A constipação funcional continua sendo uma das doenças gastrointestinais mais frequentes na infância, afetando aproximadamente 10% das crianças em todo o mundo e gerando impacto importante na qualidade de vida, no bem-estar emocional e na utilização dos serviços de saúde. Em 2026, a ESPGHAN e a NASPGHAN, sociedades europeia e norte-americana de gastroenterologia, hepatologia e nutrição pediátricas, publicaram uma atualização conjunta das diretrizes de tratamento, incorporando evidências de 102 estudos randomizados e estabelecendo recomendações baseadas na metodologia GRADE.

Diagnóstico clínico e critérios de Roma
Embora a nova publicação tenha foco terapêutico, reforça que o diagnóstico da constipação funcional permanece essencialmente clínico e baseado nos critérios de Roma, com referência aos critérios pediátricos de Roma IV. A maioria dos pacientes não necessita de exames complementares durante a avaliação inicial.
Saiba mais: ESPGHAN 2026: Roma V pediátrico e mudanças na prática clínica
Desimpactação fecal como etapa inicial do tratamento
As diretrizes reforçam que o reconhecimento e o tratamento da impactação fecal são essenciais para o sucesso das etapas subsequentes.
Embora a literatura disponível não tenha permitido a elaboração de recomendações formais baseadas em GRADE, o grupo de especialistas recomenda que:
- o PEG em altas doses seja utilizado como uma das principais estratégias de desimpactação;
- os enemas também possam ser empregados de maneira apropriada;
- outros protocolos locais, incluindo combinações de terapias, possam ser considerados em situações específicas.
PEG permanece como tratamento de primeira escolha
O principal destaque da atualização é a consolidação do polietilenoglicol (PEG) como a única terapia que recebeu recomendação forte para o tratamento da constipação funcional pediátrica.
A análise incluiu 32 estudos com mais de 3.300 pacientes e demonstrou que o PEG apresenta maior taxa de sucesso terapêutico quando comparado ao placebo, à lactulose e ao hidróxido de magnésio.
Além de superior em eficácia, o PEG também apresentou perfil de segurança favorável, sem associação consistente com eventos adversos graves.
As diretrizes reforçam que:
- o PEG continua sendo o tratamento de escolha para manutenção;
- deve ser utilizado em doses adequadas;
- a resposta clínica deve orientar ajustes progressivos;
- a falha terapêutica frequentemente está relacionada à dose insuficiente ou à baixa adesão, e não à ineficácia da medicação.
Saiba mais: Manejo da impactação fecal em crianças: revisão sistemática 2025
Alternativas farmacológicas ao PEG
Hidróxido de magnésio
O hidróxido de magnésio passa a ser sugerido como alternativa terapêutica, especialmente quando existem dificuldades relacionadas ao sabor, ao volume de ingestão ou à disponibilidade do PEG.
Entretanto, os estudos mostram eficácia inferior ao PEG e maior taxa de interrupção por eventos adversos.
Lactulose
Apesar da ausência de evidências robustas suficientes para uma recomendação formal, a lactulose mantém papel relevante na prática clínica, particularmente em lactentes e em cenários nos quais o PEG não pode ser utilizado.
Laxativos estimulantes
Bisacodil, sene e picossulfato de sódio continuam sendo reconhecidos como opções terapêuticas importantes, principalmente como terapia complementar em pacientes que não apresentam resposta adequada ao uso isolado de laxativos osmóticos.
Novas terapias apresentam resultados distintos
Prucaloprida
Apesar dos resultados positivos observados em adultos, os dados pediátricos não demonstraram benefício consistente. Os estudos não identificaram diferenças relevantes em relação ao placebo para sucesso terapêutico ou frequência evacuatória.
Por esse motivo, a diretriz não sugere seu uso rotineiro em crianças com constipação funcional. Seu uso deve ser conduzido pelo especialista, quando aplicável.
Lubiprostona
A lubiprostona também não recebeu recomendação favorável. Os estudos disponíveis apresentaram resultados conflitantes e insuficientes para apoiar seu uso na prática clínica pediátrica.
Linaclotida
A principal novidade farmacológica da diretriz é a linaclotida.
Três estudos envolvendo crianças e adolescentes demonstraram aumento na frequência evacuatória semanal quando comparada ao placebo, com evidências de qualidade moderada.
Dessa forma, a linaclotida é sugerida como opção terapêutica para pacientes entre 6 e 17 anos que não obtiveram resposta adequada às terapias convencionais.
Entretanto, os especialistas recomendam que sua utilização seja reservada a casos refratários e conduzida por gastroenterologistas pediátricos.
Tratamentos não farmacológicos ganham espaço
Outra mudança relevante da atualização é o fortalecimento de algumas intervenções não farmacológicas.
Fisioterapia do assoalho pélvico
A fisioterapia pélvica passa a ser sugerida como terapia complementar, especialmente em crianças com suspeita de dissinergia evacuatória.
Os estudos demonstraram melhora significativa das taxas de sucesso terapêutico quando associada ao manejo convencional.
Estimulação elétrica transcutânea abdominal
A estimulação elétrica transcutânea abdominal associada aos exercícios do assoalho pélvico apresentou resultados promissores, aumentando a frequência evacuatória e a resposta clínica em crianças com constipação funcional.
Estimulação do nervo tibial posterior
A neuromodulação por estimulação percutânea do nervo tibial posterior também mostrou benefícios modestos em estudos controlados, sendo considerada uma alternativa para pacientes refratários.
Dieta e microbiota intestinal no manejo
Algumas intervenções nutricionais receberam recomendações condicionais.
Dieta sem leite de vaca
Em crianças sem resposta adequada ao tratamento convencional e quando houver suspeita de alergia à proteína do leite de vaca, recomenda-se um teste terapêutico de exclusão de leite de vaca por duas a quatro semanas.
Os estudos demonstraram melhora da frequência evacuatória em subgrupos selecionados.
Probióticos e simbióticos
A diretriz não recomenda probióticos de forma genérica.
Entretanto, duas formulações específicas apresentaram resultados favoráveis:
- Mistura contendo Lactobacillus acidophilus, Bifidobacterium longum e Streptococcus thermophilus;
- Simbiótico contendo múltiplas cepas de probióticos associadas a prebióticos.
- Mesmo nesses casos, a qualidade da evidência permanece baixa.
Saiba mais: Fisioterapia na constipação pediátrica: revisão avalia benefícios
Terapias especializadas para casos refratários
Nos casos altamente refratários, as diretrizes reconhecem papel para terapias especializadas.
A irrigação transanal pode ser utilizada quando outras opções não são eficazes ou apropriadas, especialmente em pacientes com impacto importante na qualidade de vida e sintomas associados de incontinência.
Da mesma forma, a aplicação de toxina botulínica no esfíncter anal pode beneficiar pacientes selecionados, particularmente sob cuidados de centros especializados em motilidade gastrointestinal pediátrica.
Cirurgia permanece reservada a situações excepcionais
Os autores reforçam que procedimentos cirúrgicos devem ser considerados apenas em um grupo muito restrito de pacientes.
Antes de qualquer abordagem cirúrgica, é fundamental:
- confirmar refratariedade aos tratamentos convencionais;
- realizar investigação funcional completa;
- discutir riscos e expectativas com a família;
- envolver equipe multidisciplinar especializada.
O que muda na prática clínica?
A atualização de 2026 não revoluciona o tratamento da constipação infantil, mas fortalece conceitos fundamentais e oferece um algoritmo terapêutico mais estruturado.
Os principais pontos para a prática clínica são:
- o PEG permanece como tratamento de primeira linha e é a única recomendação forte;
- a otimização da adesão e da dose deve preceder escalonamentos terapêuticos;
- a linaclotida surge como opção para casos refratários selecionados;
- prucaloprida e lubiprostona não demonstraram benefício consistente em pediatria;
- laxativos estimulantes continuam tendo papel importante como terapia complementar;
- fisioterapia pélvica e algumas modalidades de neuromodulação passam a integrar o manejo de pacientes refratários;
- irrigação transanal, toxina botulínica e cirurgia permanecem reservadas para situações muito específicas.
Mensagem prática da atualização
A atualização ESPGHAN/NASPGHAN 2026 reforça que a evolução do tratamento da constipação funcional pediátrica não está baseada apenas em novas medicações, mas na aplicação consistente de um cuidado estruturado. O reconhecimento da impactação fecal, a utilização adequada do PEG, o monitoramento da adesão e a investigação criteriosa dos casos refratários continuam sendo os pilares para alcançar melhores resultados clínicos.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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