Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em Lille, França, um dos temas centrais foi a dificuldade em organizar, na prática, o uso de terapias avançadas na doença de Crohn pediátrica.
Apesar do avanço do arsenal terapêutico, a realidade do consultório ainda envolve dúvidas fundamentais: quando iniciar biológico, qual droga escolher, como acompanhar a resposta e, principalmente, como agir diante de falha.
Estratificação de risco orienta a intensidade inicial do tratamento
As diretrizes mais recentes de ECCO/ESPGHAN reforçam que o primeiro passo deve ser a estratificação de risco no momento do diagnóstico.
A partir da avaliação do fenótipo da doença e de fatores associados à pior evolução, os pacientes são divididos em baixo ou alto risco. Essa classificação define diretamente a intensidade do tratamento inicial.
Pacientes de baixo risco podem iniciar com estratégias mais conservadoras, enquanto aqueles de alto risco devem ser considerados para terapia avançada precoce, especialmente com anti-TNF, com ou sem imunomodulador.
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Janela de oportunidade foi um dos conceitos discutidos
Um dos conceitos mais consistentes reforçados durante o congresso foi a existência de uma “janela de oportunidade” na doença de Crohn.
Pacientes tratados mais precocemente apresentam maior chance de resposta e remissão, enquanto o atraso terapêutico está associado a menor eficácia e maior progressão estrutural da doença.
Acesso às novas terapias segue como limitação prática
Apesar do avanço científico, um desafio relevante permanece: o atraso na aprovação de terapias na população pediátrica.
Enquanto anti-TNF já está bem estabelecido, outras classes como ustekinumabe, vedolizumabe, inibidores de JAK e anti-IL-23 frequentemente levam anos até estarem disponíveis para crianças.
Na prática, isso mantém o anti-TNF como base do tratamento na pediatria, especialmente em países com limitações de acesso, como o Brasil.
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Anti-TNF permanece como base em muitos cenários pediátricos
Apesar da ampliação das opções terapêuticas, não existe uma única droga ideal para todos os pacientes.
Estudos comparativos mostram eficácia semelhante entre diferentes classes em alguns cenários, incluindo comparações entre anti-TNF e ustekinumabe em pacientes virgens de biológico.
Ainda assim, o anti-TNF mantém algumas vantagens práticas importantes:
- Início de ação mais rápido;
- Maior experiência em pediatria;
- Melhor evidência em doença perianal.
Isso faz com que, na prática, continue sendo a principal escolha inicial na maioria dos casos.
Novas classes ampliam opções após falha ou intolerância
Novas classes terapêuticas ampliam as opções, especialmente em linhas subsequentes de tratamento.
Ustekinumabe, anti-IL-23, vedolizumabe e inibidores de JAK passam a ser considerados principalmente após falha ou intolerância ao anti-TNF.
Essa expansão aumenta a complexidade da decisão, exigindo maior entendimento dos mecanismos envolvidos.
Monitorização terapêutica ganha papel estratégico
A monitorização terapêutica de fármacos assume papel central nesse novo cenário.
Mais do que reagir à falha, o TDM passa a ser utilizado de forma proativa, com o objetivo de garantir exposição adequada ao tratamento e prevenir perda de resposta. Isso inclui evitar níveis subterapêuticos e reduzir o risco de formação de anticorpos antidroga.
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Indução concentra momento crítico para otimização
O período de indução foi destacado como o momento mais importante para intervenção. Níveis adequados nesse estágio inicial estão diretamente associados a melhores desfechos a longo prazo, incluindo remissão sustentada e cicatrização mucosa.
Níveis terapêuticos podem orientar ajustes mais precoces
Embora os níveis-alvo variem conforme a droga e o momento do tratamento, a tendência atual aponta para a necessidade de níveis mais elevados nas fases iniciais.
Na prática, isso significa ajustar a dose mais precocemente e evitar exposição inadequada prolongada. Mesmo em cenários sem acesso amplo ao TDM, esse racional orienta decisões clínicas mais assertivas.
Realidade brasileira exige adaptação das decisões
No cenário brasileiro, essas recomendações precisam ser adaptadas à realidade de acesso.
O anti-TNF permanece como principal opção terapêutica, o que torna fundamental:
- Identificar precocemente pacientes de alto risco;
- Otimizar o uso das terapias disponíveis;
- Evitar inércia terapêutica.
A limitação no acesso a TDM e novas drogas reforça a importância da avaliação clínica estruturada e da tomada de decisão mais precoce.
Mensagem prática para o manejo ao longo do tempo
O ESPGHAN 2026 reforça uma mudança clara no manejo da doença de Crohn pediátrica.
O foco deixa de ser apenas a escolha da droga e passa a ser a construção de uma estratégia ao longo do tempo.
Três pilares se destacam:
- Tratar precocemente;
- Individualizar a decisão;
- Otimizar o tratamento de forma ativa.
Na prática, o desafio não é apenas escolher o melhor medicamento, mas definir quando iniciar, como acompanhar e quando ajustar, garantindo o melhor desfecho possível dentro da realidade de cada paciente.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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