O movimento físico é um organizador central do neurodesenvolvimento infantil, modulando sistemas neuroendócrinos, regulando a vigilância emocional e impulsionando a maturação motora e cognitiva.1-4 Isso fica claro a partir da observação de que a redução das oportunidades de brincar ao ar livre e de praticar atividades físicas na primeira infância associa‑se a piores desfechos de autorregulação, competências socioemocionais e prontidão escolar.1,5 Dessa forma, políticas e práticas que promovam atividade física nos primeiros anos são essenciais para a redução do sedentarismo.1 Em paralelo, o uso prolongado de telas está consistentemente associado ao deslocamento de tempo de brincadeiras ativas, com potenciais impactos cumulativos no desenvolvimento global da criança.1,5

Consequência da ausência do movimento na infância
Biologicamente, o estímulo motor regular reduz a reatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e, em cascata, modula circuitos córtico-límbicos, modulando também a inflamação sistêmica.2-4 Por vias neuroimunes e comportamentais, o movimento também influencia a saúde gastrointestinal, melhorando a motilidade colônica, reduzindo a retenção fecal e favorecendo um ambiente eubiótico.2-4 Em crianças, um maior tempo de atividade física relaciona‑se a menor chance de constipação funcional e melhor padrão evacuatório, enquanto o sedentarismo e a alta exposição a telas associam-se a uma menor frequência evacuatória e piora da consistência das fezes.1-3
Sendo assim, mudanças comportamentais para o aumento de movimentação corporal são necessárias.1-3,5 E tais medidas são sinérgicas à terapêutica farmacológica, quando indicada, melhorando adesão, responsividade clínica e desfechos funcionais.6,7 A integração entre promoção de movimento e manejo farmacológico visa restabelecer a fisiologia colônica e romper o ciclo de dor, retenção e piora progressiva, muito prevalente em constipação funcional na infância.6-8
Orientações comportamentais
Na infância, a bidirecionalidade do eixo microbiota–intestino–cérebro oferece um quadro explicativo para a convergência entre movimento, saúde intestinal, regulação emocional e maturação cognitiva.2-4 A atividade física modula composição microbiana, produção de ácidos graxos de cadeia curta e integridade da barreira intestinal, com repercussões em neuroinflamação, plasticidade sináptica e circuitos do estresse.2-4
Com isso, a pediatria deve integrar recomendações para o aumento de movimentação corporal livre e estruturada, redução do tempo de tela e suporte comportamental para hábitos intestinais saudáveis.1-3,5 A orientação prática pode incluir janela diária de brincadeiras ao ar livre, pausas ativas entre atividades sedentárias, rotinas de higiene do sono sem telas e rituais pós-prandiais que facilitem o reflexo gastrocólico.1,2,4 A educação familiar sobre sinais de alarme e a manutenção de diários evacuatórios alinhados a metas de atividade física criam um arcabouço de cuidado centrado na criança.1,5
Tratamento farmacológico
O aconselhamento para reduzir o tempo de tela diminui a imobilidade prolongada, favorece o tônus parassimpático e potencializa a ação de terapias farmacológicas para constipação funcional pediátrica, quando indicadas, como os laxativos osmóticos, sincronizando hábitos intestinais com janelas de maior motilidade.1,2,5 Entre esses tratamentos, destaca-se a lactulose, dissacarídeo não absorvível com efeito osmótico luminal, que aumenta o conteúdo hídrico fecal, reduz o tempo de trânsito e facilita a evacuação, reduzindo a dor, com eficácia e segurança sustentadas por revisões sistemáticas e metanálises.7,8
Revisões comparativas sugerem benefício clínico da lactulose em desfechos diversos, incluindo número de evacuações por semana e sucesso terapêutico.7,8 Em crianças de 0 a 5 anos, estudos reforçam que intervenções farmacológicas, quando necessárias e guiadas por diagnóstico clínico acurado, superam rotinas exclusivamente comportamentais para atingir remissão sintomática sustentada.6,7 Estratégias de desmame graduado de laxativos osmóticos, após estabilização clínica, são viáveis e podem reduzir recidivas, embora dados de ensaios multicêntricos sugiram a necessidade de protocolos mais padronizados e seguimento cuidadoso.9
Com o aumento das atividades físicas, é preciso se atentar que, apesar de saudáveis e recomendadas para o desenvolvimento ósseo, muscular e psicomotor, não são isentas de riscos, como machucados ou lesões dermatológicas e microvasculares. E, para essas, o polissulfato de mucopolissacarídeo (heparinoide) apresenta propriedades anti-edematosas, antitrombóticas locais e moduladoras de barreira cutânea, com efeitos documentados em modelos de dano epidérmico e em contextos clínicos de edema e equimose.10-12
Estudos clínicos demonstram redução de equimose e edema pós-operatórios com aplicação tópica de heparinoide, sugerindo benefício em processos de resolução inflamatória e na melhora de microcirculação dérmica.10,11 Em situações vasculares superficiais, relatos e séries clínicas em população pediátrica apontam utilidade em flebites iatrogênicas, embora protocolos preventivos também incluam outras formulações tópicas com diferentes mecanismos.13,14 Em modelos de barreira cutânea alterada por glicocorticoides, formulações contendo heparinoide atenuam a disfunção epidérmica, reforçando um papel adjuvante na recuperação estrutural do estrato córneo.12 Na puericultura, tais propriedades podem ser consideradas no manejo de intercorrências cutâneo-vasculares circunscritas, sempre em alinhamento com indicações, faixas etárias e formas farmacêuticas aprovadas localmente.10,12,13
Conclusão
Por fim, pode-se enfatizar que a puericultura centrada no movimento — com priorização de intervenção comportamental estruturada, aumento de atividade física e redução do tempo de telas — fundamenta ganhos no desenvolvimento global infantil e na saúde intestinal. Nesse contexto, recomenda-se confirmar o diagnóstico de constipação funcional e excluir sinais de alarme, instituir lactulose como laxativo osmótico quando indicado, monitorando resposta e planejando desmame gradual após estabilidade, bem como considerar polissulfato de mucopolissacarídeo tópico em condições dermatológicas/microvasculares alinhadas à bula e à evidência disponível.
Vale lembrar ainda de sempre respeitar indicações, faixas etárias, posologias e advertências aprovadas por autoridades regulatórias locais e privilegiar acompanhamento longitudinal em puericultura, uma vez que tais terapias farmacológicas, quando bem indicadas, agregam valor clínico mensurável e seguro.1-8,10-12
Autoria

Larissa Pires Marquite da Silva
Graduada em Medicina pela UNIGRANRIO • Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Geral de Nova Iguaçu • Título de Especialista em Neonatologia pela Sociedade Brasileira de Pediatria • Pós-Graduação em Medicina Intensiva Pediátrica e Neonatal pela Faculdade Redentor • Possui experiência em Terapia Intensiva Neonatal e Pediátrica e Pediatria.
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