Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria13 julho 2026

Ausência parental na infância: impactos na saúde mental

Revisão sistemática avalia a relação entre ausência parental, ansiedade, depressão e outros desfechos de saúde mental na infância.
Por Amanda Neves

A presença dos pais exerce papel fundamental no desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança. Além de proporcionar segurança e suporte afetivo, o ambiente familiar favorece a aquisição de habilidades de regulação emocional e de enfrentamento de adversidades. A ausência parental, por morte ou outras circunstâncias, pode comprometer esse processo e aumentar o risco de transtornos mentais. 

Crianças órfãs frequentemente vivenciam diferentes desafios, incluindo ruptura dos vínculos familiares, institucionalização, dificuldades socioeconômicas e menor acesso aos serviços de saúde. Essas adversidades podem afetar negativamente o bem-estar psicológico e o desenvolvimento infantil ao longo da vida, reforçando a necessidade de estratégias de promoção, prevenção e cuidado em saúde mental direcionadas a essa população. 

Nesse contexto, o estudo de Barry et al., publicado em maio de 2026 no Saudi Medical Journal, teve como objetivo avaliar as evidências sobre a relação entre ausência parental e saúde mental. Para isso, os autores compararam crianças órfãs com crianças que viviam com seus pais por meio de uma revisão sistemática e metanálise. 

Como a revisão sistemática foi conduzida 

Trata-se de uma revisão sistemática com metanálise. Os autores realizaram buscas nas bases PubMed, MEDLINE e ScienceDirect, sem restrição quanto ao período de publicação, identificando 1.017 estudos após a remoção das duplicatas. 

Foram incluídos estudos observacionais, do tipo caso-controle ou transversal comparativo, envolvendo crianças e adolescentes de até 18 anos que haviam perdido um ou ambos os pais. O grupo de comparação foi composto por crianças que conviviam com seus pais. Foram excluídos os estudos envolvendo órfãos em decorrência da aids e aqueles que não utilizaram instrumentos validados para a avaliação da saúde mental. 

Saiba mais: Agonistas de GLP-1 reduzem risco de piora em pacientes com depressão e ansiedade 

Ansiedade e sofrimento psicológico foram mais frequentes 

A revisão incluiu seis estudos realizados na Etiópia, Tanzânia, Gana, Índia, Paquistão e Turquia, envolvendo participantes de 6 a 19 anos provenientes de orfanatos e escolas públicas. 

De forma consistente, as crianças com ausência parental apresentaram níveis mais elevados de ansiedade, depressão, agressividade e sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. Também foram observados pior bem-estar psicológico, maior número de sintomas somáticos e maior disfunção social. 

Por outro lado, não foram identificadas diferenças significativas entre os grupos quanto à resiliência ou à autoeficácia. 

Na metanálise, a ausência parental não se associou a aumento estatisticamente significativo dos sintomas de depressão, com diferença média padronizada de 0,77 e valor de p de 0,10. Entretanto, foi observada elevada heterogeneidade entre os estudos, com I² de 86%. 

Em contrapartida, as crianças órfãs apresentaram níveis significativamente mais elevados de ansiedade quando comparadas àquelas que viviam com seus pais, com diferença média padronizada de 0,68, intervalo de confiança de 95% entre 0,09 e 1,27 e valor de p de 0,02. 

Fatores de proteção também influenciam a saúde mental 

Os achados da revisão reforçam que a ausência parental está associada a maior vulnerabilidade emocional na infância, incluindo aumento dos sintomas de ansiedade, agressividade, sofrimento psicológico e prejuízo do bem-estar. 

Entretanto, os resultados sugerem que a perda dos pais não determina, isoladamente, a evolução da saúde mental. Essa evolução também pode ser influenciada por fatores como a qualidade dos cuidadores, o suporte social e o contexto socioeconômico. 

A manutenção de níveis semelhantes de resiliência e autoeficácia entre os grupos destaca a relevância dos fatores de proteção no enfrentamento dessas adversidades. Nesse cenário, estratégias de apoio psicológico precoce e fortalecimento das redes de cuidado são fundamentais para reduzir os impactos relacionados à perda parental. 

Saiba mais: O que realmente funciona no tratamento do transtorno do espectro autista (TEA)? 

Mensagem prática 

Mais do que reconhecer a orfandade como um fator de risco para problemas de saúde mental, o estudo destaca a importância de fortalecer as redes de apoio, oferecer acompanhamento psicológico oportuno e promover ambientes de cuidado estáveis. 

Na prática pediátrica, a identificação precoce de sinais de sofrimento emocional nessa população pode representar uma oportunidade importante para prevenir transtornos mentais persistentes na vida adulta. 

Autoria

Foto de Amanda Neves

Amanda Neves

Editora médica na Afya. Formada em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com residência médica em Pediatria pela mesma instituição (2026).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria