A calprotectina fecal (CF) é uma proteína heterodímera derivada do citoplasma de neutrófilos que atua como marcador de inflamação intestinal.
A principal utilidade clínica reside no auxílio à distinção entre doenças inflamatórias intestinais (DII) e distúrbios funcionais do trato gastrointestinal, além de monitoramento de atividade inflamatória de DII, situação em que o aumento costumeiramente precede a eclosão de sintomas.
Trata-se de um teste não invasivo, dotado de boa sensibilidade e valor preditivo negativo, características que a tornam uma boa ferramenta de triagem diante de sintomas gastrointestinais crônicos, afunilando as indicações de colonoscopia.
Como interpretar?
CF em valores inferiores a 50 µg/g estão associados a baixa probabilidade de inflamação intestinal significativa (sensibilidade: 81-88%; especificidade: 80-87%), sendo compatíveis com transtornos funcionais. É um dado que, analisado de forma contextual, reforça a segurança de não prosseguir com ileocolonoscopia.
Já valores entre 50 e 250 µg/g configuram uma zona intermediária, na qual o teste perde poder discriminativo. Nesse intervalo, a recomendação mais consistente é revisar fatores confundidores (medicações, infecções recentes) e repetir o exame após 4-6 semanas. A persistência da elevação ou piora clínica geralmente justifica investigação endoscópica adicional.
Por outro lado, níveis acima de 250 µg/g aumentam substancialmente a probabilidade de inflamação intestinal, especialmente DII ativa, enquanto valores superiores a 500 µg/g agregam especificidade.
Cuidado!
Na prática clínica, o melhor rendimento é no cenário ambulatorial, especialmente em pacientes com sintomas gastrointestinais inespecíficos, quando uma CF praticamente afasta doença inflamatória significativa.
Por outro lado, valores elevados devem direcionar investigação endoscópica com biópsias seriadas, especialmente na presença de sinais de alarme como perda ponderal, anemia ou sangramento digestivo. Assumir que calprotectina elevada equivale a DII é um erro conceitual frequente. Portanto, reforça-se que é um marcador inespecífico de inflamação intestinal, sobretudo colônica, e o seu incremento pode estar atrelado a:
- Infecções gastrointestinais (bacterianas, virais e parasitárias, exemplificadas por Yersinia, Salmonella e Campylobacter e CMV);
- Uso de medicamentos como AINEs (odds ratio 2,41), AAS (OR 2,93) e IBPs (OR 3,84);
- Neoplasias colorretais;
- Doença hepática crônica avançada;
- Colite microscópica;
- Idade > 65 anos;
- Diverticulite.
As variáveis pré-analíticas também são relevantes. Recomenda-se a coleta da primeira amostra matinal e refrigeração a 4°C até a entrega no laboratório. É esperado decaimento dos níveis em 12% em 24h; estabilidade em 7 dias de armazenamento da amostra; e nova queda, de até 28%, após esse período. Há também variação individual esperada para coletas próximas, sendo considerada variação significativa somente aquelas superiores a 100%.
Mensagens práticas
- Calprotectina baixa praticamente exclui inflamação intestinal significativa em cenários de baixa probabilidade (sintomas gastrointestinais inespecíficos na ausência de sinais de alarme).
- Valores intermediários exigem reavaliação, cenário em que devemos evitar o automatismo de solicitação de colonoscopia.
- Calprotectina fecal elevada não define etiologia, de forma que devemos sempre considerar diagnósticos alternativos à doença inflamatória intestinal.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.