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Pediatria20 março 2026

Derrame pleural infantil: diretriz destaca USG e menos radiação

Diretriz recomenda ultrassom como exame inicial no derrame pleural infantil, reduzindo radiação e guiando melhor o manejo.
Por Jôbert Neves

Na pneumonia adquirida na comunidade (PAC) pediátrica, a presença de derrame parapneumônico — seja simples, complicado ou evoluindo para empiema — impacta diretamente a tomada de decisão clínica: observar, puncionar, drenar, fibrinolisar ou indicar cirurgia. Nesse cenário, a caracterização do líquido pleural é decisiva.

Tradicionalmente, a tomografia computadorizada (TC) desempenhou esse papel. No entanto, seu uso envolve exposição à radiação, necessidade eventual de sedação e menor portabilidade. Surge, então, a questão: o ultrassom (US) torácico pode substituir a TC na prática clínica?

Diretriz reposiciona o US como exame preferencial

Em 2026, a Infectious Diseases Society of America (IDSA) e a Pediatric Infectious Diseases Society (PIDS) atualizaram a diretriz de PAC em crianças, incluindo um capítulo específico sobre o uso do ultrassom torácico no derrame parapneumônico.

O documento reposiciona o método como exame preferencial em derrames moderados a grandes. A recomendação baseia-se em revisão sistemática, síntese de acurácia diagnóstica e metodologia GRADE.

Acurácia diagnóstica: alta sensibilidade e especificidade

A diretriz seguiu a metodologia GRADE, com busca abrangente até julho de 2024, incluindo estudos de acurácia em crianças de 3 meses a 18 anos hospitalizadas por PAC com derrame pleural.

O risco de viés foi avaliado pelo QUADAS-2, e a síntese seguiu recomendações da Cochrane para estudos de acurácia diagnóstica. Foram excluídos estudos com adultos e cenários de recursos limitados.

A evidência incluiu dois estudos observacionais que compararam ultrassom e TC em pneumonia complicada com derrame. Em relação à TC, o ultrassom torácico apresentou:

  • Sensibilidade: 0,94 (IC95% 0,87–1,00)
  • Especificidade: 1,00 (IC95% 0,40–1,00)

Apesar da certeza global da evidência ser classificada como muito baixa — devido a risco de viés e amostras pequenas — os resultados são consistentes com o uso do US como método inicial.

Veja também: Nova diretriz publicada IDSA e PIDS aborda a conduta no empiema

Quando indicar TC ou RM no derrame pleural

A principal recomendação da diretriz é clara:
em crianças com evidência radiográfica de derrame moderado a grande, deve-se sugerir o uso de ultrassom torácico em vez de TC ou ressonância magnética (RM) para estimar tamanho e complexidade (recomendação condicional; evidência muito baixa).

Algumas observações importantes:

  • Se o ultrassom estiver indisponível ou for inconclusivo, considerar TC de baixa dose ou RM
  • O uso rotineiro do ultrassom não é recomendado para derrames pequenos

Limitações das evidências e lacunas atuais

O principal valor clínico do ultrassom está na ausência de radiação e na possibilidade de realização à beira-leito — especialmente relevante em crianças instáveis.

Além disso, o método permite monitorização seriada e auxilia no planejamento de intervenções, como drenagem pleural.

No entanto, a diretriz reconhece limitações importantes:

  • Número reduzido de estudos pediátricos
  • Heterogeneidade das populações avaliadas
  • Ausência de subanálises robustas por faixa etária ou tipo de derrame

Ainda assim, a relação entre benefícios e riscos favorece o ultrassom como primeira linha em derrames clinicamente relevantes.

Aplicação prática no atendimento pediátrico

Na prática, a recomendação é objetiva:

  • Priorizar o ultrassom torácico em casos de PAC com derrame moderado ou grande
  • Utilizar o método para avaliar volume, septações e loculações
  • Reservar TC de baixa dose ou RM para casos inconclusivos, indisponibilidade do US ou suspeita de complicações extrapleurais
  • Evitar ultrassom de rotina em derrames pequenos

Além disso, a diretriz reforça a necessidade de organizar fluxos assistenciais que garantam a disponibilidade do ultrassom à beira-leito em serviços de emergência, enfermarias e UTIs, com treinamento adequado das equipes e protocolos compartilhados com a cirurgia pediátrica.

Mensagem prática

No contexto brasileiro, a atualização vai além de uma recomendação técnica: trata-se de um convite à reorganização da lógica diagnóstica.

Reduzir exames com radiação, evitar repetições desnecessárias e abandonar a cultura do raio-X de rotina são passos fundamentais para incorporar o ultrassom como ferramenta central no manejo do derrame parapneumônico pediátrico.

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

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