Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026, em Lille, França, foram apresentados dados observacionais robustos sobre o impacto do uso de probióticos em prematuros muito pequenos. A análise foi conduzida por um pesquisador com atuação em neonatologia e epidemiologia perinatal, vinculado ao Tours University Hospital e ao INSERM, com colaboração do Karolinska Institutet.
O estudo avaliou uma coorte nacional de 4.695 recém-nascidos pré-termo acompanhados entre 2017 e 2024, explorando o efeito da implementação de uma recomendação nacional que passou a incorporar probióticos como padrão de cuidado a partir de 2020.

Coorte nacional avaliou prematuros muito pequenos
Os resultados mostraram associação consistente entre o uso de probióticos e a redução de desfechos clínicos relevantes.
- Observou-se menor mortalidade entre os pacientes expostos e redução nas taxas de enterocolite necrosante, especialmente nas formas mais graves.
- Um dos achados mais marcantes foi a expressiva redução da enterocolite necrosante cirúrgica, com apenas 1 caso no grupo que recebeu probióticos em comparação com 40 casos no grupo sem probióticos, o que corresponde a 0,1% versus 1,3%.
Esse dado sugere não apenas redução de incidência, mas também impacto na gravidade da doença.
Saiba mais: Prematuridade – Avanços e perspectivas no manejo da Enterocolite Necrosante
Segurança foi ponto central na análise apresentada
A segurança é um ponto central quando se discute o uso de probióticos em neonatologia, especialmente em pacientes de alto risco. Neste estudo, as taxas de sepse permaneceram estáveis ao redor de 3% ao longo do período avaliado, independentemente do uso de probióticos. Além disso, não foram identificados casos de sepse atribuídos aos microrganismos utilizados, mesmo entre mais de 1.500 recém-nascidos expostos.
Limites do estudo exigem cautela na interpretação
Os dados apresentados representam evidência de mundo real em larga escala e refletem o impacto da implementação de uma política nacional baseada em diretrizes científicas.
A consistência com estudos prévios e metanálises fortalece a associação entre probióticos e redução de enterocolite necrosante. No entanto, trata-se de um estudo observacional, o que implica risco de fatores de confusão não mensurados, mesmo diante da boa comparabilidade entre grupos.
Outro ponto relevante é o uso de formulações específicas de probióticos, com cepas definidas, o que limita a extrapolação para produtos diferentes.
Saiba mais: Ensaio avaliou os efeitos de simbióticos na enterocolite necrosante em neonatos
O que esses dados acrescentam à prática?
O estudo reforça o papel dos probióticos como uma das poucas intervenções com potencial real de modificar desfechos relevantes em prematuros extremos, especialmente na prevenção de enterocolite necrosante grave.
A magnitude do efeito observado, particularmente na redução de casos cirúrgicos, é clinicamente relevante e dialoga diretamente com a prática em unidades neonatais.
Discussão institucional no contexto brasileiro
No Brasil, o uso de probióticos em prematuros ainda não é uniforme e frequentemente esbarra em questões como padronização de cepas, qualidade dos produtos disponíveis e segurança regulatória.
A experiência sueca mostra que, quando há implementação estruturada, com definição clara de protocolos e produtos, é possível obter benefícios significativos sem aumento de eventos adversos.
Esse ponto é central para a discussão institucional, mais do que individual, e reforça a necessidade de protocolos bem definidos.
Saiba mais: Probióticos na prática: como interpretar diretrizes divergentes
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.