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Pediatria11 julho 2026

Alergia ao ovo: impacto da introdução aos 6 meses em lactentes

Estudo australiano avaliou alergia ao ovo antes e depois de diretrizes para introdução mais precoce em lactentes
Por Renata Carneiro

A alergia ao ovo é a principal alergia alimentar mediada por IgE em vários países. As diretrizes atuais recomendam a introdução do ovo aos 6 meses, ao contrário das diretrizes da década de 1990 e do início dos anos 2000, que indicavam sua introdução entre 1 e 3 anos de idade, pois houve sugestão de efeito protetor na meta-análise de 2016 publicada por Ierodiakonou e colaboradores. Então, para verificar se houve alteração da prevalência da alergia ao ovo com essa introdução aos 6 meses na Austrália, Koplin e colaboradores fizeram um estudo transversal comparativo com duas amostras populacionais de bebês na Austrália, de 2007-2011 e de 2018-2019, na população em geral e em lactentes de alto risco, definidos como lactentes com história de eczema ou com pais que nasceram fora da Austrália. Neste artigo, traremos as principais contribuições desse estudo.

Saiba mais: Alergênicos na introdução alimentar: evidências, segurança e prática

Alergia ao ovo: impacto da introdução aos 6 meses em lactentes

Imagem de azerbaijan_stockers/freepik

Como o estudo comparou as duas coortes australianas?

Este estudo transversal, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, incluiu bebês de dois estudos populacionais em Melbourne, Austrália, antes (2007-2011; Estudo HealthNuts; n = 5.276) e depois (2018-2019; Estudo EarlyNuts; n = 1.933) de uma atualização das diretrizes, seguindo a diretriz de relato STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).

Os bebês eram elegíveis para participar se tivessem entre 11 e 15 meses e fossem recrutados durante as vacinações de 12 meses de idade. Os responsáveis respondiam a questionários em inglês com dados demográficos, histórico de alergias e alimentação do bebê. Os bebês eram submetidos a testes cutâneos de leitura imediata (skin prick tests – SPTs) para quatro alimentos, incluindo clara de ovo, seguidos de um teste de provocação oral (TPO) com ovo cru, caso apresentassem uma pápula detectável (≥ 1 mm) e não tivessem sofrido reação no mês anterior. Pais que recusavam os SPTs ainda podiam participar respondendo aos questionários.

A introdução do ovo foi definida como a oferta de qualquer alimento contendo ovo, incluindo formas cozidas e assadas, com divisão por faixa etária de introdução: 6 meses ou menos, 7 a 9 meses, 10 a 11 meses e 12 meses ou mais, incluindo casos em que o alimento ainda não havia sido introduzido.

Saiba mais: Introdução alimentar: quando iniciar e o que recomendar?

Critérios usados para definir alergia ao ovo

O eczema precoce foi definido como presente caso houvesse um diagnóstico de eczema relatado pelos responsáveis, iniciado nos primeiros 6 meses de vida e tratado com corticosteroides tópicos.

O desfecho primário foi a prevalência de alergia ao ovo, definida por: um resultado positivo no teste de provocação oral (TPO), história de reação ao ovo no último mês compatível com os critérios de interrupção do TPO, ou anafilaxia ao ovo desde o nascimento em lactentes com pápula de pelo menos 2 mm no teste cutâneo de leitura imediata.

Os dados foram analisados entre março de 2025 e março de 2026. Para isolar uma associação entre a mudança na prevalência de alergia ao ovo e a alteração nas diretrizes, os autores usaram a padronização direta por regressão para estimar a prevalência na amostra de 2018-2019, caso a distribuição de fatores de risco conhecidos tivesse permanecido a mesma da amostra de 2007-2011. Também usaram a imputação múltipla para tratar os dados ausentes. Fizeram análises de subgrupos pré-especificadas para lactentes com eczema precoce, estratificadas pelo país de nascimento dos pais.

O que mudou na idade de introdução do ovo?

Um total de 7.209 de 9.500 lactentes elegíveis foi incluído a partir de duas coortes:

  • de 2007-2011: 5.276 lactentes (idade mediana [IQR]: 12,4 [12,2-12,9] meses; 50,8% [2.665 de 5.244] do sexo masculino; taxa de resposta: 76% [5.276 de 6.957]);
  • de 2018-2019: 1.933 lactentes (idade mediana [IQR]: 12,5 [12,2-13,0] meses; 51,8% [1.001 de 1.932] do sexo masculino; taxa de resposta: 76% [1.933 de 2.543]).

Houve uma diminuição da idade mediana (IQR) na introdução do ovo de 8 (6-10) meses em 2007-2011 para 6 (6-8) meses em 2018-2019.

Saiba mais: Metanálise identifica fatores de risco para a alergia alimentar em crianças

Redução observada em lactentes com eczema precoce

Após ajustar para fatores de risco de alergia conhecidos, observou-se redução da prevalência de alergia ao ovo de 9,2% em 2007-2011 para 7,6% em 2018-2019 (diferença absoluta ajustada: -1,6 [IC 95%: -3,3 a -0,005] pontos percentuais) nos lactentes no geral e de 34,6% para 21,9% (diferença absoluta ajustada: -12,7 [IC 95%: -20,0 a -5,4] pontos percentuais) nos lactentes com eczema precoce.

Limitações apontadas pelo estudo

A coorte de 2018-2019 teve menos participantes que a coorte de 2007-2011. A coleta dos dados de idade de introdução do ovo de forma retrospectiva pode gerar viés de aferição.

Mensagem prática para a pediatria

Esse estudo populacional australiano de Koplin e colaboradores mostra que houve redução significativa da prevalência da alergia ao ovo em lactentes com a recomendação da diretriz de introdução mais precoce do ovo, da coorte de 2007-2011 para a coorte de 2018-2019.

Autoria

Foto de Renata Carneiro

Renata Carneiro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pediatra pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Intensivista pediátrica pelo INCA e AMIB, mestra em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ. Além da atuação na Afya, atende em consultório particular e é servidora plantonista do CTI do IPPMG-UFRJ e servidora do CEFET-RJ.

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