Em 2021, o departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto realizou um projeto de melhoria da qualidade da enterocolite necrosante (ECN) e os resultados foram publicados nesse mesmo ano. Sabe-se que a hipotermia controlada leve no tratamento de ECN é viável e está associada a uma diminuição em indicações de cirurgia, intestino curto e óbito.
No entanto, aspectos sobre a segurança do resfriamento e como fazer hipotermia terapêutica com baixa tecnologia para prematuros não foram descritos nesse artigo anterior . Assim, essa equipe de Ribeirão lançou um novo artigo descrevendo as etapas e manejos para aplicação da hipotermia em prematuros em locais com poucas tecnologias, apresentando os aspectos de segurança quanto à iniciativa.

Métodos
O projeto de melhoria da qualidade da enterocolite necrosante foi realizado em uma unidade de terapia intensiva num hospital de referência em neonatologia. Para tal artigo, foram selecionados 43 recém-nascidos (RN) prematuros com ECN (estágio de Bell modificado II/III). Desses, 19 no grupo controle (2015–2018) e 24 no grupo hipotermia (2018–2020). O grupo controle recebeu tratamento padrão. O grupo hipotermia recebeu tratamento padrão e foi submetido a resfriamento passivo (35,5°C, utilizado por 48 horas após o diagnóstico de ECN).
Foi descrito como realizar o resfriamento de prematuros usando o servocontrole das incubadoras e a ocorrência e manejo da distermia durante o resfriamento, avaliando parâmetros hematológicos e gasométricos, distúrbios de coagulação, instabilidade clínica e distúrbios neurológicos. A incubadora foi desligada para tal procedimento e foi utilizada sonda esofágica para monitorar a temperatura a cada 15 minutos. Se a temperatura caísse, a incubadora era ligada com uma velocidade de reaquecimento de 0,5°C por hora.
Resultados
O peso médio foi de 1186 gramas e a idade gestacional média foi de 32 semanas. Não houve diferenças entre os índices hematológicos, parâmetros séricos (sódio, potássio, creatinina, lactato e bicarbonato), pH, pCO2 e pO2/FiO2 entre os grupos durante o tratamento e após o reaquecimento.
Não foram observados distermia, bradicardia, instabilidade hemodinâmica, apneia, convulsões, sangramento, hemorragia peri-intraventricular ou qualquer alteração nos parâmetros ventilatórios devido à técnica de resfriamento em prematuros.
Essa técnica simples foi realizada sem intercorrências através de uma avaliação rigorosa da equipe, com uma velocidade de resfriamento alvo de 0,5 °C por hora. A temperatura alvo foi atingida com sucesso entre a segunda e a terceira hora de vida com o controle da incubadora em 21 crianças; sacos de gelo foram usados em apenas três casos. A temperatura foi mantida no nível esperado durante o período de resfriamento programado.
Conclusão
A hipotermia controlada leve para prematuros com enterocolite necrosante é segura e não se associa a efeitos adversos de segurança durante e após o resfriamento. O resfriamento de prematuros poderia ser realizado por meio de métodos passivos, utilizando o servocontrole das incubadoras para gerenciamento da temperatura. Esses bebês apresentaram variação de temperatura aceitável, sem distermia, atingindo e permanecendo na temperatura alvo com velocidade de resfriamento adequada. A temperatura controlada suave para bebês prematuros não precisa de um dispositivo de resfriamento adicional.
Autoria

Larissa Pires Marquite da Silva
Conteudista médico da Afya. Formada pela Unigranrio Afya, com residência médica em Pediatria e especialização em Neonatologia, com mais de 15 anos de experiência em UTI pediátrica e neonatal.
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