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Pediatria14 junho 2020

O temperamento da criança influencia em seus hábitos alimentares?

Segundo um estudo publicado no jornal Appetite, o temperamento está envolvido na etiologia do comportamento alimentar das crianças.

Por Roberta Castro

Segundo o estudo Temperament as a predictor of eating behavior in middle childhood – A fixed effects approach, publicado no jornal Appetite, o temperamento está envolvido na etiologia do comportamento alimentar das crianças.

Steinsbekk e colaboradores, pesquisadores responsáveis pelo estudo, basearam-se na hipótese de que diferenças individuais de temperamento influenciam o desenvolvimento do comportamento alimentar das crianças.

Essa teoria já havia sido testada predominantemente em desenhos transversais. No entanto, fatores de confusão importantes, como genética e fatores parentais estáveis, não foram considerados. Dessa forma, os pesquisadores planejaram estabelecer, de uma forma mais clara, se o temperamento está envolvido na etiologia do comportamento alimentar na primeira infância.

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menino comendo chocolate e se sujando de acordo com temperamento e hábitos alimentares

Temperamento e hábitos alimentares

Os pesquisadores citam o modelo psicobiológico de Rothbart, que engloba três dimensões temperamentais abrangentes: (1) afetividade negativa, caracterizada por instabilidade do humor, irritabilidade e emoções negativas desreguladas; (2) Esforço de controle, definido como a capacidade de inibir uma resposta dominante (por exemplo, comer um pouco de chocolate) para executar uma resposta menos saliente (como evitar comer o chocolate), isto é, um processo de autorregulação ou controle; (3) Extroversão, que diz respeito à abordagem e ao nível de atividade da criança. Cada uma dessas dimensões temperamentais tem sido associada a vários tipos de alimentação na infância.

Um total de 802 crianças habitantes de Trondheim, Noruega, com idades de 4, 6, 8 e 10 anos participaram do estudo. Os pesquisadores perguntaram aos pais sobre os hábitos alimentares e o temperamento dos filhos, avaliando se o temperamento poderia prever como os hábitos alimentares evoluíram. A afetividade temperamental negativa, o esforço de controle e a extroversão foram medidos pelo The Child Behavior Questionnaire (CBQ).

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O Children’s Eating Behavior Questionnaire (CEBQ) capturou quatro comportamentos de ‘abordagem alimentar’ (‘responsividade alimentar’, ‘prazer de comer’, ‘excessos emocionais’, ‘desejo de beber’) e quatro comportamentos ‘evitadores de alimentos’ (‘suborno emocional’ , ‘capacidade de resposta à saciedade’, ‘agitação alimentar’, ‘lentidão na alimentação’).

Resultados

Steinsbekk e equipe descobriram que uma maior afetividade negativa previa níveis mais altos de capacidade de resposta aos alimentos, excessos emocionais, subalimentação emocional, capacidade de resposta à saciedade, agitação alimentar, lentidão na comida e desejo de beber. Um esforço de controle menor previu mais agitação, capacidade de resposta alimentar, excessos emocionais e desejo de beber, enquanto um controle de esforço maior previu mais prazer com a comida e lentidão na alimentação, embora não de forma consistente em todos os momentos.

Níveis mais altos de extroversão foram prospectivamente associados a um maior aproveitamento da comida e capacidade de resposta aos alimentos, bem como menor capacidade de resposta à saciedade, agitação e lentidão na comida, mas, novamente, não de forma consistente em todos os momentos.

Os pesquisadores concluíram que o temperamento está envolvido na etiologia do comportamento alimentar, e dimensões temperamentais específicas provavelmente influenciam comportamentos alimentares específicos. Dessa forma, aumentar a conscientização entre os cuidadores de que alguns comportamentos alimentares estão associados a um risco maior de excesso de peso e problemas nutricionais pode ajudar os cuidadores de crianças altamente negativas afetivamente a estarem cientes de como as práticas de alimentação afetam o comportamento nutritivo das crianças em desenvolvimento e usar esse conhecimento para promover uma dieta saudável para seus filhos.

Referências bibliográficas:

  • STEINSBEKK, Silje et al. Temperament as a predictor of eating behavior in middle childhood – A fixed effects approach. Appetite, v.150, 104640, 2020

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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