A alergia ao ovo é a principal alergia alimentar mediada por IgE em vários países. As diretrizes atuais recomendam a introdução do ovo aos 6 meses, ao contrário das diretrizes da década de 1990 e do início dos anos 2000, que indicavam sua introdução entre 1 e 3 anos de idade, pois houve sugestão de efeito protetor na meta-análise de 2016 publicada por Ierodiakonou e colaboradores. Então, para verificar se houve alteração da prevalência da alergia ao ovo com essa introdução aos 6 meses na Austrália, Koplin e colaboradores fizeram um estudo transversal comparativo com duas amostras populacionais de bebês na Austrália, de 2007-2011 e de 2018-2019, na população em geral e em lactentes de alto risco, definidos como lactentes com história de eczema ou com pais que nasceram fora da Austrália. Neste artigo, traremos as principais contribuições desse estudo.
Saiba mais: Alergênicos na introdução alimentar: evidências, segurança e prática

Como o estudo comparou as duas coortes australianas?
Este estudo transversal, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, incluiu bebês de dois estudos populacionais em Melbourne, Austrália, antes (2007-2011; Estudo HealthNuts; n = 5.276) e depois (2018-2019; Estudo EarlyNuts; n = 1.933) de uma atualização das diretrizes, seguindo a diretriz de relato STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).
Os bebês eram elegíveis para participar se tivessem entre 11 e 15 meses e fossem recrutados durante as vacinações de 12 meses de idade. Os responsáveis respondiam a questionários em inglês com dados demográficos, histórico de alergias e alimentação do bebê. Os bebês eram submetidos a testes cutâneos de leitura imediata (skin prick tests – SPTs) para quatro alimentos, incluindo clara de ovo, seguidos de um teste de provocação oral (TPO) com ovo cru, caso apresentassem uma pápula detectável (≥ 1 mm) e não tivessem sofrido reação no mês anterior. Pais que recusavam os SPTs ainda podiam participar respondendo aos questionários.
A introdução do ovo foi definida como a oferta de qualquer alimento contendo ovo, incluindo formas cozidas e assadas, com divisão por faixa etária de introdução: 6 meses ou menos, 7 a 9 meses, 10 a 11 meses e 12 meses ou mais, incluindo casos em que o alimento ainda não havia sido introduzido.
Saiba mais: Introdução alimentar: quando iniciar e o que recomendar?
Critérios usados para definir alergia ao ovo
O eczema precoce foi definido como presente caso houvesse um diagnóstico de eczema relatado pelos responsáveis, iniciado nos primeiros 6 meses de vida e tratado com corticosteroides tópicos.
O desfecho primário foi a prevalência de alergia ao ovo, definida por: um resultado positivo no teste de provocação oral (TPO), história de reação ao ovo no último mês compatível com os critérios de interrupção do TPO, ou anafilaxia ao ovo desde o nascimento em lactentes com pápula de pelo menos 2 mm no teste cutâneo de leitura imediata.
Os dados foram analisados entre março de 2025 e março de 2026. Para isolar uma associação entre a mudança na prevalência de alergia ao ovo e a alteração nas diretrizes, os autores usaram a padronização direta por regressão para estimar a prevalência na amostra de 2018-2019, caso a distribuição de fatores de risco conhecidos tivesse permanecido a mesma da amostra de 2007-2011. Também usaram a imputação múltipla para tratar os dados ausentes. Fizeram análises de subgrupos pré-especificadas para lactentes com eczema precoce, estratificadas pelo país de nascimento dos pais.
O que mudou na idade de introdução do ovo?
Um total de 7.209 de 9.500 lactentes elegíveis foi incluído a partir de duas coortes:
- de 2007-2011: 5.276 lactentes (idade mediana [IQR]: 12,4 [12,2-12,9] meses; 50,8% [2.665 de 5.244] do sexo masculino; taxa de resposta: 76% [5.276 de 6.957]);
- de 2018-2019: 1.933 lactentes (idade mediana [IQR]: 12,5 [12,2-13,0] meses; 51,8% [1.001 de 1.932] do sexo masculino; taxa de resposta: 76% [1.933 de 2.543]).
Houve uma diminuição da idade mediana (IQR) na introdução do ovo de 8 (6-10) meses em 2007-2011 para 6 (6-8) meses em 2018-2019.
Saiba mais: Metanálise identifica fatores de risco para a alergia alimentar em crianças
Redução observada em lactentes com eczema precoce
Após ajustar para fatores de risco de alergia conhecidos, observou-se redução da prevalência de alergia ao ovo de 9,2% em 2007-2011 para 7,6% em 2018-2019 (diferença absoluta ajustada: -1,6 [IC 95%: -3,3 a -0,005] pontos percentuais) nos lactentes no geral e de 34,6% para 21,9% (diferença absoluta ajustada: -12,7 [IC 95%: -20,0 a -5,4] pontos percentuais) nos lactentes com eczema precoce.
Limitações apontadas pelo estudo
A coorte de 2018-2019 teve menos participantes que a coorte de 2007-2011. A coleta dos dados de idade de introdução do ovo de forma retrospectiva pode gerar viés de aferição.
Mensagem prática para a pediatria
Esse estudo populacional australiano de Koplin e colaboradores mostra que houve redução significativa da prevalência da alergia ao ovo em lactentes com a recomendação da diretriz de introdução mais precoce do ovo, da coorte de 2007-2011 para a coorte de 2018-2019.
Autoria

Renata Carneiro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pediatra pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Intensivista pediátrica pelo INCA e AMIB, mestra em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ. Além da atuação na Afya, atende em consultório particular e é servidora plantonista do CTI do IPPMG-UFRJ e servidora do CEFET-RJ.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.