O tromboembolismo venoso (TEV) é uma causa relevante de morbidade em crianças hospitalizadas e naquelas com doenças crônicas. Apesar disso, ainda há lacunas importantes quanto ao uso de anticoagulação profilática nesse grupo.
Com o objetivo de orientar essa prática, a American Society of Hematology (ASH) e a International Society on Thrombosis and Haemostasis (ISTH) publicaram, em abril de 2026, novas diretrizes na revista Blood Advances. Confira abaixo os principais pontos das novas recomendações.
Metodologia
Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, utilizando a abordagem GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) para classificar a qualidade das evidências e formular as recomendações.
O guideline focou em:
- Profilaxia primária (sem tromboembolismo prévio)
- Profilaxia secundária apenas em pacientes com síndrome do anticorpo antifosfolipídeo
Não foram abordadas:
- Terapias antiplaquetárias (ex.: aspirina, clopidogrel)
- Tromboprofilaxia mecânica (ex.: compressão pneumática)
Veja também: Tromboprofilaxia em adolescentes
Recomendações das diretrizes
Leucemia/Linfoma linfoblástico
- A decisão sobre anticoagulação profilática deve ser individualizada (recomendação condicional)
Subgrupos com possível benefício
- Idade ≥10 anos
- Obesidade
- Imunofenótipo de células T
- Leucemia linfoblástica aguda de alto risco
- História pessoal ou familiar de trombose
Fatores de risco para sangramento
- Idade mais jovem
- Sangramento prévio
- Trombocitopenia grave
- Disfunção renal
Considerações práticas
- Utilizar durante ciclos com asparaginase
- Suspender após resolução do risco pró-trombótico
- Interromper no perioperatório
- Ajustar/suspender em plaquetopenia moderada a grave
Antitrombina
- Não se recomenda suplementação em pacientes com leucemia/linfoma linfoblástico
Tumores sólidos
- Não indicar anticoagulação profilática para todos
Possíveis candidatos
- Adolescentes
- Uso de anticoncepcional oral
- Compressão/invasão vascular tumoral
- Cirurgia oncológica de grande porte
- Cateter venoso central (CVC)
- Imobilidade
- Trombofilia ou história prévia de TEV
Nutrição parenteral total (NPT)
- Recomenda-se anticoagulação profilática em uso por >60 dias
- Exclui neonatos e uso <60 dias
Cateter venoso central (CVC)
Curta duração (≤7 dias)
- Não recomendar para todos
- Considerar em alto risco:
- Doença crítica
- Ventilação mecânica invasiva
- Imobilidade prolongada
- Infecção grave
Médio/longo prazo (≥8 dias, sem câncer/NPT)
- Não recomendar profilaxia de rotina
Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (SAF)
- Recomenda-se profilaxia secundária
APLA positivo sem trombose
- Não recomendar profilaxia primária
- Avaliação individual é essencial
Trauma
- Não indicar para todos
Considerar se alto risco
- Choque
- Idade >12 anos
- Imobilidade
- Intubação
- Presença de CVC
Pacientes hospitalizados
- Não recomendar anticoagulação profilática de rotina
Avaliar individualmente
- Imobilidade
- Uso de estrogênio
- Infecção
- Obesidade
- Inflamação
Pacientes críticos
- Não indicar para todos
Possível benefício
- ≥1 ano com CVC não tunelizado
- Em ventilação mecânica invasiva
Cirurgia não cardíaca
- Não recomendar profilaxia de rotina
Fatores de risco
- Cirurgias prolongadas
- Imobilização
- CVC >7 dias
- Obesidade
- Trombofilia
- Uso de anticoncepcional oral
Limitações
Ainda há escassez de estudos de alta qualidade sobre anticoagulação profilática em pediatria, o que impacta a força das recomendações.
Mensagem prática
Devido à limitação das evidências, poucos grupos apresentam recomendação direta para anticoagulação profilática:
- Profilaxia primária: pacientes em NPT por mais de 60 dias
- Profilaxia secundária: pacientes com síndrome do anticorpo antifosfolipídeo
Nos demais casos, a decisão deve ser individualizada, considerando o equilíbrio entre risco de tromboembolismo venoso e risco de sangramento.
Autoria

Renata Carneiro da Cruz
Editora médica de Pediatria da Afya ⦁ Mestre em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ ⦁ Residência em Pediatria Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Residência em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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