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Pediatria1 maio 2026

Bronquiolite viral aguda: exames são necessários?

Exames na bronquiolite devem ser reservados a casos selecionados, pois RX, testes virais e laboratoriais raramente mudam a conduta clínica.
Por Amanda Neves

A bronquiolite viral aguda permanece como uma das principais causas de atendimento em serviços de emergência pediátrica, especialmente em lactentes menores de 12 meses. Nos quadros moderados a graves, o cenário clínico pode incluir hipoxemia, apneia, taquipneia, taquicardia e alterações do nível de consciência, como irritabilidade ou letargia, frequentemente exigindo internação hospitalar e monitorização mais próxima.

Apesar dessa variabilidade de apresentação, há um consenso bem estabelecido: o diagnóstico é clínico e o tratamento é essencialmente de suporte.

Na rotina, entretanto, é comum observar a solicitação de radiografia de tórax, exames laboratoriais e painel viral, muitas vezes sem impacto real na condução. Esse excesso pode aumentar custos, prolongar o tempo de permanência hospitalar e até levar a intervenções desnecessárias. A radiografia de tórax, por exemplo, expõe o paciente à radiação ionizante e seu uso tem sido associado a um aumento de cerca de 13% na prescrição desnecessária de antibióticos, frequentemente decorrente de dificuldades na interpretação, incerteza diagnóstica e achados inespecíficos. Já os exames laboratoriais e testes virais envolvem coleta invasiva, muitas vezes desconfortável para o bebê, além de gerar estresse adicional para os familiares.

Nesse sentido, o estudo de Loveys et al., publicado em 2026 na revista Pediatric Pulmonology, teve por objetivo avaliar criticamente a utilidade de exames complementares na bronquiolite viral aguda no ambiente hospitalar.

Leia também: USG de tórax na bronquiolite: ferramenta útil em UTIP pediátrica

Indian female doctor in a white coat gently examines a baby with a stethoscope in a bright, modern clinic setting.

Metodologia

Trata-se de uma revisão robusta que combinou revisões sistemáticas e estudos primários. Os autores incluíram pesquisas envolvendo lactentes com diagnóstico clínico de bronquiolite viral atendidos em serviços de emergência, incluindo subgrupos com deterioração inesperada e admissão em unidade de terapia intensiva.

Bases de dados como MEDLINE, EMBASE, PubMed, Cochrane Library, CINAHL foram utilizadas, sendo selecionados estudos publicados em inglês, entre 2000 a 19 de fevereiro de 2025.

Foram analisadas diferentes modalidades de investigação, incluindo radiografia de tórax, exames laboratoriais e testes virais. Os critérios de inclusão priorizaram estudos com desfechos clínicos relevantes, como mudança de conduta, internação e uso de antibióticos.

Os desfechos principais avaliaram se os exames alteravam o manejo clínico e se estavam associados a melhores resultados. Também foram analisados potenciais danos, como aumento de intervenções desnecessárias.

Resultados

A análise reuniu 59 estudos (incluindo três revisões sistemáticas e diversos estudos observacionais), totalizando mais de 23 mil lactentes e os dados compilados reforçaram um padrão consistente: na bronquiolite típica, a maioria das investigações pouco contribui para a tomada de decisão clínica.

No caso da radiografia de tórax, a acurácia diagnóstica foi considerada insuficiente. O seu uso esteve ligado ao aumento da prescrição de antibióticos sem melhora dos desfechos clínicos. Em alguns cenários, quase 40% dos lactentes com achados radiológicos benignos receberam antibióticos, evidenciando o risco de interpretação inadequada. Cabe destacar que atelectasias, hiperinsuflação ou infiltrados não se correlacionaram de forma consistente com a gravidade, reforçando seu caráter inespecífico. Ademais, a não realização do exame esteve associada à redução de custos, sem prejuízo clínico.

Os exames laboratoriais também demonstraram aplicabilidade limitada. Não houve associação com mortalidade, e os resultados foram inconsistentes em relação ao tempo de internação. Em lactentes com doença grave, houve algum sinal de utilidade da procalcitonina e da proteína C reativa na admissão em UTI para predizer coinfecção bacteriana, embora com nível de evidência muito baixo. Já em casos de deterioração clínica inesperada, a literatura ainda é escassa, sem dados robustos que orientem claramente a investigação.

Os testes virais, por sua vez, embora úteis para vigilância epidemiológica, raramente impactam decisões clínicas individuais. Não mostraram impacto relevante em desfechos como admissão em UTI, com resultados inconsistentes para hospitalização.

Conclusão

O estudo reforça que o diagnóstico de bronquiolite é clínico. Logo, a história e o exame físico continuam sendo as ferramentas mais importantes.

Na prática, solicitar exames “por rotina” pode mais atrapalhar do que ajudar. Um RX alterado pode induzir antibioticoterapia desnecessária; um exame laboratorial inespecífico pode gerar insegurança e prolongar internação.

Limitações

Os autores destacam limitações importantes, como a heterogeneidade entre os estudos e a ausência de ensaios clínicos randomizados. Além disso, o pequeno número de revisões, a sobreposição de dados e o risco de viés reduzem a qualidade global das evidências e a aplicabilidade dos achados.

Mensagem prática: exames não substituem o raciocínio clínico

Na bronquiolite viral aguda, a abordagem deve ser guiada pelo princípio de que menos é mais. Evitar exames desnecessários reduz iatrogenias, custos e o risco de intervenções inadequadas. Diante disso, o manejo deve ser centrado no paciente, e não nos exames. A investigação ampliada deve ser reservada para situações com dúvida diagnóstica ou sinais de gravidade, onde há real possibilidade de mudança de conduta.

Neste cenário, reconhecer fatores que favorecem o uso excessivo de exames complementares como pressão familiar, insegurança clínica, menor experiência e a sensação de “precisar intervir” é importante a fim de promover uma prática mais racional e alinhada às evidências.

Autoria

Foto de Amanda Neves

Amanda Neves

Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE

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