No segundo dia do 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado em São Paulo/SP, de 25 a 28 de março, a sessão “Febre Sem Sinais Localizatórios” trouxe alguns destaques.
A primeira palestra da mesa foi apresentada pelo Dr. Ricardo Iramain (Paraguai), que abordou o tema “Infecções bacterianas invasivas em lactentes febris de 2 a 6 meses de idade”. Em sua apresentação, o palestrante destacou algumas mensagens centrais:
- Regras de predição recentemente desenvolvidas demonstram que a contagem absoluta de neutrófilos (CAN) é um melhor preditor de infecção bacteriana invasiva (IBI) do que a contagem total de leucócitos, seja elevada ou reduzida, na ausência de procalcitonina (PCT), conforme proposto pela ferramenta PECARN para lactentes febris;
- Alguns estudos sugerem que, em lactentes febris com até 90 dias de vida que não apresentam aspecto toxêmico, a leucopenia ≤ 2500 células/µL esteve independentemente associada à IBI na ausência de PCT. Contudo, deve-se ter cautela nessa interpretação, uma vez que a PCT é o marcador que se eleva mais precocemente ao longo do tempo. Na indisponibilidade deste exame, recomenda-se a repetição do hemograma completo e da proteína C reativa (PCR) após 12 horas, considerando que a CAN pode permanecer elevada entre 2 e 12 horas;
- Hemoculturas coletadas em serviços de emergência apresentam maior probabilidade de crescimento de contaminantes do que de patógenos verdadeiros, devendo-se, portanto, interpretar seus resultados com cautela no contexto do pronto-socorro;
- A principal preocupação em lactentes febris com idade entre 2 e 6 meses é a infecção do trato urinário (ITU);
- A prevalência de infecções bacterianas é menor em lactentes febris com teste positivo para vírus respiratórios, com idade entre 61 e 90 dias. Os rinovírus são a causa mais frequente de resfriado comum, e estudos mostram que não houve diferença nas taxas de ITU entre aqueles com teste positivo ou negativo para rinovírus;
- O estudo de Aronson e colaboradores (2025) mostrou que, em lactentes febris com idade entre 61 e 90 dias com vírus respiratórios positivos: ITU ~4,4%; bacteremia ~1%; meningite: extremamente rara (0 no grupo com vírus positivo). Especificamente em relação ao rinovírus, curiosamente, a prevalência de ITU foi maior em lactentes com rinovírus (6,2%) em comparação com outros vírus, como influenza ou VSR;
- Em lactentes febris entre 2 e 6 meses, a temperatura máxima (38,9 ºC) e a análise de urina devem ser considerados como avaliação inicial de rotina. Entretanto, na presença de febre muito elevada e exame de urina normal, a depender da condição clínica e do aspecto geral do paciente, a dosagem de PCT e a avaliação da CAN podem ser consideradas. Nesse grupo etário, deve-se adotar, sempre que possível, uma abordagem menos invasiva na investigação de IBI;
- Por fim, a principal mensagem enfatizada pelo palestrante dirige-se aos pediatras: a qualidade do exame clínico permanece fundamental para a adequada condução do paciente.
Papel do diagnóstico molecular viral e bacteriano
Nesta palestra, o Dr. Javier Gonzalez Del Rey (EUA) destacou que a prática pediátrica atual tem supervalorizado exames e diretrizes em detrimento da avaliação clínica, reforçando que o diagnóstico deve sempre partir de anamnese e exame físico adequados, com aplicação criteriosa de guidelines conforme o contexto local, sazonalidade e cobertura vacinal.
Ele ressaltou que testes virais, embora cada vez mais disponíveis, podem aumentar custos e tempo de atendimento, devendo ser utilizados de forma seletiva, já que a clínica permanece soberana, inclusive para excluir diagnósticos diferenciais relevantes.
Além disso, o palestrante criticou o uso indiscriminado desses exames, muitas vezes impulsionado por mídia e redes sociais, e exemplificou que sua indicação deve ser contextualizada, como no protocolo do Cincinnati Children’s Hospital, onde atua, no qual VSR é usado sobretudo para vigilância, influenza em lactentes jovens, Covid-19 conforme história clínica e painéis multiplex em pacientes internados, encerrando com a reflexão sobre equilibrar minimização de riscos e de testes.
Ele apresentou a mesma palestra em 2023, no 2° Congresso Sul-Americano e 4° Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas – leia mais: EM. PED 2023: Vírus respiratórios e a predição de infecções bacterianas graves
Biomarcadores na doença febril
A última palestra da sessão foi apresentada pelo Dr. Ruud Nijman (Reino Unido), que enfatizou que os biomarcadores podem estratificar a criança em grupos de menor ou maior risco para auxiliar na tomada de decisão clínica e podem oferecer maior segurança na decisão de prescrever antibiótico ou não.
No entanto, os biomarcadores não substituem o julgamento clínico, sendo ferramentas auxiliares para apoiar decisões clínicas. Além disso, realizam estratificação de risco na apresentação ao pronto-socorro, com ou sem escores de gravidade; possibilitam a suspensão precoce de antibióticos se medidas seriadas forem baixas; auxiliam no desescalonamento (de amplo para estreito, de intravenoso para via oral) e, quando persistentemente elevados, indicam necessidade de controle do foco.
Os biomarcadores na doença febril têm sido foco de inúmeros estudos. O Dr. Nijman apresentou um estudo recentemente publicado no Lancet Respiratory Medicine por Todd e colaboradores (2026), o PRONTO Trial, que concluiu que disponibilizar um algoritmo guiado pela PCT na emergência pediátrica não alterou o início da antibioticoterapia intravenosa em 3 horas em pacientes tratados com suspeita de sepse, mas foi observada uma diminuição na mortalidade em 28 dias. Sendo assim, são necessárias mais pesquisas para compreender esse achado.
Live Afya
Acompanhe no dia 30/03, às 19h, a live com os destaques do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 25 e 28 de março em São Paulo/SP.
Link para se inscrever na live: https://io.pedpapers.com.br/blog-cong-mundial-ped-2026
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Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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