A transfusão sanguínea na artroplastia total de joelho (ATJ) primária já foi amplamente associada a complicações como tromboembolismo venoso (TEV) e infecção periprotética (IP). Mas e quando o procedimento é uma revisão, cirurgia mais longa, mais complexa, com maior perda sanguínea e paciente frequentemente mais frágil? Será que os mesmos riscos se aplicam, ou a magnitude do problema é ainda maior? Um estudo americano recente traz números que merecem atenção.
Pesquisadores do Departamento de Cirurgia Ortopédica da Keck School of Medicine, da Universidade do Sul da Califórnia conduziram uma análise retrospectiva do banco de dados Premier Healthcare Database (PHD), que captura cerca de 25% das internações hospitalares nos Estados Unidos.
Foram identificados 56.290 pacientes submetidos a revisão da ATJ por indicação asséptica entre 2016 e 2023. Destes, 8.350 (14,8%) receberam transfusão intra ou pós-operatória. Após pareamento por escore de propensão (1:1), 2.228 pacientes transfundidos foram comparados a 2.228 não transfundidos, com equilíbrio para idade, sexo, comorbidades, uso de ácido tranexâmico, dexametasona, agentes profiláticos para TEV e características hospitalares.
O objetivo foi quantificar o risco de complicações tromboembólicas e infecciosas em 90 dias associado à transfusão nessa população específica. O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Arthroplasty.

A transfusão aumenta o risco de tromboembolismo venoso?
Sim, e de forma expressiva. Os pacientes transfundidos apresentaram taxas significativamente mais altas de TEV composto (5,34% vs 2,87%), trombose venosa profunda (3,59% vs 1,97%) e embolia pulmonar (2,42% vs 1,35%). Na análise multivariada, a transfusão associou-se a um aumento de 96% no risco de TEV composto (OR 1,96; IC95% 1,43-2,70; p < 0,001), 89% no risco de trombose venosa profunda (OR 1,89; IC95% 1,29-2,78; p = 0,001) e 79% no risco de embolia pulmonar (OR 1,79; IC95% 1,13-2,82; p = 0,013). Os números são consistentes com a literatura de artroplastia primária, mas o efeito parece ser proporcionalmente maior provavelmente refletindo o maior estado pró-inflamatório e a maior carga de comorbidades dos pacientes submetidos cirurgias de revisão.
E as complicações infecciosas?
Também. A taxa de infecção periprotética aguda (IP) foi de 5,30% no grupo transfundido contra 2,47% no grupo sem transfusão, um aumento de mais de 100% no risco ajustado (OR 2,19; IC95% 1,57-3,04; p < 0,001). O risco de infecção composta (incluindo sepse, pneumonia, ITU e infecção de sítio cirúrgico) foi 93% maior (OR 1,93; IC95% 1,64-2,28; p < 0,001). A sepse (OR 1,99) e a pneumonia (OR 1,96) também foram significativamente mais frequentes.
O mecanismo proposto é a imunomodulação induzida pela transfusão, a chamada “transfusion-related immunomodulation” (TRIM) que pode suprimir a resposta imune do hospedeiro e facilitar a instalação de infecções, especialmente em um ambiente já comprometido como o da cirurgia de revisão.
A transfusão aumenta a mortalidade e as readmissões?
Sim. A mortalidade em 90 dias foi de 2,02% no grupo transfundido versus 0,99% no grupo sem transfusão (OR 2,01; IC95% 1,16-3,47; p = 0,012). A taxa de readmissão hospitalar também foi maior: 16,0% versus 11,0% (OR 1,55; IC95% 1,30-1,85; p < 0,001). Esses números reforçam que a transfusão não é um evento trivial, ela se associa a desfechos que impactam diretamente a recuperação do paciente e os custos do sistema.
Qual a mensagem prática do estudo?
O estudo traz evidências robustas de que a transfusão sanguínea na revisão de ATJ está associada a um risco aproximadamente duas vezes maior de TEV, PJI, sepse, pneumonia, readmissão e mortalidade. Esses dados devem informar protocolos de conservação sanguínea e decisões transfusionais mais restritivas.
O uso de ácido tranexâmico esteve presente em cerca de 64% dos pacientes de ambos os grupos, indicando que essa já é uma prática estabelecida, mas o estudo sugere que mesmo com esta medicação, a transfusão mantém seu efeito deletério. Isso reforça a necessidade de estratégias adicionais: otimização pré-operatória da anemia, uso de agentes eritropoéticos em casos selecionados, e adoção de limiares transfusionais mais rigorosos, especialmente em pacientes sem doença cardiovascular significativa.
A decisão pela transfusão deve ser individualizada, mas o ônus da prova agora recai sobre o benefício esperado. Para a maioria dos pacientes, os riscos associados à transfusão na revisão de joelho parecem superar os potenciais benefícios.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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