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Pediatria29 abril 2026

USG de tórax na bronquiolite: ferramenta útil em UTIP pediátrica

USG torácica na bronquiolite pode ajudar a monitorar gravidade e risco de VMI em lactentes internados em UTIP.

A ultrassonografia (USG) pulmonar tem se mostrado uma ferramenta valiosa à beira-leito para avaliar a evolução da bronquiolite viral aguda (BVA) e predizer desfechos, com escores mais altos correlacionando-se com maior gravidade. A USG diafragmática também tem mostrado resultados promissores, embora seu papel ainda seja menos estabelecido. O uso combinado de USG pulmonar e diafragmática, ou USG torácica, é uma abordagem emergente com potencial utilidade clínica. 

Um estudo realizado em Portugal avaliou os achados da USG torácica em lactentes com BVA internados em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) e analisou sua associação com a gravidade da doença e a necessidade de ventilação mecânica invasiva (VMI). 

Doctor making abdominal ultrasound for crying newborn. Pediatrician running ultrasound sensor over infant baby patient tummy in hospital. Healthcare concept

Metodologia 

Desenho e população do estudo 

O estudo, de caráter observacional prospectivo, foi conduzido no Hospital Pediátrico da Unidade Local de Saúde de Coimbra, em Portugal. Foram incluídos lactentes de até 2 anos admitidos na UTIP entre 1º de novembro de 2023 e 28 de fevereiro de 2025. 

Os pesquisadores seguiram a definição da Academia Americana de Pediatria, abrangendo pródromo viral do trato respiratório superior, com consequente aumento do esforço respiratório e sibilos. 

Critérios de exclusão 

Foram excluídos pacientes com: 

  • cardiopatia congênita complexa; 
  • doença pulmonar crônica; 
  • distúrbios neuromusculares; 
  • impossibilidade de realização da avaliação por USG nas primeiras 24 horas de admissão na UTIP. 

Avaliação por USG torácica 

A USG torácica foi realizada à beira do leito nos dias 1, 3 e 5 de internação na UTIP. Os parâmetros analisados foram: 

  • escore de ultrassom pulmonar (lung ultrasound score – LUS); 
  • excursão diafragmática (diaphragmatic excursion – DE); 
  • espessura diafragmática (diaphragmatic thickness – DT); 
  • fração de espessamento (thickening fraction – DTf). 

A gravidade clínica foi avaliada pelo Escore de Bronquiolite de Sant Joan de Déu (Bronchiolitis Score of Sant Joan de Déu – BROSJOD) e por outros indicadores clínicos. 

Resultados com exemplos 

Características clínicas da amostra 

Foram incluídos 26 pacientes. O patógeno identificado com maior frequência foi o vírus sincicial respiratório (VSR), presente em 16 casos. A coinfecção viral foi detectada em oito crianças, e a coinfecção bacteriana foi identificada em duas. 

Dezoito pacientes receberam antibioticoterapia. Ao todo, 22 lactentes fizeram uso de oxigenoterapia, em baixo ou alto fluxo, e/ou ventilação não invasiva (VNI). Cinco pacientes foram submetidos à VMI. Um paciente evoluiu de VNI para VMI e um paciente precisou de medicamentos vasoativos. 

Evolução dos parâmetros ultrassonográficos 

Os pesquisadores observaram diminuição do LUS ao longo do tempo, enquanto DE e DTf aumentaram. Esse comportamento acompanhou a melhora clínica dos pacientes durante a internação. 

No primeiro dia de avaliação: 

  • LUS e DTf variaram de acordo com a fração inspirada de oxigênio (FiO₂) necessária; 
  • o LUS apresentou área sob a curva de 0,806 para predizer FiO₂ ≥ 50%, com ponto de corte de 8,5, sensibilidade de 63,6% e especificidade de 93,3%; 
  • valores mais baixos de DT e DTf foram observados de forma consistente em pacientes que necessitaram de VMI; 
  • LUS, DE e DT apresentaram correlação positiva com o BROSJOD; 
  • DTf apresentou correlação inversa com o BROSJOD. 

No quinto dia, apenas o LUS permaneceu significativamente associado à evolução clínica. 

Interpretação prática dos achados 

Os resultados sugerem que LUS e DTf estão associados à gravidade e à progressão da doença em lactentes com BVA. A redução do LUS e o aumento de DE e DTf ao longo do tempo podem refletir recuperação respiratória durante a internação. 

Além disso, os achados indicam que parâmetros diafragmáticos mais baixos, especialmente DT e DTf, podem estar associados à necessidade de suporte ventilatório, reforçando o potencial da USG torácica como ferramenta complementar de monitoramento à beira-leito em UTIP. 

Leia mais: Bronquiolite viral aguda: manejo e suporte em UTI Pediátrica

Mensagem prática 

A USG torácica pode ser uma ferramenta complementar útil na avaliação de lactentes com bronquiolite viral aguda grave internados em UTIP. O LUS parece acompanhar a gravidade e a evolução clínica ao longo da internação, enquanto parâmetros diafragmáticos, como DT e DTf, podem ajudar na identificação precoce de pacientes com maior risco de deterioração e necessidade de VMI. 

Na prática, esses achados reforçam o valor da ultrassonografia à beira-leito como método dinâmico de monitoramento, especialmente quando integrada à avaliação clínica. No entanto, os resultados devem ser interpretados considerando o tamanho reduzido da amostra e o caráter observacional do estudo. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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