Com o uso cada vez mais precoce e eficaz das terapias avançadas, um número crescente de pacientes pediátricos com doença de Crohn atinge remissão sustentada. Nesse cenário, a pergunta no consultório deixa de ser apenas como tratar e passa a ser por quanto tempo manter o tratamento.
A possibilidade de desintensificar a terapia surge como alternativa atrativa, principalmente para reduzir exposição medicamentosa, custos e impacto no dia a dia. No entanto, o risco de recaída, especialmente após a retirada de biológicos, continua sendo a principal limitação dessa estratégia.
Durante o ESPGHAN 2026, esse tema foi discutido em profundidade em uma aula dedicada às estratégias de retirada terapêutica, trazendo uma abordagem prática sobre quando, como e em quem considerar a desintensificação.
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Por onde começar a desintensificação terapêutica
A evidência disponível aponta para uma estratégia sequencial. Em pacientes em terapia combinada, a retirada inicial do imunomodulador representa a abordagem mais segura, mantendo o biológico como principal responsável pela sustentação da remissão.
Parar anti-TNF: o ponto de maior risco
A retirada do biológico permanece como a decisão mais crítica. Estudos apresentados mostram taxas de recaída próximas de 40% a 50% em até dois anos após a suspensão do anti-TNF, mesmo em pacientes previamente em remissão.
Outro aspecto relevante é que a reintrodução da terapia não garante o mesmo nível de resposta. A formação de anticorpos, a necessidade de intensificação e, em alguns casos, a troca de classe são eventos possíveis após a suspensão.
O papel da imunogenicidade
A retirada do imunomodulador, embora geralmente bem tolerada no curto prazo, pode impactar a farmacocinética do anti-TNF. A monoterapia está associada a maior risco de formação de anticorpos antidroga e, consequentemente, à perda de resposta ao longo do tempo.
Reduzir sem interromper: uma estratégia intermediária
Um dos principais conceitos reforçados na aula foi que desintensificar não significa necessariamente suspender o tratamento. Estratégias como o aumento do intervalo entre doses ou a redução gradual da intensidade terapêutica representam alternativas mais seguras à suspensão completa.
A escolha do paciente é determinante. A desintensificação deve ser evitada em pacientes com qualquer evidência de atividade da doença, incluindo sintomas, elevação de marcadores inflamatórios ou remissão instável.
História de doença mais agressiva, uso recente de corticoide e ausência de remissão sustentada também são fatores que aumentam o risco de recaída e devem pesar na decisão.
O que acontece em caso de recaída?
Dados apresentados indicam que cerca de 88% dos pacientes com doença de Crohn respondem à reintrodução do tratamento após recaída. No entanto, essa resposta nem sempre reproduz a eficácia inicial, podendo exigir otimização de dose ou mudança de classe terapêutica.
Monitorização após a desintensificação
O acompanhamento após a redução do tratamento é fundamental. A calprotectina fecal se destaca como o marcador mais sensível para a detecção precoce de recaída, frequentemente elevando-se antes do surgimento de sintomas.
A proteína C reativa pode ser utilizada como complemento, embora tenha menor sensibilidade isoladamente. Importante ressaltar que a avaliação baseada apenas em sintomas é insuficiente, já que a atividade inflamatória pode preceder a manifestação clínica.
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Aplicabilidade no Brasil
No contexto brasileiro, a decisão de desintensificar o tratamento é ainda mais sensível. A limitação de acesso a biológicos e a dificuldade de reintrodução em caso de perda de resposta fazem com que o impacto de uma recaída seja potencialmente maior.
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Mensagem prática para a assistência pediátrica
A aula do ESPGHAN 2026 reforça que a desintensificação do tratamento na doença de Crohn pediátrica é possível, mas exige estratégia e seleção rigorosa dos pacientes.
Mais do que decidir quando reduzir, o desafio está em identificar quem realmente pode se beneficiar, escolher a abordagem mais segura e monitorar de forma adequada após a mudança.
Na prática, reduzir o tratamento não deve ser um evento abrupto, mas sim um processo gradual, com o objetivo de manter a remissão sustentada com a menor exposição terapêutica possível.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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