A neutropenia febril (NF) é uma complicação grave da quimioterapia e do transplante de células-tronco hematopoéticas. As infecções em pacientes com NF podem progredir rapidamente, mesmo na presença de poucos sinais clínicos. Por isso, é necessária a administração imediata de antibióticos intravenosos de amplo espectro.
Na prática, cefepime e piperacilina-tazobactam estão entre os principais antibióticos betalactâmicos com atividade antipseudomonas. No entanto, diferem quanto ao espectro de ação e ao perfil de segurança. O cefepime apresenta potente atividade antipseudomonas, mas tem potencial de neurotoxicidade. A piperacilina-tazobactam, por sua vez, oferece cobertura mais ampla contra anaeróbios.
Embora os dados em pacientes adultos sejam mais robustos, as evidências disponíveis na população pediátrica permanecem limitadas e inconclusivas.
Uma revisão sistemática com metanálise comparou a monoterapia com piperacilina-tazobactam e cefepime em pacientes pediátricos com NF. Os pesquisadores avaliaram o sucesso do tratamento, a mortalidade e a duração da antibioticoterapia. O artigo Piperacillin-tazobactam versus cefepime monotherapy in pediatric patients with febrile neutropenia: a systematic review and meta-analysis foi publicado no European Journal of Pediatrics.
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Como os estudos foram selecionados?
Os pesquisadores seguiram as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Embase, Scopus, Web of Science e Cochrane CENTRAL até 3 de fevereiro de 2026, sem limite inicial de data.
Foram incluídos ensaios clínicos randomizados ou estudos de coorte que avaliassem pacientes pediátricos com NF tratados com piperacilina-tazobactam, em comparação com a monoterapia com cefepime.
Os estudos foram agrupados para a síntese dos seguintes desfechos clínicos:
- sucesso do tratamento;
- mortalidade;
- duração do tratamento.
Quais estudos fizeram parte da metanálise?
Foram identificados 397 estudos. Após a triagem de 286 títulos e 51 resumos, 27 artigos foram avaliados na íntegra quanto à elegibilidade.
Ao final, cinco ensaios clínicos randomizados, envolvendo 470 episódios de NF, foram incluídos. Os principais motivos de exclusão foram o uso de esquemas que não correspondiam à monoterapia, a inclusão de populações não pediátricas e a ausência de dados estratificados por grupo de tratamento.
As neoplasias subjacentes avaliadas nos cinco estudos incluíram:
- leucemia linfoblástica aguda;
- leucemia mieloide aguda;
- linfoma não Hodgkin;
- hepatoblastoma;
- neuroblastoma;
- osteossarcoma;
- rabdomiossarcoma;
- retinoblastoma;
- sarcoma de Ewing;
- tumores de células germinativas;
- tumor de Wilms.
Piperacilina-tazobactam e cefepime apresentaram resultados semelhantes?
A análise combinada não mostrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto ao sucesso do tratamento: razão de riscos (RR) de 1,02; intervalo de confiança de 95% (IC 95%): 0,89–1,18; P = 0,76. A heterogeneidade foi baixa, com I² de 0%.
Também não foram observadas diferenças estatisticamente significativas quanto à mortalidade: RR de 2,09; IC 95%: 0,62–7,03; P = 0,23; I² de 0%.
A duração do tratamento foi 0,9 dia menor no grupo que recebeu cefepime, com diferença de médias de 0,9 dia; IC 95%: 0,2–1,6; P < 0,1; I² de 0%.
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Como interpretar os achados?
Em pacientes pediátricos com NF, não foi observada diferença estatisticamente significativa no sucesso do tratamento ou na mortalidade entre piperacilina-tazobactam e cefepime.
Os pacientes que receberam cefepime apresentaram duração do tratamento 0,9 dia menor em comparação àqueles tratados com piperacilina-tazobactam. Entretanto, os pesquisadores destacaram que esse resultado foi fortemente influenciado por um único estudo predominante e deve ser interpretado com cautela.
De modo geral, as evidências disponíveis permanecem limitadas e não permitem estabelecer equivalência entre os dois regimes. Portanto, são necessários mais ensaios clínicos randomizados e controlados para avaliar possíveis diferenças no sucesso do tratamento, na mortalidade e na duração da antibioticoterapia.
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Mensagem prática
Na prática, o pediatra deve considerar o perfil clínico do paciente, o antibiograma, o risco de infecção por anaeróbios e os efeitos adversos esperados. Com base nos estudos incluídos na metanálise, não foi demonstrada superioridade de um dos antibióticos quanto ao sucesso do tratamento ou à mortalidade.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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