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Pediatria23 agosto 2026

Candidíase invasiva em Pediatria: aplicação da nova diretriz brasileira 

Entenda as recomendações brasileiras para diagnóstico, antifúngicos, hemoculturas e profilaxia da candidíase invasiva em crianças

Em julho de 2026, o Comitê de Micologia da Sociedade Brasileira de Infectologia, liderado por Colombo e colaboradores, publicou, na revista Brazilian Journal of Infectious Diseases, a nova diretriz brasileira para o diagnóstico e tratamento da candidíase invasiva em crianças e adultos. O documento foi atualizado com base na literatura científica e contextualizado para a realidade brasileira, com o objetivo de padronizar o tratamento, melhorar o prognóstico e reduzir a mortalidade relacionada à candidíase invasiva. Neste artigo, resumiremos as principais contribuições dessa diretriz para a Pediatria. 

Saiba mais: Candidemia e candidíase invasiva: principais mudanças na diretriz brasileira 

Candidíase invasiva na população pediátrica 

As espécies Candida albicansC. tropicalis e C. parapsilosis podem fazer parte da microbiota normal humana e são os principais patógenos que causam candidíase invasiva nos hospitais terciários em diversos continentes. 

As candidíases invasivas podem ser de dois tipos: 

  1. Fungemia por espécies de Candida, que ocorre principalmente em pacientes com doenças degenerativas e/ou câncer, com internações prolongadas, que necessitam de suporte de terapia intensiva, são expostos a múltiplos procedimentos médicos invasivos e fazem uso de antibioticoterapia de amplo espectro; e 
  2. Candidíase intra-abdominal (CIA), que se apresenta como peritonite fúngica, pancreatite e/ou abscessos intra-abdominais, decorrentes da proliferação excessiva de Candida na cavidade abdominal, geralmente após cirurgia gastrointestinal (GI) complicada, perfuração GI ou pancreatite necrotizante. 

Cabe destacar que menos de 20% dos casos de CIA têm hemocultura positiva e até 40% dos pacientes com peritonite secundária e terciária podem evoluir com CIA. 

Como a diretriz brasileira foi elaborada 

Os autores realizaram um processo estruturado de consenso, no qual formularam questões clínicas usando a estratégia PICO, seguido de buscas sistemáticas na literatura por estudos indexados no PubMed e diretrizes internacionais. As recomendações foram contextualizadas conforme a epidemiologia brasileira, a infraestrutura laboratorial e o acesso a antifúngicos. 

Incidência da candidemia pediátrica no Brasil 

Carecemos de dados nacionais mais robustos, mas os estudos pediátricos brasileiros mais relevantes encontraram taxas de incidência anual de candidemia de 0,88 a 3,2 casos por 1.000 internações pediátricas. 

A incidência global de candidíase neonatal em um dos estudos brasileiros foi de 2,5%, com incidência maior, de 4,4%, entre recém-nascidos com peso extremamente baixo ao nascer (EBPN) e de 2,0% entre aqueles com peso ao nascer ≥ 1.000 g. 

Quais crianças apresentam maior risco de candidemia? 

Os principais fatores de risco neonatais para candidemia são: 

  • Prematuridade; 
  • Baixo peso ao nascer (BPN) ou muito baixo peso ao nascer (MBPN); 
  • Condições de imunossupressão, como a imaturidade da pele e do trato gastrointestinal; 
  • Internação prolongada; 
  • Uso de nutrição parenteral total (NPT); 
  • Exposição a dispositivos de terapia intensiva, como ventilação mecânica e cateteres venosos centrais; e 
  • Administração de medicamentos que favorecem o crescimento fúngico (ex.: corticosteroides pós-natais e antibióticos de amplo espectro). 

As populações pediátricas que apresentam maior risco de candidemia no Brasil são as que têm: 

  • Internação prolongada na UTI; 
  • Infecções bacterianas prévias; 
  • Imunossupressão relacionada a neoplasias malignas, ao seu tratamento ou transplante, ou imunodeficiências primárias; 
  • Ventilação mecânica (intubação endotraqueal); 
  • Diálise; 
  • Uso prolongado de vancomicina; 
  • Cirurgia recente; 
  • Uso de cateter venoso central (CVC); e/ou 
  • NPT. 

Espécies de Candida e perfil de sensibilidade 

Várias espécies são responsáveis por infecções da corrente sanguínea em crianças, incluindo C. albicansC. parapsilosisC. tropicalisC. glabrataC. haemulonii e C. guilliermondii, sendo que se nota uma mudança em direção a espécies de Candida não albicans nos últimos anos. 

Já nas UTIs neonatais, C. parapsilosis e C. albicans permanecem como as principais espécies, com preocupação crescente quanto à resistência de isolados como C. haemulonii e C. glabrata, que apresentam valores elevados de CIM (concentração inibitória mínima) para azóis e equinocandinas. 

Ressalta-se a necessidade de identificação precisa das espécies e de diagnósticos avançados. 

Ainda não há relatos de casos pediátricos de C. auris no Brasil, mas há relatos em países vizinhos, como Venezuela e Colômbia. 

Saiba mais: Revisão aborda características de Candida auris em pediatria 

Mortalidade associada à candidemia pediátrica 

Essa taxa de mortalidade varia de 14% a 45%, dependendo da idade do paciente, do quadro clínico, das condições subjacentes e do manejo clínico. Os fatores de risco relacionados a uma maior mortalidade incluem choque séptico, internação em UTI, ventilação mecânica, insuficiência renal aguda, permanência do cateter venoso central e atraso na terapia antifúngica. 

Como aumentar a detecção da candidemia por hemocultura? 

A sensibilidade das hemoculturas para detectar candidemia varia de 21% a 71%. A diretriz recomenda a coleta de volume de sangue para cultura conforme a faixa etária e o peso: 

  1. Para lactentes com peso ≤ 1 kg: 2 mL para uma única cultura (4% da volemia); 
  2. Peso entre 1,1 e 2 kg: duas amostras de 2 mL cada (total de 4 mL para cultura; 4% do volume sanguíneo total); 
  3. Crianças com peso entre 2,1 e 12,7 kg: 4 mL para a 1ª cultura e 2 mL para a 2ª, totalizando 6 mL (3% do volume sanguíneo); 
  4. Para pacientes com peso entre 12,8 e 36,3 kg: 10mLpara cada uma das duas culturas, totalizando 20 mL (2,5% do volume sanguíneo); 
  5. Crianças com peso > 36,3 kg: 20 a 30 mLpara cada uma das duas culturas, totalizando 40 a 60 mL (1,8% a 2,7% ou menos do volume sanguíneo total). 

Recomenda-se o uso de sistemas automatizados de hemocultura para o diagnóstico de candidemia, priorizando frascos convencionais capazes de detectar tanto bactérias quanto fungos, dada a maior frequência de infecções bacterianas da corrente sanguínea e o crescimento confiável de espécies de Candida em meios padrão. 

Deve-se incluir a coleta de sangue em um frasco específico para fungos no conjunto inicial de hemoculturas diagnósticas em pacientes de alto risco (ex.: suspeita de candidíase intra-abdominal, transplante hepático recente, neoplasias hematológicas sob quimioterapia com neutropenia prolongada ou em hemodiálise crônica e quando for iniciada terapia antifúngica empírica). 

O ideal é que seja identificada a espécie de Candida que está causando a infecção, mas isso pode ser difícil em laboratórios com poucos recursos. No teste de sensibilidade a antifúngicos, geralmente basta testar se há resistência a fluconazol. Quando necessário, testar resistência às equinocandinas com micafungina ou anidulafungina. 

Biomarcadores e PCR na população pediátrica 

O uso do biomarcador 1,3-β-D-glucano (BDG) em Pediatria continua controverso e precisa de mais estudos. O uso de métodos de PCR para detecção de fungo em pequenos volumes de sangue é vantajoso, principalmente em neonatos e menores de 1 ano, mas não substitui as culturas. 

Tratamento da candidemia em Pediatria 

Deve-se iniciar imediatamente terapia antifúngica, remover cateteres venosos centrais (CVCs) quando apropriado, controlar fatores predisponentes e realizar avaliação clínica para verificar o acometimento de tecidos profundos. 

A identificação da espécie de Candida e o teste de suscetibilidade a antifúngicos são componentes fundamentais do cuidado em todos os casos confirmados. O tratamento deve prosseguir por pelo menos 14 dias após a depuração de Candida da corrente sanguínea e a resolução da neutropenia, quando presente. 

Quando considerar tratamento antifúngico empírico? 

Considerar para pacientes com choque séptico ou com clara deterioração clínica na presença de fatores de risco estabelecidos para candidemia (ex.: permanência prolongada em UTI, exposição a antibióticos de amplo espectro e cateterismo intravascular) e/ou, especialmente, quando a colonização por Candida é documentada em múltiplos sítios. 

Antifúngicos na candidemia neonatal e pediátrica 

Para neonatos, a 1ª linha deve ser a anfotericina B (desoxicolato, preferencialmente, ou lipídica) ou uma equinocandina (micafungina ou caspofungina). Para neonatos sem exposição prévia a azóis e em instituições com baixas taxas de resistência, é adequado prescrever fluconazol, na dose de 12 mg/kg/dia, com dose de ataque de 25 mg/kg. 

Para crianças e adolescentes com candidemia, as equinocandinas devem ser a primeira opção de tratamento. 

Saiba mais: Candidíase invasiva em neonatos prematuros: qual antifúngico escolher? 

Tabela 1. Tratamento antifúngico em situações especiais de candidemia neonatal 

Situação Antifúngico de escolha 
Bezoares de Candida no trato urinário (Anfotericina B desoxicolato OU fluconazol via EV) + (intervenção cirúrgica ou urológica) 
Infecção do sistema nervoso central (SNC) Anfotericina B + 5-flucitosina EV 
Candidemia invasiva refratária ou persistente Polieno OU combinação de polieno com equinocandina ou 5-flucitosina via EV 

Tabela 2. Tratamento antifúngico em situações especiais de candidemia pediátrica 

Situação Antifúngico de escolha 
Infecção do sistema nervoso central (SNC) Anfotericina B lipossomal via EV 
Candidíase disseminada sem envolvimento do SNC Anidulafungina via EV 
Coriorretinite Anfotericina B lipossomal ou fluconazol via EV 
Endoftalmite (Anfotericina B lipossomal ou fluconazol via EV) + (anfotericina B ou voriconazol intravítreo) 
Endocardite Anfotericina B lipossomal ou dose alta de equinocandina via EV + avaliar intervenção cirúrgica. Avaliar fluconazol no seguimento se não for possível remover prótese valvar cardíaca. 

Monitoramento após o início do tratamento antifúngico 

A diretriz recomenda hemoculturas de acompanhamento no 3º e 5º dias após o início do antifúngico como uma estratégia razoável, a fim de documentar o controle da candidemia, pois a fungemia persistente pode indicar falha terapêutica, resistência a antifúngicos ou focos não controlados (ex.: endocardite, abscessos ou dispositivos contaminados). 

Quais exames solicitar em neonatos e crianças com candidemia? 

Solicitar fundo de olho e punção lombar. 

Quando solicitar ecocardiograma? 

Atualmente, não é recomendado para todos. Solicitar para pacientes: 

  1. Com novos sopros cardíacos ou fenômenos embólicos periféricos (ex.: lesões cutâneas); 
  2. Com valvulopatia prévia, válvulas protéticas ou presença de dispositivos eletrônicos cardíacos implantáveis; 
  3. Em hemodiálise há mais de 3 meses; 
  4. Em uso de drogas ilícitas injetáveis; 
  5. Com candidemia persistente apesar de terapia antifúngica adequada. 

Quando interromper a terapia antifúngica empírica? 

A descontinuação deve basear-se na reavaliação clínica e microbiológica. Após 3 a 5 dias de terapia empírica, reavaliar se há: 

  1. Um novo foco de infecção não identificado inicialmente; 
  2. Isolamento de bactérias multirresistentes (MDR) não tratadas adequadamente no início; 
  3. Alteração do estado clínico do paciente e exposição contínua a fatores de risco para candidemia invasiva; 
  4. Novas hemoculturas positivas para Candida, biomarcador fúngico positivo ou outras evidências de infecção profunda por Candida; e 
  5. Multicolonização por Candida. 

Profilaxia antifúngica em neonatos 

Em instituições com alta incidência de candidíase invasiva, para neonatos com peso ao nascer < 1.000 g, prescrever fluconazol na dose de 3 a 6 mg/kg, duas vezes por semana, durante 6 semanas. 

Mensagem prática para o atendimento pediátrico 

Diante de pacientes críticos com choque séptico ou com clara deterioração clínica na presença de fatores de risco estabelecidos para candidemia (ex.: permanência prolongada em UTI, exposição a antibióticos de amplo espectro e cateterismo intravascular) e/ou, especialmente, quando houver colonização por Candida, deve-se considerar iniciar antifúngico empiricamente, lembrando sempre de colher duas amostras de hemoculturas com volume adequado para aumentar a sensibilidade de detecção de candidemia ou outra infecção. Também deve-se considerar a profilaxia antifúngica neonatal para neonatos com extremamente baixo peso ao nascer. 

Autoria

Foto de Renata Carneiro

Renata Carneiro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pediatra pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Intensivista pediátrica pelo INCA e AMIB, mestra em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ. Além da atuação na Afya, atende em consultório particular e é servidora plantonista do CTI do IPPMG-UFRJ e servidora do CEFET-RJ.

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Referências bibliográficas

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