A ultrassonografia (USG) pulmonar tem se mostrado uma ferramenta valiosa à beira-leito para avaliar a evolução da bronquiolite viral aguda (BVA) e predizer desfechos, com escores mais altos correlacionando-se com maior gravidade. A USG diafragmática também tem mostrado resultados promissores, embora seu papel ainda seja menos estabelecido. O uso combinado de USG pulmonar e diafragmática, ou USG torácica, é uma abordagem emergente com potencial utilidade clínica.
Um estudo realizado em Portugal avaliou os achados da USG torácica em lactentes com BVA internados em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) e analisou sua associação com a gravidade da doença e a necessidade de ventilação mecânica invasiva (VMI).

Metodologia
Desenho e população do estudo
O estudo, de caráter observacional prospectivo, foi conduzido no Hospital Pediátrico da Unidade Local de Saúde de Coimbra, em Portugal. Foram incluídos lactentes de até 2 anos admitidos na UTIP entre 1º de novembro de 2023 e 28 de fevereiro de 2025.
Os pesquisadores seguiram a definição da Academia Americana de Pediatria, abrangendo pródromo viral do trato respiratório superior, com consequente aumento do esforço respiratório e sibilos.
Critérios de exclusão
Foram excluídos pacientes com:
- cardiopatia congênita complexa;
- doença pulmonar crônica;
- distúrbios neuromusculares;
- impossibilidade de realização da avaliação por USG nas primeiras 24 horas de admissão na UTIP.
Avaliação por USG torácica
A USG torácica foi realizada à beira do leito nos dias 1, 3 e 5 de internação na UTIP. Os parâmetros analisados foram:
- escore de ultrassom pulmonar (lung ultrasound score – LUS);
- excursão diafragmática (diaphragmatic excursion – DE);
- espessura diafragmática (diaphragmatic thickness – DT);
- fração de espessamento (thickening fraction – DTf).
A gravidade clínica foi avaliada pelo Escore de Bronquiolite de Sant Joan de Déu (Bronchiolitis Score of Sant Joan de Déu – BROSJOD) e por outros indicadores clínicos.
Resultados com exemplos
Características clínicas da amostra
Foram incluídos 26 pacientes. O patógeno identificado com maior frequência foi o vírus sincicial respiratório (VSR), presente em 16 casos. A coinfecção viral foi detectada em oito crianças, e a coinfecção bacteriana foi identificada em duas.
Dezoito pacientes receberam antibioticoterapia. Ao todo, 22 lactentes fizeram uso de oxigenoterapia, em baixo ou alto fluxo, e/ou ventilação não invasiva (VNI). Cinco pacientes foram submetidos à VMI. Um paciente evoluiu de VNI para VMI e um paciente precisou de medicamentos vasoativos.
Evolução dos parâmetros ultrassonográficos
Os pesquisadores observaram diminuição do LUS ao longo do tempo, enquanto DE e DTf aumentaram. Esse comportamento acompanhou a melhora clínica dos pacientes durante a internação.
No primeiro dia de avaliação:
- LUS e DTf variaram de acordo com a fração inspirada de oxigênio (FiO₂) necessária;
- o LUS apresentou área sob a curva de 0,806 para predizer FiO₂ ≥ 50%, com ponto de corte de 8,5, sensibilidade de 63,6% e especificidade de 93,3%;
- valores mais baixos de DT e DTf foram observados de forma consistente em pacientes que necessitaram de VMI;
- LUS, DE e DT apresentaram correlação positiva com o BROSJOD;
- DTf apresentou correlação inversa com o BROSJOD.
No quinto dia, apenas o LUS permaneceu significativamente associado à evolução clínica.
Interpretação prática dos achados
Os resultados sugerem que LUS e DTf estão associados à gravidade e à progressão da doença em lactentes com BVA. A redução do LUS e o aumento de DE e DTf ao longo do tempo podem refletir recuperação respiratória durante a internação.
Além disso, os achados indicam que parâmetros diafragmáticos mais baixos, especialmente DT e DTf, podem estar associados à necessidade de suporte ventilatório, reforçando o potencial da USG torácica como ferramenta complementar de monitoramento à beira-leito em UTIP.
Leia mais: Bronquiolite viral aguda: manejo e suporte em UTI Pediátrica
Mensagem prática
A USG torácica pode ser uma ferramenta complementar útil na avaliação de lactentes com bronquiolite viral aguda grave internados em UTIP. O LUS parece acompanhar a gravidade e a evolução clínica ao longo da internação, enquanto parâmetros diafragmáticos, como DT e DTf, podem ajudar na identificação precoce de pacientes com maior risco de deterioração e necessidade de VMI.
Na prática, esses achados reforçam o valor da ultrassonografia à beira-leito como método dinâmico de monitoramento, especialmente quando integrada à avaliação clínica. No entanto, os resultados devem ser interpretados considerando o tamanho reduzido da amostra e o caráter observacional do estudo.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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