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Pediatria20 fevereiro 2026

Metanálise identifica fatores de risco para a alergia alimentar em crianças

Metanálise avalia incidência de alergia alimentar em 4,7% e identifica principais fatores de risco em crianças.

No mundo todo, a alergia alimentar (AA) é uma preocupação crescente de saúde. Somente nos Estados Unidos, a AA afeta mais de 33 milhões de pessoas e a forma mais frequente é a mediada por IgE. Em geral, começa na infância. No entanto, muitas vezes, persiste por toda a vida e pode levar à anafilaxia. Apesar de sua crescente prevalência, as razões para esse aumento e a capacidade de prever quais crianças vão desenvolver ou não AA permanecem obscuras, porque não há evidências que identifiquem populações de alto risco para prevenção. A incidência e os fatores de risco (FR) associados ainda são uma incógnita e, embora os FR possam sinalizar uma maior probabilidade, não são necessariamente causais, sendo as estimativas de incidência precisas essenciais para interpretar o risco absoluto. Infelizmente, essa incerteza deixa famílias, profissionais de saúde e formuladores de políticas sem orientações claras para reconhecer os pacientes de alto risco ou direcionar FR modificáveis. Desta forma, um estudo publicado no JAMA Pediatrics foi conduzido justamente para sintetizar as evidências atuais sobre a incidência e os FR para o desenvolvimento de AA em lactentes e crianças. 

Metodologia 

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática com metanálise cujas buscas foram efetuadas nas bases de dados MEDLINE (a partir de 1946) e Embase (a partir de 1974) até 1º de janeiro de 2025. A análise dos dados ocorreu de 1º de junho a 25 de novembro de 2025. Os dados foram extraídos independentemente por revisores em pares. 

Foram incluídos, para a avaliação de FR (preditivos), estudos de coorte, caso-controle e transversais publicados em qualquer idioma que avaliassem um ou mais FR para o desenvolvimento de AA mediada por IgE em crianças de até 6 anos de idade e que utilizassem análises multivariáveis ​​ajustadas, incluindo pelo menos idade ou sexo. Por outro lado, para estimar a incidência de AA, foram incluídos apenas estudos que confirmaram a AA por testes de provocação oral (TPO). Foram excluídos estudos que avaliaram tanto FR quanto incidência, estudos que abordavam populações pós-transplante ou AA à alfa-gal.  

O desfecho primário foi AA até os 6 anos. 

Resultados 

O estudo inclui 190 artigos, envolvendo 2,8 milhões de participantes em 40 países. Entre os estudos que utilizaram TPO, a incidência global de AA foi provavelmente de 4,7% (certeza moderada).  

Entre 176 estudos que identificaram 342 FR com diferentes níveis de certeza, FR como baixo peso ao nascer, nascimento pós-termo, dieta materna e estresse durante a gestação não apresentaram diferença de risco significativa. Os FR mais fortes e com maior grau de evidência incluíram (OR: odds ratio; DR: diferença de risco; IC 95%: intervalo de confiança de 95%): 

  • Condições alérgicas prévias (como dermatite atópica [eczema] no primeiro ano de vida [OR 3,88; DR 12,0%; IC 95% 8,8%–15,7%]; 
  • Maior gravidade da dermatite atópica (OR 1,22; DR 1,0%; IC 95% 0,6%–1,6%); 
  • Rinite alérgica [OR 3,39; DR 10,1%; IC 95% 6,7%–14,4%]; 
  • Sibilância [OR 2,11; DR 5,0%; IC 95% 2,1%–8,8%]); 
  • Aumento da perda transepidérmica de água (OR 3,36; DR 10,0%; IC 95% 6,3%–14,8%); 
  • Variações na sequência do gene da filagrina (OR 1,93; DR 4,2%; IC 95% 2,4%–6,4%); 
  • Introdução tardia de alimentos sólidos (por exemplo, amendoim após 12 meses [OR 2,55; DR 6,8%; IC 95% 1,9%–14,6%]); 
  • Uso de antibióticos na infância (no primeiro mês de vida [OR 4,11; DR 12,8%; IC 95% 0,4%–40%], no primeiro ano [OR 1,39; DR 1,8%; IC 95% 0,8%–3,1%] e durante a gestação [OR 1,32; DR 1,5%; IC 95% 0,6%–2,5%]); 
  • Sexo masculino (OR 1,24; DR 1,1%; IC 95% 0,7%–1,6%); 
  • Ser primogênito (OR 1,13; DR 0,6%; IC 95% 0,3%–1,0%); 
  • História familiar de AA (mãe [OR 1,98; DR 4,4%; IC 95% 2,5%–6,8%], pai [OR 1,69; DR 3,2%; IC 95% 1,3%–5,5%], ambos os pais [OR 2,07; DR 4,8%; IC 95% 1,3%–5,5%], irmãos [OR 2,36; DR 6,0%; IC 95% 4,4%–8,0%]); 
  • Migração parental (OR 3,28; DR 9,7%; IC 95% 4,9%–16,3%); 
  • Autodeclaração como pessoa negra (comparado à branca [OR 3,93; DR 12,1%; IC 95% 5,2%–22,5%] e à branca não hispânica [OR 2,23; DR 5,5%; IC 95% 3,0%–8,7%]); 
  • Parto cesáreo (OR 1,16; DR 1,0%; IC 95% 0,3%–1,2%).  

Leia mais: Alergênicos na introdução alimentar: evidências, segurança e prática

Conclusão 

Foram identificados os FR mais fortes e confiáveis ​​para o desenvolvimento de AA em crianças: condições alérgicas prévias, dermatite atópica, aumento da perda transepidérmica de água na pele, variações na sequência do gene da filagrina, introdução tardia de alimentos sólidos, exposição a antibióticos durante a infância e o parto, sexo masculino, primogenitura, histórico familiar de alergia, migração dos pais, autoidentificação como negro e parto cesáreo. Portanto, segundo os pesquisadores, os resultados apoiam que a AA surja da convergência de mecanismos ambientais, comórbidos, genéticos, microbianos e sociais, além da exposição necessária ao alérgeno, frequentemente impulsionada por um ou mais FR principais em combinação com outros FR secundários. Esses desfechos são relevantes para orientar a prática clínica, as políticas e a pesquisa direcionada ao tema. 

Limitações 

Os pesquisadores descreveram que as principais limitações deste estudo refletem lacunas na literatura existente, com a predominância de evidências de baixa ou muito baixa certeza para muitos FR, o ajuste inconsistente para fatores de confusão entre os artigos analisados e a capacidade limitada de avaliar os efeitos combinados ou interativos dos fatores identificados. Algumas associações podem ser independentes (como as que envolvem variantes da filagrina, perda transepidérmica de água e dermatite atópica), mas também podem representar um mecanismo subjacente relacionado à pele. Por outro lado, achados sobre aleitamento materno exclusivo prolongado podem ser confundidos pela introdução alimentar tardia. A causalidade permanece incerta e requer confirmação por meio de ensaios clínicos randomizados robustos.  

Além disso, a maioria dos estudos foi conduzida em países de alta renda, o que limita a generalização dos resultados. Embora as estimativas de incidência tenham sido baseadas em casos confirmados por TPO, as análises de FR incluíram diagnósticos confirmados e não confirmados. A falta de coortes de nascimento contemporâneas nos Estados Unidos que utilizem TPO protocolizados destaca a importância de estudos em andamento (como a coorte SunBEAm) para abordar essas lacunas. 

Comentário 

Esse estudo traz informações importantes para a prática clínica, pois permite identificar as crianças com maior risco para AA de forma mais clara, permitindo a adoção de estratégias de prevenção direcionadas.  

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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