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Ortopedia12 março 2026

Artroplastia total de joelho após osteotomias apresenta resultado pior?

Estudo com quase 190 mil cirurgias avalia se ATJ após osteotomia tem pior sobrevida do implante e maior complexidade cirúrgica.
Por Rafael Erthal

A osteotomia de realinhamento do joelho é uma opção de tratamento valiosa para pacientes jovens e ativos com osteoartrite unicompartimental do joelho. Ao retardar a necessidade de uma artroplastia total de joelho (ATJ), ela oferece anos adicionais de função e qualidade de vida. Mas qual é o preço a se pagar quando, eventualmente, a conversão para uma prótese se faz necessária? A resposta, segundo um estudo de base populacional holandês, é que a sobrevida do implante pode ser significativamente menor. 

Pesquisadores holandeses analisaram o registro nacional incluindo 189.932 procedimentos de ATJ realizados entre 2007 e 2022, dos quais 9.835 foram em pacientes com osteotomia prévia.  

Essa pesquisa foi publicada na revista científica “Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy” em fevereiro de 2026 e teve como objetivo comparar a sobrevida, a complexidade cirúrgica e os desfechos clínicos entre ATJs primárias e aquelas realizadas após osteotomias. 

artroplastia total do joelho após osteotomia

A osteotomia prévia influencia a sobrevida da prótese? 

Sim, e de forma negativa. A sobrevida da ATJ em 10 anos foi de 91,1% no grupo com osteotomia prévia, contra 94,0% no grupo de ATJ primária. Após ajuste para fatores de confusão como idade, sexo, classificação ASA e ano cirúrgico, o risco de revisão foi 24% maior no grupo com osteotomia prévia quando utilizados componentes primários. 

 Os dados coletados foram projetados em uma curva de Kaplan-Meier, o que indicou uma diferença estatisticamente significativa em todos os momentos de follow-up. Aos 15 anos, a sobrevida era de 89,3% no grupo osteotomia versus 92,1% no grupo primário. 

A complexidade cirúrgica é maior? 

Os dados confirmam o que nossa intuição já indicava: a ATJ pós-osteotomia é tecnicamente mais difícil. A necessidade de componentes de revisão (hastes, aumentos ou aumento da constrição) foi significativamente maior no grupo com osteotomia prévia: 3% versus 0,5%. Além disso, o uso de componentes de revisão aumentou drasticamente o risco de nova revisão em ambos os grupos, mas de forma particularmente pronunciada nas ATJs primárias (HR 14,8), sugerindo que, quando uma prótese primária já demanda componentes complexos, o cenário é especialmente desfavorável.

Quais foram as principais causas de revisão? 

No grupo com osteotomia prévia, as principais causas de revisão foram instabilidade (32,8%), dor patelar (25,4%) e soltura do componente tibial (21,7%). No grupo primário, dor patelar (29,6%), instabilidade (27,2%) e infecção (21,2%) lideraram as indicações. As diferenças são estatisticamente significativas e apontam para mecanismos de falha distintos entre os grupos. 

E os desfechos funcionais, são piores? 

Surpreendentemente, não. Apesar da menor sobrevida e maior complexidade cirúrgica, os escores funcionais e de dor não diferiram entre os grupos. As análises ajustadas para os escores S para dor em repouso e atividade, KOOS-PS e Oxford Knee Score não demonstraram diferenças significativas em 6 meses e 1 ano de pós-operatório. 

Os autores levantam a hipótese de que isso pode refletir um viés de seleção (apenas 18% dos pacientes do grupo osteotomia responderam aos PROMs) ou que os instrumentos utilizados não sejam suficientemente sensíveis para captar diferenças em populações mais jovens e ativas. 

Qual a mensagem prática para o ortopedista? 

O estudo holandês traz uma mensagem com dupla interpretação. Os achados reforçam o valor da osteotomia como estratégia para postergar a artroplastia em pacientes jovens. Por outro lado, alertam que essa estratégia tem um custo: quando a conversão para ATJ for necessária, o procedimento será tecnicamente mais complexo, frequentemente exigirá componentes de revisão, e a sobrevida do implante será inferior à de uma ATJ primária. 

Isso não deve desencorajar a indicação de osteotomias, mas sim orientar um planejamento cirúrgico mais criterioso no momento da conversão. Evitar a criação de deformidades ósseas e obliquidade articular durante a osteotomia, respeitar o local e o nível da deformidade e plabejar precisamente a cirurgia pode reduzir a necessidade de componentes complexos no futuro e, quem sabe, melhorar a sobrevida das próteses. 

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteudista do Afya Whitebook desde 2017 ⦁  Residência em Ortopedia e Traumatologia pelo INTO ⦁  Especialista em cirurgia de joelho ⦁  Graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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