A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença crônica que exige acompanhamento prolongado. Na prática, uma dúvida frequente é se é necessário realizar endoscopias de rotina em pacientes assintomáticos, especialmente em pediatria, contexto em que o exame envolve sedação, custo e impacto para a família.
Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026, em Lille, França, a discussão foi além da frequência dos exames e focou no essencial: o que realmente muda o desfecho do paciente.
As recomendações atuais não indicam vigilância endoscópica universal. O seguimento deve ser individualizado, baseado em resposta ao tratamento, risco e contexto clínico. Essa mudança reflete a transição de um modelo protocolar para uma abordagem mais estratégica.
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Sintomas isolados não definem atividade da doença
A EoE apresenta dissociação entre sintomas e inflamação. Pacientes podem ter doença ativa sem sintomas e, ao mesmo tempo, persistir sintomáticos mesmo em remissão histológica. Isso limita tanto o uso de sintomas isoladamente quanto o valor da endoscopia como única ferramenta de acompanhamento.
Vigilância endoscópica muda desfechos na EoE pediátrica?
Os dados apresentados mostram que a monitorização mais próxima permite detectar recidiva mais cedo, mas não se traduz em melhora consistente de desfechos clínicos ou prevenção de estenoses. Ou seja, fazer mais endoscopia não necessariamente muda a evolução da doença.
Dois fatores se destacam como determinantes de desfecho: diagnóstico precoce, evitando tempo prolongado de inflamação não tratada, e adesão ao tratamento, que reduz significativamente o risco de recaída. Na prática, manter tratamento de manutenção é mais relevante do que intensificar a vigilância.
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Peso clínico, emocional e logístico da endoscopia
A endoscopia não é neutra. Além dos riscos do procedimento, há exposição repetida à anestesia, custo, impacto emocional e ansiedade associada ao exame. Em crianças, esse peso é ainda mais relevante.
O caminho atual é a monitorização individualizada e menos invasiva. Técnicas como endoscopia transnasal, esophageal string test e cytosponge mostram potencial, embora ainda com limitações. Biomarcadores também são promissores, mas ainda não substituem a biópsia. Ferramentas como EndoFLIP podem ajudar a identificar pacientes com maior risco e guiar melhor o seguimento.
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Seguimento individualizado ganha espaço na prática
A mudança principal é de estratégia. O acompanhamento deixa de seguir um calendário fixo e passa a ser guiado por: risco individual, adesão ao tratamento, controle da doença e impacto na qualidade de vida.
No Brasil, essa abordagem é especialmente relevante. A endoscopia pediátrica envolve custo e logística, e reduzir exames desnecessários traz benefício direto. Por outro lado, garantir adesão ao tratamento permanece um desafio central.
Mensagem prática
O ESPGHAN 2026 traz uma mudança clara: mais importante do que repetir endoscopia é tratar bem e garantir adesão. Na prática, a endoscopia continua importante, mas deve ser usada de forma direcionada e individualizada, e não automática.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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