A profilaxia do tromboembolismo venoso (TEV) na artroplastia total de quadril e joelho sempre gerou debate envolvendo a eficácia e a segurança na prescrição de medicações. Nos últimos anos, a aspirina emergiu como uma opção de escolha para a grande maioria dos pacientes, com evidências robustas de eficácia comparável aos anticoagulantes mais potentes e menor risco de complicações hemorrágicas e infecção periprotética. Mas uma dúvida persiste: e os pacientes com histórico de TEV prévio? Seria seguro e eficaz usar aspirina nesse grupo de maior risco?
Pesquisadores da Mayo Clinic, conduziram um estudo retrospectivo utilizando o banco de dados PearlDiver Mariner para responder exatamente a essa pergunta. Foram identificados pacientes submetidos a artroplastia primária de joelho (ATJ e quadril (ATQ) entre 2010 e 2023 com histórico documentado de TEV (entre três meses e dez anos antes da cirurgia).
Pacientes com câncer ativo ou prévio foram excluídos. Após pareamento por escore de propensão (1:3) para diversos fatores de confusão incluindo idade, sexo, índice de comorbidades e 27 condições clínicas, o grupo que recebeu aspirina foi comparado ao que recebeu outros anticoagulantes (varfarina, heparina de baixo peso molecular ou anticoagulantes orais diretos). Foram incluídos 3.132 pacientes no grupo ATJ e 2.867 no grupo ATQ. O trabalho foi publicado em 2026 no Journal of Arthroplasty.

A aspirina é eficaz na prevenção de TEV em pacientes com histórico prévio?
Sim, e em alguns desfechos mostrou-se superior. No grupo de artroplastia primária de joelho (ATJ), a incidência de TVP foi de 2,5% no grupo não aspirina versus 2,0% no grupo aspirina (p = 0,446), e a de tromboembolismo pulmonar (TEP) foi de 1,3% versus 0,4% (p = 0,027). Em análise de regressão, a aspirina associou-se a risco comparável de TVP (OR 0,80; IC95% 0,49-1,31) e a risco significativamente menor de TEP (OR 0,33; IC95% 0,12-0,85).
No grupo de ATQ, os resultados foram semelhantes: TVP em 1,8% versus 1,2% (p = 0,322) e TEP em 1,1% versus 0,2% (p = 0,024). A aspirina novamente mostrou risco comparável de TVP (OR 0,67; IC95% 0,34-1,32) e menor risco de TEP (OR 0,19; IC95% 0,05-0,93).
E as complicações hemorrágicas e outras complicações?
Não houve diferenças significativas entre os grupos para sangramento gastrointestinal, hematoma, transfusão, anemia por perda sanguínea, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, pneumonia, lesão renal aguda, deiscência de ferida, infecção periprotética, sepse, readmissão ou mortalidade em 90 dias. A aspirina mostrou-se tão segura quanto os anticoagulantes mais potentes, sem aumento do risco de complicações hemorrágicas.
O tempo desde o último TEV influencia a escolha da profilaxia?
Os autores realizaram subanálises estratificando o intervalo entre o TEV prévio e a cirurgia (3 meses a 1 ano, 1 a 2 anos, 2 a 5 anos e 5 a 10 anos). Em todas as faixas, a aspirina mostrou eficácia comparável à dos outros anticoagulantes na prevenção de TVP, sem diferenças significativas. A cronologia do TEV prévio não pareceu alterar a eficácia relativa da aspirina.
Qual o desempenho da aspirina em comparação a cada anticoagulante específico?
As análises por subgrupo revelaram diferenças importantes. Em relação à varfarina, a aspirina associou-se a menor risco de TVP (ATJ: OR 2,24 favorável à aspirina) e de TEP (ATJ: OR 6,44; ATQ: OR 9,27). Em relação à heparina, a aspirina também mostrou menor risco de TEP (ATJ: OR 4,85; ATQ: OR 11,81). Já em comparação aos anticoagulantes diretos, não houve diferenças significativas para TVP, TEP ou outras complicações, sugerindo que ambas apresentam perfis de eficácia semelhantes nessa população, embora os anticoagulantes diretos sejam consideravelmente mais caros e exijam maior adesão.
Qual a mensagem prática para o ortopedista?
O estudo da Mayo Clinic oferece evidências robustas de que a aspirina pode ser uma opção segura e eficaz para profilaxia do TEV em pacientes com histórico de evento tromboembólico prévio, desde que sem neoplasia ativa ou prévia. A aspirina mostrou-se não inferior aos anticoagulantes mais potentes na prevenção de TVP e, em alguns casos, superior na prevenção de TEP, possivelmente por um perfil de segurança que permite melhor adesão e continuidade.
Esses achados corroboram as recomendações do Consenso Internacional de 2021 sobre TEV em artroplastia, que já sugeriam o uso de aspirina mesmo em pacientes considerados de alto risco. Para o cirurgião, a mensagem é clara: histórico de TEV prévio não deve ser, por si só, uma contraindicação à aspirina. A decisão deve ser individualizada, considerando o perfil completo de risco do paciente, mas a aspirina merece um lugar de destaque nesse arsenal, especialmente pelo seu custo-efetividade e perfil de segurança.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
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