Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria15 outubro 2026

Nova revisão sistemática compara mel a antitussígenos na tosse aguda pediátrica

Mel pode ser alternativa aos antitussígenos na tosse aguda pediátrica? Metanálise de ECRs com 576 crianças compara eficácia, sono e segurança.
Por Jôbert Neves

A tosse aguda é um dos motivos mais frequentes de consulta em pediatria e continua sendo uma importante causa de prescrição de medicamentos para alívio sintomático. Apesar do uso disseminado de antitussígenos, anti-histamínicos e outros medicamentos vendidos sem prescrição, as evidências que sustentam sua eficácia permanecem limitadas, enquanto as preocupações relacionadas à segurança persistem. Nesse contexto, uma nova revisão sistemática com metanálise, publicada no European Journal of Pediatrics, avaliou a eficácia do mel em comparação com tratamentos farmacológicos em crianças com tosse aguda.

Antitussígenos vs mel na tosse aguda pediátrica

Antitussígenos vs mel na tosse aguda pediátrica

A metanálise comparou o mel a antitussígenos em crianças

Os autores realizaram uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados que compararam o mel com medicamentos utilizados no tratamento da tosse aguda em crianças maiores de um ano. Foram incluídos sete estudos na revisão sistemática e seis na metanálise, totalizando 576 pacientes. Entre os comparadores avaliados estavam dextrometorfano, difenidramina, levodropropizina e salbutamol.

Os desfechos analisados incluíram frequência da tosse, gravidade dos sintomas, impacto sobre o sono da criança e dos cuidadores, incômodo causado pela tosse e escores globais de sintomas.

Na análise principal, o mel apresentou desempenho comparável ao dos tratamentos farmacológicos na maioria dos desfechos avaliados. Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas em frequência da tosse, gravidade dos sintomas, incômodo causado pela tosse ou impacto sobre o sono dos cuidadores.

Entretanto, houve benefício significativo em um desfecho relevante na prática clínica: a qualidade do sono das crianças. O mel proporcionou melhora superior à dos medicamentos avaliados (MD −0,73; IC95% −1,45 a −0,01; p=0,05).

Análise de sensibilidade exploratória favorece o mel frente aos antitussígenos

Os autores identificaram heterogeneidade importante entre os estudos incluídos. Após uma análise de sensibilidade que removeu o principal estudo responsável por essa variabilidade, os resultados passaram a favorecer consistentemente o mel.

Nessa análise, o mel demonstrou melhora significativa em:

  • frequência da tosse;
  • gravidade da tosse;
  • incômodo relacionado aos sintomas;
  • qualidade do sono da criança;
  • qualidade do sono dos cuidadores;
  • escore global de sintomas.

Os autores ressaltam, porém, que esses achados devem ser considerados geradores de hipótese, pois derivam de análises pós-hoc e de estudos com qualidade metodológica limitada. Por isso, não devem ser extrapolados para a prática clínica.

Eventos adversos dos antitussígenos e recomendações de NICE e AAP sobre o mel

As conclusões são consistentes com recomendações já adotadas por organizações como o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e a American Academy of Pediatrics (AAP), que sugerem o mel como opção para o alívio sintomático da tosse aguda em crianças com mais de um ano de idade.

Além disso, o estudo reforça um aspecto importante para o pediatra: diversos medicamentos utilizados para tosse apresentam eficácia questionável e podem estar associados a eventos adversos potencialmente graves, incluindo sedação excessiva, depressão respiratória e intoxicações acidentais.

Mel age como demulcente e reduz o estímulo dos receptores da tosse

Os autores discutem diferentes mecanismos potenciais para explicar os benefícios observados. O mel atua como agente demulcente, formando uma película sobre a mucosa da orofaringe e reduzindo o estímulo dos receptores da tosse. Além disso, apresenta propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, o que pode contribuir para o alívio sintomático das infecções respiratórias virais.

Outro aspecto interessante é a presença de serotonina, melatonina e seus precursores em algumas variedades de mel, hipótese que pode ajudar a explicar o impacto positivo observado sobre o sono das crianças.

Se a criança não tem contraindicação, a dose de mel varia conforme a idade

Embora não exista uma posologia universalmente padronizada, os ensaios clínicos incluídos na metanálise utilizaram doses de mel entre 2,5 mL e 10 mL, geralmente administradas cerca de 30 minutos antes de dormir. Na prática, as doses mais frequentemente empregadas foram de 2,5 mL para crianças menores, 5 mL para escolares e até 10 mL para adolescentes.

A certeza global das evidências foi considerada baixa a muito baixa. Ainda assim, a metanálise não identificou qualquer evidência de superioridade dos medicamentos em relação ao mel. Pelo contrário, os resultados sugerem que o mel pode ser uma alternativa de baixo custo e amplamente disponível. Portanto, essa alternativa é potencialmente tão eficaz quanto os antitussígenos mais prescritos para crianças maiores de um ano.

Diante do caráter autolimitado da maioria das infecções respiratórias virais e das preocupações relacionadas ao uso de medicamentos para tosse em pediatria, o estudo reforça uma mensagem prática: para muitas crianças, o mel pode ser uma opção razoável para alívio sintomático, desde que respeitada a contraindicação em menores de um ano, devido ao risco de botulismo infantil.

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria