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Pediatria25 junho 2026

ESPGHAN 2026: imunoterapia oral e esofagite eosinofílica 

Sessão abordou sintomas gastrointestinais e suspeita de esofagite eosinofílica durante a imunoterapia oral.
Por Jôbert Neves

Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026, em Lille, França, ganhou destaque a discussão sobre a relação entre imunoterapia oral e esofagite eosinofílica. 

A alergia alimentar mediada por IgE afeta cerca de 4% da população, com impacto importante na qualidade de vida, incluindo restrições sociais, vigilância constante e ansiedade para pacientes e famílias. Nesse cenário, a imunoterapia oral se consolida como uma estratégia para dessensibilização, com potencial de reduzir o risco de reações graves. 

Saiba mais: Imunoterapia oral para alergia à proteína do leite de vaca em crianças 

Como interpretar sintomas gastrointestinais durante a terapia? 

As manifestações gastrointestinais durante a imunoterapia oral devem ser entendidas como parte de um espectro. 

Podem ocorrer reações imediatas associadas à dose, como vômitos, náuseas e dor abdominal. Também são descritos sintomas tardios, muitas vezes transitórios e reversíveis. Em um terceiro grupo estão as manifestações persistentes, que incluem a esofagite eosinofílica. Essa diferenciação é essencial para interpretar corretamente a evolução do paciente. 

Saiba mais: Esofagite Eosinofílica: como identificar e tratar 

Quando a esofagite eosinofílica costuma aparecer? 

A esofagite eosinofílica associada à imunoterapia ocorre em uma proporção minoritária dos casos, mas com frequência clinicamente relevante. 

A prevalência global gira entre 1,8% e 2,3%, com variações dependendo do alimento. Os casos tendem a surgir mais frequentemente na fase de manutenção, com tempo mediano de cerca de 25 meses após o início do tratamento. Esse padrão tardio reforça a necessidade de monitoramento prolongado. 

Doença induzida ou desmascarada? 

A relação entre imunoterapia oral e esofagite eosinofílica não é necessariamente causal direta. 

Parte dos pacientes já apresenta inflamação esofágica prévia, muitas vezes subclínica. Em outros casos, a exposição repetida ao antígeno atua como gatilho em indivíduos suscetíveis. Esse modelo explica por que alguns pacientes melhoram após ajustes na terapia, enquanto outros evoluem com doença persistente. 

O paradoxo imunológico na imunoterapia oral 

A imunoterapia oral reduz a resposta alérgica sistêmica, com diminuição da atividade Th2 e da IgE. No entanto, pode ocorrer aumento da resposta inflamatória local no esôfago. 

Esse chamado paradoxo IgE-IgG4 sugere que a dessensibilização sistêmica não necessariamente impede inflamação localizada, especialmente diante de exposição antigênica repetida. 

Sinais de alerta que exigem investigação 

Na rotina clínica, a atenção deve se voltar para sintomas persistentes. 

Disfagia, vômitos recorrentes, dor retroesternal, recusa alimentar ou falha de crescimento não devem ser considerados apenas efeitos esperados da terapia. Esses sinais exigem investigação. 

Como conduzir pacientes com suspeita de esofagite eosinofílica? 

Diante da suspeita de esofagite eosinofílica, a endoscopia com biópsias é necessária para confirmação. 

A decisão sobre manter ou interromper a imunoterapia deve ser individualizada. Em alguns casos, é possível tratar a esofagite e manter o protocolo. Em outros, a suspensão da terapia é a melhor opção. 

Saiba mais: ESPGHAN 2025: Dietas de eliminação na esofagite eosinofílica 

Decisão compartilhada no manejo 

Um dos pontos mais enfatizados foi o papel da decisão compartilhada. 

A escolha entre interromper ou manter a imunoterapia envolve trade-offs claros. A interrupção pode significar retorno ao risco de reações alérgicas mediadas por IgE. A continuidade pode exigir tratamento crônico da esofagite eosinofílica. 

Esse equilíbrio deve ser discutido com a família, levando em conta riscos, benefícios, expectativas e impacto na qualidade de vida. O alinhamento entre equipe, paciente e cuidadores passa a ser central na condução. 

Integração entre alergistas e gastropediatras 

Outro ponto crítico é a necessidade de atuação conjunta entre alergistas e gastropediatras. 

O reconhecimento das diferentes manifestações gastrointestinais associadas à imunoterapia e seu manejo adequado dependem dessa integração. A suspensão da imunoterapia não é obrigatória em todos os casos, reforçando a importância de avaliação individualizada. 

O que muda na prática clínica 

A principal mudança é incorporar monitoramento ativo e estruturado. 

Os sintomas devem ser interpretados dentro de um espectro clínico, e não de forma isolada. Além disso, a possibilidade de doença pré-existente deve ser considerada desde o início. A decisão terapêutica deixa de ser binária e passa a ser ajustada caso a caso. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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