-PCR]), quando houver circulação de influenza na comunidade;
- Testes caseiros: disponíveis para crianças a partir de dois anos, porém há limitação de dados em pacientes pediátricos. Entretanto, podem orientar as decisões de tratamento com base na sensibilidade e especificidade, na prevalência da gripe na comunidade, na presença e duração de quadro clínico compatível e nos fatores de risco e comorbidades individuais.
Leia também: Recomendações da AAP para a prevenção e o controle da gripe em crianças (2025/26)

Tratamento da gripe
O uso de fármacos antivirais consiste em um importante fator para o controle da gripe, mas não substitui a vacinação. O seu papel na prevenção e no tratamento em crianças depende da gravidade da doença e das considerações de risco. Os melhores resultados são observados quando a criança é tratada dentro de 48h após o início dos sintomas, contudo, a terapia antiviral ainda deve ser considerada após 48h em determinadas condições.
- Os pacientes com suspeita de gripe devem ser identificados rapidamente para o início oportuno do tratamento antiviral, quando indicado, para reduzir a morbidade e a mortalidade. O tratamento de pacientes que não apresentam alto risco de complicações em ambiente ambulatorial deve ser baseado na tomada de decisão compartilhada entre o médico e o responsável da criança;
- Um teste positivo para influenza não é obrigatório para se indicar a terapia antiviral quando o vírus está circulando na comunidade. O início da terapia deve ser baseado em sinais e sintomas consistentes com gripe, fatores de risco do paciente e fatores epidemiológicos, como exposição conhecida e presença do vírus influenza circulando na comunidade, por exemplo;
- O oseltamivir é considerado pela AAP como o antiviral preferido para pacientes com influenza A e B devido à experiência acumulada com este medicamento em crianças, ao custo relativamente baixo e à facilidade de administração.
Quimioprofilaxia
Considere a quimioprofilaxia dentro de 48 h após a exposição:
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Criança assintomática com exposição conhecida ou suspeita |
Crianças não vacinadas ou com vacinação incompleta apresentam alto risco de complicações |
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Crianças não vacinadas que tenham um familiar ou contato próximo com alto risco de complicações da gripe e que não possam ser protegidas eficazmente contra a gripe de outra forma | |
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Crianças vacinadas com alto risco de complicações que podem não ter desenvolvido uma resposta imune | |
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Crianças vacinadas apresentam alto risco de complicações quando a cepa da vacina não corresponde ou é ineficaz contra as cepas circulantes | |
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Contato próximo assintomático com exposição conhecida ou suspeita |
Familiares não vacinados e pessoas que tiveram contato próximo com crianças não vacinadas apresentam alto risco de complicações, assim como crianças não vacinadas com menos de 24 meses de vida |
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Familiares e pessoas próximas de crianças com alto risco de complicações quando a cepa da vacina não corresponde ou é ineficaz contra as cepas circulantes |
Considere o tratamento:
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Não há limite de tempo para começar o tratamento | Criança com sintomas e infecção conhecida ou suspeita. Assim que os resultados dos testes estiverem disponíveis, o tratamento poderá ser adaptado de acordo |
Crianças com contatos domiciliares apresentam alto risco |
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Crianças com contato domiciliar com menos de 6 meses de vida | ||
| Dentro de 48 h após o início dos sintomas | Outras crianças com sintomas semelhantes aos da gripe |
Recomenda-se o tratamento:
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Não há limite de tempo para começar o tratamento |
Criança com sintomas e infecção conhecida ou suspeita. Assim que os resultados dos testes estiverem disponíveis, o tratamento poderá ser adaptado de acordo | Crianças com doenças graves |
| Crianças com doenças complexas | ||
| Crianças com doenças progressivas | ||
| Crianças com maior risco de complicações (menores de 5 anos de idade ou com alguma condição subjacente) | ||
| Não há prazo limite para iniciar o tratamento, embora o ideal seja iniciá-lo o mais cedo possível após o início dos sintomas. | Crianças hospitalizadas |
Oseltamivir (doses recomendadas para tratamento e quimioprofilaxia)
Lactentes prematuros:
| Idade pós-menstrual |
Tratamento | |
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Dose |
Duração | |
| <38 semanas |
1 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação |
5 dias |
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38-40 semanas | 1,5 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | |
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>40 semanas | 3 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação. | |
Legenda: VO – via oral.
Nota: Lactentes prematuros podem ter menor depuração de oseltamivir devido à função renal imatura, e as doses recomendadas para bebês a termo podem levar a concentrações muito altas do fármaco nessa faixa etária. Para bebês extremamente prematuros (<28 semanas), um infectologista pediátrico deve ser consultado. A profilaxia pós-exposição (PPE) geralmente não é recomendada devido aos dados limitados, a menos que seja considerada essencial para o controle de surtos com base no julgamento clínico. No entanto, a dosagem ideal não foi definida nesse contexto.
Lactentes a termo com idade inferior a 12 meses:
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Idade | Tratamento | Quimioprofilaxia | ||
| Dose | Duração | Dose | Duração | |
| A termo 0-8 meses | 3 mg/kg/dose, 2 vezes/dia, VO ou por sonda de alimentação |
5 dias | 3,5 mg/kg/dose, 1 vez/dia |
7 dias |
| 9-11 meses | 3,5 mg/kg/dose, 2 vezes/dia, VO ou por sonda de alimentação | 3–8 meses: 3 mg/kg/dose, 1 vez/dia | ||
Legenda: VO – via oral.
Nota: O oseltamivir é aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento da gripe em crianças com duas semanas de vida ou mais e pode ser usado desde o nascimento em neonatos a termo e prematuros quando os benefícios superam os riscos potenciais, apesar dos dados de segurança limitados. O FDA não o aprovou para PPE em crianças com menos de 1 ano e não é recomendado pela AAP ou pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) para quimioprofilaxia em bebês com menos de 3 meses devido à insuficiência de dados de segurança e eficácia. Para o tratamento, as recomendações de dosagem diferem: a AAP recomenda uma dose maior para bebês de 9 a 11 meses para atingir a exposição alvo ao medicamento, enquanto o CDC recomenda 3,0 mg/kg duas vezes ao dia para todos os bebês <12 meses, com as diretrizes da Infectious Diseases Society of America (IDSA) reconhecendo ambas as abordagens.
Eventos adversos comuns: reações cutâneas e diarreia.
Crianças com idade igual ou superior a 12 meses:
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Peso | Tratamento | Quimioprofilaxia | ||
| Dose | Duração | Dose | Duração | |
| ≤15 kg | 30 mg, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | 5 dias | 30 mg, 1 vez/dia | 7 dias |
| >15–23 kg | 45 mg, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | 45 mg, 1 vez/dia | ||
| >23–40 kg | 60 mg, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | 60 mg, 1 vez/dia | ||
| >40 kg | 75 mg, 2 vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | 75 mg, 1 vez/dia | ||
Legenda: VO – via oral.
Eventos adversos comuns: náuseas, vômitos e cefaleia.
Adultos:
| Tratamento | Quimioprofilaxia | ||
| Dose | Duração | Dose | Duração |
| 75 mg, duas vezes ao dia, VO ou por sonda de alimentação | 5 dias | 75 mg, 1 vez/dia | 7 dias |
Legenda: VO – via oral.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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